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quinta-feira, 20 de junho de 2024 – 16h46

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O novo século é um mergulho na solidão quântica da multidão cibernética

A Comissão Internacional para Conexão Social, criada pela OMT, tem como objetivo combater a epidemia de solidão
A solidão é uma transação pessoal, com o mundo em torno de si, envolto no buraco em que se encontra - Foto: LulaCastelloBranco/FMAC-12

No início da década de 1960 já havia mais de 200 mil televisores nos lares brasileiros. Com a sua popularização, as famílias perderam o hábito do convívio social. Deu-se então o declínio da integração da família, tendo as TVs como o nascedouro desse isolamento familiar e pessoal. Já não se frequenta mais as ruas como antes, hoje mal se sabe o nome de um vizinho e os filhos têm influências fora das normas tradicionais, criando-se assim um amplo afastamento de realidades e atitudes.

A influência na vida das pessoas é cada vez mais nítida. Onde quer que a transmissão chegue, os conteúdos deterioram os costumes locais. É uma verdadeira apologia à desonestidade, imoralidade, amoralidade, perversão, prostituição, desvios de conduta e alienação do sentido da vida. Além da quantidade de aparelhos televisores, seu valor de venda, investimentos publicitários, aprimoramentos tecnológicos, também outras mudanças, como a chegada dos aparelhos celulares.

Mesmo com toda tecnologia criada durante todos esses anos, existem agravos, sobretudo, na violência urbana, no trânsito caótico, em assaltos a mão armada – Foto: LulaCastelloBranco/Poemídia

O século XXI despertou um novo modo de ser para a humanidade, com aplicativos interativos pessoais, adaptados aos aparelhos celulares, permitindo que algoritmos definam seus interesses, conforme o mercado e a política, criando uma rede mundial de estratificação, a partir das relações e valores sócio-culturais, os quais constituem a linha divisória entre classes, estados ou castas, hierarquicamente sobrepostos.

UMA QUESTÃO DE SAÚDE 

Uma Comissão Internacional para Conexão Social, criada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com o objetivo de combater a epidemia de solidão, reconhecida como uma ameaça global e urgente para a saúde, visa promover como prioridade e acelerar a implementação de soluções em todos os países. O isolamento social e a solidão afetam a saúde e o bem-estar de pessoas de todas as idades e em todo mundo. Segundo dados da OMS, uma a cada quatro idosos sofre por isolamento social e entre 5 a 15% dos adolescentes também sofrem de solidão. É um fenômeno generalizado. 

Maiores consequências se deram após a pandemia de Covid-19, que forçou o isolamento social mundo afora. Interrompeu atividades econômicas e sociais, aumentando os níveis de solidão. A consultoria Ipsos realizou, em 2020,  uma pesquisa a respeito do tema, com mais de 15 mil pessoas, em várias partes do mundo. O estudo revelou que o Brasil lidera o ranking de solitários da América Latina, com 36% dos entrevistado. Na sequência vem o Peru, com 32%, Chile com 30%, e México e Argentina empatados com 25%. 

E a sua vida está ali, sagrada, solitária, introspectiva, às vezes deprimida, cheia de mágoas, de passados longínquos ou presentes conflituosos e futuros utópicos – Foto: LulaCastelloBranco/Poemídia

Estamos cada dia mais separados uns dos outros e isso é muito negativo para a evolução de nossa espécie. Mesmo com toda tecnologia criada durante todos esses anos, existem agravos, sobretudo, na violência urbana, no trânsito caótico, em assaltos a mão armada. Em qualquer lugar da cidade, o tráfico de gente, as trágicas notícias de um mundo doente nas televisões, mentiras impostas como verdades, e verdades impostas como mentiras, em suma, o terror domina os meios,  e os meios dominam as mentes.

SOLIDÃO E SOLITUDE 

A solidão é uma transação pessoal, com o mundo em torno de si, envolto no buraco em que se encontra. O mundo pulsa, a gente passa, a vida é dura e dura muito, e toda certeza que temos é que temos uma vida em cada corpo, uma vida em nosso corpo, que cada vida é uma vida, e a sua vida está ali, sagrada, solitária, introspectiva, às vezes deprimida, cheia de mágoas, de passados longínquos ou presentes conflituosos e futuros utópicos. O afastamento tem seus motivos, mas, com certeza, em algum plano cósmico ou espiritual, há uma essência, uma energia, que pode cada vez mais e mais afundar, ou como um bálsamo, trazer a felicidade. 

“’Onde estão as pessoas?’, perguntou o Principezinho. ‘Estamos tão sozinhos no deserto…’ ‘Também estamos sós entre as pessoas’, disse a cobra”, A. Saint-Exupéry – Foto: LulaCastelloBranco/NC

É importante, num tema tão sensível, refletir sobre o que é solidão e solitude: “O primeiro é um estado forçado, uma situação pela qual a pessoa não procurou efetivamente e sente angústia em estar enfrentando. Já o segundo termo se refere a um estado intencional, onde a pessoa procura gozar de sua própria companhia e não vê problemas em estar sem pessoas ao seu redor – até porque, não se trata de uma condição permanente, muitas vezes, e sim, temporária”, do site Plenae.

Do artigo publicado originalmente em novembro de 2017, de Catarina Fonseca, no site Activa, ‘8 tipos de solidão’, alguns recortes: 

1. A solidão livre – “Porque é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida tive um sentimento de solidão. Divertimo-nos muito os dois, eu e eu”, António Lobo Antunes, escritor; 2)

2. A solidão autoimposta – “A solidão desola-me. A companhia oprime-me”, Fernando Pessoa, poeta; 

3. A solidão da diferença – “Se alguém é diferente, na maioria das vezes é um solitário”, Aldous Huxley, escritor; 

4. A solidão entre os outros – “’Onde estão as pessoas?’, perguntou o Principezinho. ‘Estamos tão sozinhos no deserto…’ ‘Também estamos sós entre as pessoas’, disse a cobra”, A. Saint-Exupéry, escritor; 

5. A solidão criativa – ”As pessoas que têm empregos criativos têm de estar sós para recarregar as baterias. Não se pode viver 24 horas na ribalta e continuar criativo. Para mim, a solidão é uma vitória, Karl Lagerfeld, criador de moda; 

6. A solidão do emigrante – “Não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor. A origem perdida, o enraizamento impossível, a memória imergente, o presente em suspenso”, Julia Kristeva, filósofa; 

7. A solidão de geração – “Com o tempo, vamos ficando sozinhos não apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros”, Mário Quintana, poeta; 

8. A solidão nas Redes Sociais – “A solidão é agora tão difundida que se tornou paradoxalmente uma experiência partilhada.” Alvin Toffler, escritor.

“Quando não vamos para a esquerda ou para a direita, sentimos que estamos em um centro de desintoxicação” Pema Chödrön – Foto: LulaCastelloBranco/Poemídia

O CAMINHO DO MEIO

O caminho do meio nos encoraja a despertar a bravura que existe em todos sem exceção, “que estar sem um ponto de referência é a solidão suprema. Também é chamado de iluminação. Que a mente sem ponto de referência não se resolve, não se fixa ou apreende. Como poderíamos não ter um ponto de referência? Não ter um ponto de referência seria mudar uma resposta habitual profundamente arraigada ao mundo: querer fazê-lo funcionar de uma maneira ou de outra. Se eu não puder ir para a esquerda ou para a direita, eu vou morrer! Quando não vamos para a esquerda ou para a direita, sentimos que estamos em um centro de desintoxicação”, Pema Chödrön, do artigo publicado no site Lion’s Roar.

Entre livros expostos na vitrine, um título, de Ray Bradbury, bastante reflexivo atrai. Folheando algumas páginas e refletindo o título, que fundamenta a solidão a angústia, quando à noite, chuvosa, se caminha solitário pelas ruas. A cidade, a beira do rio, sombras, e, de repente, um ônibus, entra no coletivo, todos o olham estranhamente, olha o motorista, olha para os passageiros e grita: “A Morte é uma Transação Solitária!” Esse título mostra, claramente, que a mais conceitual solidão diz respeito ao momento em que se morre. Morrer é um ato solitário.

Há também os que creem na tecnologia, que o isolamento e o sentimento de desconexão social não são exclusividades de uma determinada faixa etária ou classe social. E que as amizades são relações que dependem do empenho mútuo. Não esperar apenas que a outra pessoa o convide para algo acontecer, tomar a iniciativa. Mesmo que seus amigos vivam longe, vale a pena enviar uma mensagem, ligar ou fazer uma chamada de vídeo. “Conexões virtuais ainda são conexões. Mesmo uma rápida troca de mensagens ou ver o rosto de alguém na tela pode melhorar o seu bem-estar”, defende Michael Craig Miller, professor de psiquiatria da Harvard Medical School.

Enfim, diante a solidão mais sofrida, perceptivelmente introvertida, com tristeza que obscurece os olhos, é essencial que o outro se posicione – Foto: LulaCastelloBranco/Poemídia

Enfim, diante a solidão mais sofrida, perceptivelmente introvertida, com tristeza que obscurece os olhos, é essencial que o outro se posicione. Ciente da gentileza, da harmonia, da paz, da fé, da disponibilidade, da companhia, da amizade, do amor. A estabilidade, a sinceridade, o cuidado, o afeto, o exemplo, o perceber, o agir, o refletir, fazer sentir o chão, estar do lado, ficar solitário solidário, juntinhos, em silêncio, com respeito e boa vontade, sem exigir qualquer reciprocidade, apenas aceitar, estar sempre consciente e  mostrar o caminho, um caminho qualquer, uma mão que ajude a sair do buraco, ou tentar fazer com que aquele, que está no buraco, aceite e receber a luz.

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