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terça-feira, 28 de maio de 2024 – 13h27

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Um dínamo em constante movimento de saberes conjugados numa expressão – oral e escrita – que ensina, comove e emociona

Foto: Lula Castello Branco/ Agência NC
Marco Lucchesi, em visita à Academia Alagoana de Letras, onde concedeu a entrevista Foto: Lula Castello Branco / Agência NC

Marco Lucchesi é um dínamo em constante movimento de saberes conjugados numa expressão – oral e escrita – que ensina, comove e emociona. Um monstro de cultura e de saber literário. Um poeta, na mais plena acepção da palavra. Um escritor vivo, em pulsão viva da língua e da linguagem.

O Notícia do Centro foi contemplado com a oportunidade de entrevistar o premiado poeta, romancista, ensaísta e tradutor, por intermédio do seu amigo e colega, Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras (AAL), que nos brindou com esse gesto de generosidade e simpatia. 

Em Alagoas, por ocasião da 10ª Bienal Internacional do Livro, para compor a mesa-redonda da Academia Brasileira de Letras (ABL), em abertura dos trabalhos da AAL, esteve conosco, na manhã de sexta-feira (11), às vésperas do debate sobre Jorge de Lima.

Marco Lucchesi, ocupante da Cadeira nº 15 da ABL, eleito presidente da Casa de Machado de Assis por quatro exercícios consecutivos, tem diversos livros e trabalhos publicados, foi agraciado com prêmios e comendas nacionais e internacionais, fala 21 idiomas, fez diversas traduções e é traduzido em vários países. Hoje, está à frente da presidência da Fundação Biblioteca Nacional. 

Foi como presidente da Fundação Biblioteca Nacional que ele nos falou dos projetos a serem implementados, dos desafios da gestão, do papel da Hemeroteca Digital e da importância estratégica da Biblioteca Nacional e “de compreender que a Biblioteca Nacional é um trabalho de geração a geração, e que esta geração tem um compromisso com a democracia, com a república e com um olhar pluridiverso sobre o nosso país”.

Veja a entrevista completa abaixo.

Notícias do Centro – A mídia impressa passa por um processo de migração praticamente irreversível do jornal físico para o veículo digital. Como a Hemeroteca Digital Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional, entende o armazenamento deste material tendo em vista a plasticidade das páginas virtuais e a mudança constante à qual elas estão sujeitas cotidianamente?

Marco Lucchesi – A pergunta é muito boa! Ela é o centro, de fato, do pensamento hoje das hemerotecas em todo o mundo. Nos anos 90, por exemplo, cometeu-se uma espécie de ‘livricídio’, ou ‘jornalicídio’, porque se passou para o digital, e algumas universidades e bibliotecas norte-americanas disseram “bom, agora vamos reconquistar o espaço, eliminando”. O que representou, de fato, uma incompreensão total de quais eram as situações novas que o analógico e o digital trariam a si mesmos. Então, nós, hoje, na Biblioteca Nacional, temos o orgulho de uma Hemeroteca Digital de uma importância enorme; basta ver, sobretudo, o programa Prodoc. Basta, simplesmente, elencar o nome e o período de todos os jornais, ou do jornal, e, imediatamente, a resposta aparece colorizada, em verde, indicando a reiterada presença daquele elemento que está sendo buscado. A Hemeroteca Nacional Digital tem duas grandes questões fundamentais: primeiro, é um lugar de absoluto sucesso, porque, de fato, nós temos, em acessos, praticamente quase cem milhões de acessos por ano. É um número realmente imponente. E, também, porque, quando a Hemeroteca Digital conquistou o coração do Brasil, ela transformou as teses num antes e num depois. Muitas teses, que aparentemente nada teriam a ver com a história diretamente, elas agora contemplam a história daquela determinada ciência, seja da Química, seja da Matemática, dos Romances Históricos, porque o acesso realmente é extraordinário. Agora, é claro que nós estamos discutindo e aprimorando, junto aos bibliotecários e aos responsáveis pela Hemeroteca, essa  grande variedade de plasticidade e, ao mesmo tempo, efêmera condição dos nato-digitais, porque, como se mantém, quando se mantém é uma discussão que está em pauta em todo o mundo, mais adiantada nos Estados Unidos e em algumas partes da Europa, mas há esse debate contínuo e a observância dessa guarda. Então, são duas guardas. E, sobretudo, apostar na migração de tecnologia, que, para nós, é absolutamente fundamental. O que deu à Biblioteca Nacional a grande velocidade foi o fato de ela ter trabalhado com microformas, ter feito em microfilmes o registro, e isso ajudou, portanto, a velocizar, a dar uma grande implementação para o grande parque dos jornais brasileiros, que são, praticamente, 380 mil volumes. É um número realmente fantástico. 

Foto: Lula Castello Branco / Agência NC
Rostand Lanverly, presidente da AAL, mostrando as antigas gerações de imortais a Marco Lucchesi, acadêmico da ABL e presidente da Fundação da Biblioteca Nacional

NC – Em seu discurso de posse como presidente da Fundação Biblioteca Nacional, o senhor anunciou a criação de um Centro de Tecnologia da Informação e da Comunicação. Qual o papel desse Centro em relação aos mais de 100 milhões de acessos por ano ao acervo da Biblioteca Nacional e às inúmeras visitas virtuais às quais ela recebe diariamente?

Marco Lucchesi – A Biblioteca Nacional, na administração anterior, implementando durante a pandemia uma visitação virtual, os números são impressionantes, passam de meio milhão, estão à altura de 600 mil visitas virtuais à Biblioteca Nacional. Então, isso foi, de fato, um trabalho muito importante da administração anterior; na verdade, são os servidores da casa que, de fato, mantêm o rumo, e os presidentes têm a missão apenas de, digamos, colaborar e não desfigurar todo um processo. Sim, sem sombra de dúvidas, nós precisamos aprofundar; nós estamos já em conversação, isso é importante porque é verdade, com a FAPERJ [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro], com a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], nós encontramos ambos os presidentes recentemente, falamos inclusive com o presidente do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Nós estamos  empenhados realmente em aprofundar um Centro de TI, que seja referência para a América Latina e, obviamente, para o próprio Brasil. Naturalmente, esses passos não são à velocidade desejável, porque, enfim, o serviço público exige etapas, exige estações de aprimoramento; mas, para nós, é absolutamente importante, porque é preciso avançar muito, e é o que desejamos fazer. Já conversamos com Celso Pansera, com Jerson Lima, respectivamente, Finep e FAPERJ, para que nós, de fato, aumentemos e deixemos a Biblioteca Nacional nessa posição de vanguarda, que ela assumiu, não só em relação ao Brasil, mas em relação a diversos países do mundo, pela massa de informação digitalizada e, também, pelo fato de ela ter um acervo de obras raras absolutamente fantástico. Para se ter uma ideia, nós somos a maior biblioteca ao sul do Equador em termos de incunábulos. Nós temos 216 incunábulos. É muita coisa. Os números expressivos são tremendos. Então, essa central é para preservar as nossas obras raras e para complementar aquilo que nós acreditamos que seja necessário, uma república capilarizada, ou seja, o acesso à Biblioteca Nacional não importa onde se esteja, ela é nacional, inclusive abrangendo as nações que nos constituem, indígenas, estamos ampliando tremendamente as nossas, por assim dizer, prateleiras étnicas, e também a memória de várias imagens quilombolas. O nosso compromisso é, de fato, compreender que a Biblioteca Nacional é um trabalho de geração a geração, e que esta geração tem um compromisso com a democracia, com a república e com um olhar pluridiverso sobre o nosso país. 

NC – Em 2015, um incêndio atingiu o Museu da Língua Portuguesa. Em 2018, o Museu Nacional pegou fogo e, em 2021, a Cinemateca Brasileira. Quais políticas de prevenção são implementadas pela Fundação Biblioteca Nacional para que estes tipos de desastres não ocorram em sua estrutura e acervo?

Marco Lucchesi – Esse foi de fato um drama, mais que um drama, um trauma, uma ferida aberta, cuja cicatrização se mostra muito difícil. Foram perdas absolutamente fundamentais. A Biblioteca Nacional tem grandes referências no setor de preservação e conservação, das quais Jayme Spinelli, mundialmente reconhecido, que já preparou, com todos os saberes da Casa, um projeto de cuidados. Nós temos a brigada permanente dentro da Biblioteca Nacional, estamos ampliando uma série de questões. Somos uma das poucas instituições do Rio [de Janeiro] que possuem certificado dos bombeiros, o que é algo muito importante. A administração anterior, embora isso viesse de tantas outras administrações, porque o serviço público, na verdade, é anônimo no sentido mais largo da palavra, ele não tem de ter um protagonista, uma assinatura, então são projetos; mas, de qualquer maneira, já se colocaram hidrantes, além de todos os outros cuidados. Obviamente, eu conversei muito com a ministra Margareth [Menezes], que atendeu prontamente às nossas solicitações. A Biblioteca Nacional vai receber agora 22 milhões de reais de emenda parlamentar, graças aos esforços da ministra Margareth, e uma compreensão de que nós temos, de fato, a memória nacional importantíssima em todos os aspectos, e ela precisa ser muito preservada. Estamos tomando todas as providências em relação ao aprimoramento daquilo que nós encontramos na Casa. Há muito para se desenvolver. Nós podemos dizer que estamos numa situação bastante segura, mas, nunca, nada, é suficientemente seguro para não ampliar os níveis e os padrões de segurança. Vamos inclusive, agora, fazer alguns treinamentos, aprofundar outras medidas, reeditar novos conselhos em casos de emergência. Estamos atentos a isso. 

Foto: Lula Castello Branco / Agência NC
Os acadêmicos Rostanda Lanverly, da AAL, e Marco Lucchesi, ABL, na frente da Casa de Jorge de Lima, atual sede da Academia Alagoana de Letras

NC – Pôde-se sentir, em seu discurso de posse como presidente da Fundação Biblioteca Nacional, um apelo nele ao papel da instituição como “Casa da Cidadania”. Em relação aos “livros que poderiam ter sido e que não foram”, existiria a possibilidade da construção de um projeto direcionado à edição de livros para aquelas gerações que mantêm os seus escritos nas gavetas e não se adaptam às publicações em meio digital?

Marco Lucchesi – Esta é uma ótima questão. Mas a Biblioteca Nacional, durante a última década, foi, digamos assim, assumindo um papel. Boa parte de algumas de suas antigas atribuições hoje são consideradas nas secretarias do Ministério da Cultura. A Biblioteca Nacional possuía alguns compromissos específicos que, com o tempo, deixaram de existir. O papel fundamental da Biblioteca Nacional, sobretudo, ela não é apenas um armazém de livros. Ela não é um lugar, ela é um conceito, ela é um cosmo que reflete o tempo todo o papel do livro e da leitura, obviamente dentro de uma perspectiva de resgate da informação e de oferecimento da produção de metadados, de tal modo que, de fato, os livros cheguem, seja claro do que tratam e tenha uma topografia para recuperá-los inclusive. Essa questão é muito importante. A Biblioteca Nacional colabora em paralelo, por exemplo, nos seus grandes projetos, como os projetos de tradução e os projetos de prêmios. Nós agora criamos, pela primeira vez, o Prêmio Akuli, que é um prêmio que reflete um pouco as angústias, em todo o Brasil, de muitas aldeias indígenas visitadas. Eu fui agora, com a ministra Rosa Weber, à aldeia dos Yanomami Maturacá, depois de São Gabriel da Cachoeira, em plena selva amazônica. O que nós vemos em todas essas situações, cada aldeia indígena é um microcosmo, e temos as terras quilombolas. Então, eu estou jogando dois pontos importantes para mostrar o Prêmio Akuli: as novas gerações, que perderam a Língua, querem recuperar a Língua, querem recuperar os mitos antigos, os cantos, tanto nas terras quilombolas, como nas várias aldeias. Como o Prêmio Akuli, para responder à sua questão, nós estamos contemplando a tradição oral, que é fixada em livro. Aí, nós temos um propósito. E nós temos, por exemplo, algumas revistas, como a Revista Poesia Sempre, que está sendo recolocada, em que nós, com as antenas dessa revista, recuperamos o Brasil e os poetas brasileiros, e também a Revista do Livro. Enfim, nós temos formas de conexão muito importantes para auscultar o coração do país.   

NC – A despeito de Alagoas ser a terra de figuras ilustres das Ciências e das Artes, como Arthur Ramos, Pontes de Miranda, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Aloísio Branco, entre outros, o estado ainda se mantém abaixo da média nacional nos índices da Educação apesar de um avanço consistente nos últimos anos. Como o senhor entende o impacto da realização da Bienal Internacional do Livro no contexto educacional?

Marco Lucchesi – Estão todos, cada qual a seu modo, na Biblioteca Nacional. Convidado pelo presidente Rostand [Lanverly], que vou chamar de “meu presidente”, por fazer parte, num gesto generoso, desta Casa, e este gesto muito me emociona, porque aqui, além dos amigos que eu conheço há tantos anos em Alagoas, Rostand é o capitão, aqui é a Casa de Jorge de Lima, que Jorge de Lima sempre foi a predileção absoluta da minha vida, então esta é uma questão importante. Uma Bienal é altamente estratégica. Independente do que se possa pensar de uma Bienal do ponto de vista estrito, as críticas que se fazem, por ventura, aqui e acolá, mas a Bienal é uma soma de sinergias. Ela aplica uma espécie de poética da visibilidade dessas mesmas sinergias. Então, é o lugar da conquista e da sedução, dos livros, dos meninos e das meninas que chegam, dos adultos. Portanto, é um lance de dados importantíssimo porque está aberto. É um grande convite à população. É claro que não basta a Bienal, mas ela tem um papel de fundamentação, de encontro com os escritores, exemplaridades de parte a parte, as escolas fazendo visitas. Então, isso é fundamental. É claro que o Brasil precisa de tudo o que foi interrompido nos últimos desastrosos seis anos. Agora, é uma espécie de paixão aceleratória que os brasileiros todos vivem, depois de uma condição de grande insalubridade, definida em todo o país, em todos os meios, com ataques diretos ao livro e à leitura, proposta de atear fogo a tais e quais livros, de censurar estas ou aquelas figuras escritas. Portanto, há muito o que se fazer. Mas eu vejo com grande esperança, porque é muita fome, fome de leitura, fome de futuro, fome de esperança, fome de república.

NC – Trazer e tratar de Jorge de Lima durante a Bienal nessa mesa de figuras tão ilustres da Academia Brasileira de Letras?

Marco Lucchesi – Também temos o arquiteto, o nosso presidente Rostand [Lanverly]. Primeiro, estou muito feliz porque são dois queridos acadêmicos, com suas próprias trajetórias, e queridíssimos amigos, tanto Antônio Torres, como Cacá Diegues, alagoano por excelência, e nós dois, como intrusos que amamos Alagoas. É difícil não amar tanta beleza concentrada na paisagem e nas artes. Estamos muito felizes. 130 anos de um dos maiores poetas da literatura brasileira é algo que, de fato, merece todo o tipo de comemoração. Fico muito feliz que a iniciativa tenha partido da Academia Alagoana de Letras, porque a Academia tem um papel fundamental. É a Casa de Jorge de Lima, mas são os valores produzidos por uma metafórica Casa de Jorge de Lima, que são colocados à mesa. Portanto, é um valor imaterial muito importante que a Academia oferece à sociedade de Alagoas e ao Brasil. 

NC – Em sua biografia, disponível no site da Academia Brasileira de Letras, está descrita a importância do encontro com Nise da Silveira para a sua formação. No seu discurso de posse, o senhor reitera a gratidão por ela. Hoje, em visita à terra da grande médica psiquiatra, quais palavras dela marcaram a sua juventude?

MarcoLucchesi – A Drª Nise marcou, não diria a ferro e fogo, porque isso tem uma significação de memória da dor, quando eu só tive alegria e luz. Talvez, se eu tirar do ferro a força e deixar apenas a possibilidade de impressão do ferro, e, se eu tirar do fogo a força que queima e deixar apenas a luz que ele traz, a Drª Nise só nesse sentido está marcada a ferro e fogo na minha alma. Uma das figuras mais importantes que eu tive a honra de conhecer na minha vida. Hoje, eu tenho a alegria de ser licenciado presidente Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, que foi o caminho, o livro dela Imagens do Inconsciente, que transformou de fato a minha vida, que me levou a visitar os manicômios, a visitar os presídios, e dar um viés político. Embora a Drª Nise tivesse o viés político numa dimensão, é muito fácil o viés político e pronto. Uma política pública de saúde é importante, óbvio, isso não se discute. Mas a Dr Nise tinha também uma visão profunda da individualidade que estava sofrendo. Então, a política dela vinha em segundo lugar. Eu fui conduzido à Drª Nise pela literatura, por Dostoievski, de modo particular, que eu lia muito jovem, aos doze anos, e chorava, chorava intensamente, e, quando vi o continente aberto pela Drª Nise, veio a admiração, mas, logo depois, veio o grande afeto. A Drª Nise era de uma […], porque as pessoas pensam a Drª Nise assim, mais intensa; de fato, ela precisava ser, única médica, mulher, formada na Bahia, indo contracorrente, a contracorrente que hoje se reapresenta lamentavelmente, propondo novamente os tratamentos insulínicos ou de eletrochoques, enquanto que a Drª Nise combateu e mostrou quais foram os grandes resultados. O que permanece dela, em mim, é um grande amor.

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