Em 1º de abril de 2020, a estação Mutange, do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), teve de ser desativada, por recomendação das Defesas Civis municipal, estadual e federal, devido aos afundamentos causados pelas minas de sal-gema da petroquímica Braskem, num trecho de aproximadamente 3 km. Essa medida trouxe transtornos aos usuários, que foram obrigados a fazer baldeação de ônibus. Nas estações Bebedouro, vindos de Rio Largo, ou Bom Parto, vindos de Jaraguá, se veem obrigados a descer do VLT, caminhar alguns metros e seguir viagem em um ônibus desconfortável e barulhento.
Em circulação desde 10 de outubro de 2011, o VLT, operado pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU Maceió), faz o percurso da estação Jaraguá, na capital alagoana, até a estação Lourenço Albuquerque, no município Rio Largo, cortando ainda o município de Satuba. No total, são 16 estações durante o trajeto. Há pouco mais de 12 anos, a CBTU presta serviços à população que habita nos lotes lindeiros dos três municípios, em seus 35 km de operação.
“Bebedouro era a nossa terceira melhor estação de arrecadação. Antes do episódio da Braskem, a terceira estação com mais usuários. Hoje em dia não tem ninguém em Bebedouro para transportar. Então, realmente, afetou e muito a CBTU. Mudou bastante nossa rotina. O passeio ainda é o mesmo, de Jaraguá a Lourenço de Albuquerque, com a baldeação na Estação Mutange”, explicou a coordenadora de comunicação e marketing da CBTU Maceió, Morgana Moraes.

Na baldeação, num longo trecho de ruas esburacadas, o ônibus velho e barulhento segue até a avenida Fernandes Lima, sempre com trânsito caótico, atrasando, em média, 40 minutos o percurso, por vezes bem mais nos horários de pico. Percorrendo toda a região, já cercada com tapumes pela Braskem – proprietária de quase cinco bairros condenados pela mineração -, segue o velho ônibus, de uma estação a outra, com o número já bastante reduzido de usuários, aparentemente insatisfeitos.
“A CBTU vive um momento difícil. Caiu em cerca de 11 mil para 1.600 pessoas nas 26 viagens diárias do VLT. A gente chegou, antes do episódio [da Braskem], ao nível de transportar mais de 300 mil passageiros por mês”. E acrescenta: “Os trabalhadores e os estudantes, principalmente do IFAL, foram os principais afetados. Eles hoje vêm de ônibus e pagam muito mais caro. A passagem do ônibus custa entre R$ 3,49 [Cartão VAMU] e R$ 6,75, enquanto no VLT pagam só R$ 2,50”, ressaltou.

Os lendários trens de ferro, Estrela de Alagoas e Nordestina, ainda têm presença significativa na condução de pessoas. Principalmente para passageiros com muita bagagem, animais e até marisqueiras do sururu, que pescam marisco na laguna. No VLT, por ter ar-condicionado, por ser menor e proporcionar mais conforto aos usuários, é delimitado a quantidade de bagagens permitidas, entre três e quatro de mão, por passageiro.
“O trem de ferro faz parte da carga horária da CBTU, ele é fundamental. Aí tem toda uma identificação. É impressionante até mesmo quando a gente posta fotos das locomotivas, tem mais uma comoção, é mais emocional, o vínculo das pessoas. Tem pessoas que preferem andar neles, o fator histórico”, destacou.

Hoje, dos trens de ferro, apenas o Nordestina está a todo vapor, concluindo suas seis viagens diárias, no trecho entre a estação Bebedouro e a estação Lourenço Albuquerque. O Estrela de Alagoas, que ligava a estação Jaraguá à estação Bom Parto, em seus 70 anos de funcionamento, está há algum tempo parado na oficina. Embora tenham menor conforto que o VLT, possuem capacidade superior em espaço e número de passageiros.
De toda essa história, o mais comovente é saber que as marisqueiras, que eram usuárias rotineiras das velhas locomotivas – vinham de Rio Largo pescar perto do Flechal -, estão proibidas de pescar o sururu e qualquer outro marisco ou pescado, por causa da poluição da mina 18, da Braskem, que afundou na laguna Mundaú, em 2023.
Com a compensação de danos, que está na mesa de negociação com a Braskem, a CBTU tem planos de traçar uma nova linha férrea, longe da área condenada pelos afundamentos, cruzando a parte alta da cidade em direção à estação Lourenço Albuquerque. Além do projeto de expandir o VLT, com mais três estações até o Shopping Maceió, no bairro da Mangabeiras.





























