terça-feira,16 de abril de 2024
08h42

MACEYORK – TERCEIRA MARGEM DO RIO

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O que seria a terceira margem? Rosa não diz
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Precisamos sempre de boas ideias, e de juntar gentes, na busca de sempre aprender uns com os outros. Juntar pessoas e promover o esclarecimento e o conhecimento deve ser a grande motivação de nossos tempos.

Ao reunir, amáveis leitores e urbaNAUTAS favoritos, as criativas expressões de gênios da raça humana, pensamos em apresentar, neste ensaio, antevisões que preconizamos para o rio e sua cidade.

A denominação “MACEYORK” é um dos muitos frutos da criatividade lúdica, articulada, bem humorada e satírica do alagoano Alberto Leão Maia, Beto Leão, exímio pintor, cineasta, ator, diretor de arte, poeta, escritor, secretário de cultura, curador, colecionador, artista plástico e visual entre tantas habilidades autodidatas e autor de numerosas tiradas de vulto. Maceió e Nova York, cidades tão diferentes das Américas, dividem o interessante fato de possuírem estátuas da Liberdade e serem banhadas pelo Oceano Atlântico. As semelhanças estancam aí. Beto cunhou o termo e o emprestou a primeira e única danceteria da cidade que existiu por um espaço temporal muito curto em galpões do bairro Jaraguá, precisamente na Rua Mato Grosso. A nomenclatura MACEYORK do Beto foi decantada em poema. Deve significar o que se almeja em uma cidade litorânea tão particular, ainda com resquícios provincianos que tem sua denominação devido ao seu rio. Rio Maceió. Representado na sua bandeira. Em nossos dias encontra-se várias denominações em variados trechos desse corpo hídrico. Nova York tem seu Rio Hudson, com maior caudal, e também o modelo de ultra megalópole, onde a escala é imensamente ampliada. A Grande Maçã, cosmopolita e contemporânea.
Em ambos os territórios, houve a importante passagem dos Holandeses, durante o passado de formação. Reza a lenda que os Batavos saíram da capitania de Pernambuco (da qual Alagoas já foi parte) . para fundar New York.
Talvez nenhuma dessas coincidências tenha levado Leão a cunhar o termo. Talvez tenha sido um modo de parodiar: a cidade grande e a cidade pequena. A vanguarda e a província. A tecnologia e a artesania. O presente impregnado de futuro versus o presente prenhe de passados.

Bandeira de Maceió
Bandeira de New York

“A terceira margem do rio” é um interessante e misterioso conto do brilhante João Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, que decanta o sertão. Entre meandros, Rosa tece a relação de pai e filho, cujo elo é a memória e o rio. As águas e o visgo de seu particular mistério e encantamento. O médico, diplomata, poliglota e escritor é amplo na habilidade de narrar. Costumam descrever suas obras como “realismo mágico”.

O que entendemos como a terceira margem do rio: todo Rio da nascente ou minação até a foz ou exutório, percorre o curso, sobre o leito, caminho rampado onde as águas sofrem ação da gravidade para escoar, sempre descendo em direção. O rio é uma ladeira, margeado por ribanceiras, pedras, talvegues, canyons ou outros obstáculos (muitas vezes superados pelos alagamentos nos períodos de chuvas intensas, nas épocas das ditas cheias), relativamente paralelos. Os rios serpenteiam em belos meandros. A filosofia já ensina que não se banha o homem e o rio repetidamente, num mesmo encontro e lugar, o homem já não é o mesmo do mergulho anterior, e as muitas águas já passaram. Os rios são navegados na sua extensão maior, são cruzados ou atravessados na sua extensão menor: a val, a nado, em ponte, na balsa. O rio tem duas margens, a direita e a esquerda já secularmente batizadas no Sena em Paris. O que seria a terceira margem? Rosa não diz.
Se possível for geometrizar os rios, seriam distorcidos triângulos pois nascem num ponto cujo vértice origina as margens. Então a terceira margem será o exutório. Onde o rio termina, deságua, normalmente em outro corpo hídrico: outro rio maior, uma Laguna ou o mar. Essa teoria, urbaNAUTAS, agora apresentada, poderá ser uma literária forçação de barra, que o escritor deixou margem. Mais uma.

Fazer por onde.
“Tu Liberdade formosa, gloriosas hosanas entoa”…
“Liberdade ainda que à tarde”.
“Mergulhar…
… no azul…
… do Mar”.
“lendário, misterioso e fascinante”.

Março é o mês que carreia o outono, cá sob a linha do Equador. Apesar do calor com altas temperaturas neste ano da Graça de 2024, as águas de março já caíram e há previsão de que cairão. Marco do mês, mês das Águas. O antigo Rio Maçayó e hoje, Rio Maceió, é o Rêgo da Pitanga, é o Rio Reginaldo e é o Rio Salgadinho.
Então Rio Reginaldo Pitanga Salgadinho, nome e sobrenome. Poderá ser um senhor Rio. O nosso Rio. E Pergunto: o que fizemos com este Rio, do convívio à ruptura? E ainda, o que faremos deste Rio, da ruptura à reconciliação?
No aguardo, Maceyork, no aguardo.

Maceió, Das Alagoas,
terça feira, 12 de março de 2024

Este ensaio, o de número 40, aqui no Notícias do Centro,
é dedicado aos pacientes e queridos leitores urbaNAUTAS,
que com palavras preciosas nos incentivam a expor nossas ideias.

Fotos: RCF
Texto: RCF

6 respostas

  1. Querida Aída, tão preciosa em seus escritos, imagens e poesias! Muito me honra perceber seu carinho pela praia da Avenida! Imaginamos um parque linear acompanhando o curso desse tão nosso corpo hídrico. Sem carrear dejetos ou detritos. Piscosidade a toda prova, além de cutias, pacas, saguins, preguiças e tracajás. Pássaros de todas as espécies e os migratórios.
    Quantas gerações vindouras poderão desfrutar!
    Vamos navegar!
    😍😘

  2. Querido Robertinho, fico imaginando seu projeto sendo realizado e transformando Maceió numa cidade tri dimensional com o salgadinho sendo o elo desse triangulo e prosperando…. Quanta coisa linda deve haver por essas margens, sendo a terceira a mais bela praia urbana de Maceió! Persista no sonho, e continue nos levando em suas navegadas! 😘

  3. Talvez seja o reino encantado da imaginação. O navegar pelas águas a margem da pele, como diz nosso poeta luso: “Navegar é preciso; viver não é preciso./Quero para mim o espírito [d]esta frase,/transformada a forma para a casar como eu sou:/Viver não é necessário; o que é necessário é criar” (F. Pessoa). Nessa terceira margem, meu querido Bob Filho*, está a aura dessa busca viva, das chamas de áries, dessa personalidade ordeira e curiosa, com sentidos poéticos. Tantos governadores, prefeitos, deputados e vereadores – sobretudo estes! – todos desconheceram essa terceira margem. E se a vieram, não navegaram. Essa terceira margem, imagino, é o sentir a água escorrendo entre os dedos, o cheiro da areia molhada, o vento agitando a vegetação, e enfia a mão na água, sente a pressão que resiste daquele líquido fresco, frio. Molha o braço, o corpo, mergulha, flor da pele, ou então navega ou passeia a margem. O terceiro ponto é você, ali construindo tudo isso, essa vontade que vai, mas fica; que mesmo longe está ali, no pensamento, debruçado nos sentimentos. É esse navegar essencial, criado pelos que têm vontade de fazer e fazem acontecer. Essa animalidade que habita em nós, libertos, dispostos a evoluir construindo e harmonizando, entre o que faz e o que preserva, nossa História.

    * Porque és indissolúvel do Bob Pai, outro navegante, muito querido, dessas águas que navegamos.

    1. Lula Castello Branco, grandioso na sua generosidade e gentileza!
      Agradecido pela conjunção e conjugação de vosso pensar. Começo pensando no quando a influência do Bob Pai faz morada em mim. Gosto muito disso.
      Então; enquanto sigamos fazendo e nos banhando e bebendo das salutares fontes da existência, da experiência e principalmente do experienciar que nos atende de forma metafórica em nosso cotidiano existir.
      Aceitar o que cada um que nos perpassa como as águas, com suas maestrias e modos é saudável, venturoso e salutar.
      Sendo o Cristo, a luz e o sal da terra, pedra angular do humanismo, sigamos adiante em direção ao que for possível sonhar. E, diga-se importante, realizar, fazer acontecer.
      Somos d’água salgada, somos da água salobra e somos d’água doce.
      É um privilégio.
      Obrigado pelo atencioso e poético comentário. Abraço fraterno.

  4. Obrigado, Eduardo Rocha, pelo imenso prazer de tê-lo por aqui, nas páginas do N. C. sempre com sábias palavras e reflexões pertinentes.
    Minha atenciosa gratidão.

  5. Excelente texto de nosso querido colunista RCF. Entremeando-se entre a importância e a ligação quiçá tão redundante aqui abordada. A ligação entre pai e filho através das águas. O rio. Simbiose natural com o ser humano. Interessante notar o valor dado e o real, no sentido de que essas experiências fluviais promovem ligações profundas e lembranças eternas. A terceira margem. No meu modo de ver essa é ela. O elo reforçado por momentos inesquecíveis de prazer e lazer entre a margem direita e a esquerda. 👏👏👏👏

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