quarta-feira, 29 de abril de 2026 – 15h43

Cresce produção de ‘armas fantasmas’ clandestinas, criadas a partir de impressoras 3D

Estes armamentos não são rastreáveis e estão sendo utilizados por grupos criminosos, se tornando um problema global
Foto: Divulgação/OperaçãoShadowgun

A “Operação Shadowgun”, realizada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, pelo MPRJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro) e pelo MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública), com cooperação de órgãos internacionais, nesta quinta-feira (12), compriu diligências contra a fabricação e comercialização de “armas fantasma” (ghost guns, em tradução livre), criadas clandestinamente a partir de impressoras 3D.

As equipes cumpriram 36 mandados de busca e apreensão em 11 estados do país, em endereços ligados tanto a integrantes do grupo quanto a compradores do material. As diligências ocorrem no Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará e Paraíba. Forças de segurança de Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás, Bahia e Roraima também auxiliaram no cumprimento de ordens judiciais. 

As investigações foram conduzidas pelo CyberGAECO (Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio de Janeiro) e pela Polícia Civil do Rio. Um homem, apontado como líder da quadrilha que produzia armas de fogo, foi preso em São Paulo. Além dele, outras três pessoas foram detidas.

A investigação também identificou outros três integrantes do grupo, cada um com funções específicas, que iam do suporte técnico e da divulgação de instruções à articulação ideológica, propaganda e criação de identidade visual. No endereço usado pelo grupo, investigadores apreenderam armas de diversos calibres, incluindo pistolas, revólveres, espingardas e rifles.

Zé Carioca

Entre os detidos, um engenheiro, especialista no desenvolvimento da produção do material, tido como mentor do grupo criminoso, na produção e disseminação de “armas fantasmas”. De acordo com as apurações, ele produziu e distribuiu um manual com mais de 100 páginas, com todas as etapas para fabricação, facilitando que um usuário intermediário em impressão 3D pudesse produzir o armamento, utilizando equipamentos de baixo custo.

Natural do Espírito Santo, Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, 26, é apontado por investigadores do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como responsável por desenvolver, divulgar e comercializar armas produzidas em impressoras 3D. Identificado nas redes sociais como Zé Carioca ou Joseph The Parrot. 

Ele é autor do design da arma Urutau, lançado em um comercial em seu perfil no X em 2024: “Testado nos EUA, projetado no Brasil e feito na sua casa” com imagens do armamento em ação. Zé Carioca foi citado em uma matéria do The Guardian sobre a impressão de armas 3D, que cita uma entrevista dele em um podcast, onde afirma não ter responsabilidade por extremistas que usam seus projetos para imprimir armas.

“Quer dizer, eu não os apoio, mas, se eles fabricarem uma arma, não posso fazer nada a respeito”, disse. “Se você está incomodado com um supremacista branco construindo um Urutau, pode construir um você mesmo para se contrapor a ele”, destacou a reportagem.

A trajetória acadêmica do investigado inclui passagens por instituições federais no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Em 2019 ingressou no curso de Engenharia Eletrônica do Cefet/RJ e chegou a participar de um programa de iniciação científica. Posteriormente, foi aprovado no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e, recentemente, manteve vínculo com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde cursava Engenharia Elétrica.

Foto: Divulgação/OperaçãoShadowgun

Armas fantasmas

Essas armas podem se tornar o padrão utilizado por criminosos e extremistas violentos em todo o mundo, não possuem número de série ou registro oficial e podem ser montadas com peças de fácil acesso, o que dificulta a ação das autoridades. São encontradas em plataformas de redes sociais, como o Telegram, Facebook e Instagram, além de websites que oferecem guias para sua produção.

Elas podem ser montadas usando moldes disponíveis para download e alguns materiais básicos. Esta tecnologia avançou rapidamente na última década. Os modelos mais recentes podem disparar diversas rajadas sem quebrar seus componentes de plástico. Em função deste cenário, diversos países estudam a criação de leis para criminalizar a posse dos moldes para sua construção.

Em 2013, foram fabricadas as primeiras armas de fogo em uma impressora 3D, nos Estados Unidos. A partir de então, as instruções que mostram como fazê-la foram publicadas na internet e baixadas por milhares de usuários. Após polêmica, em 2018, o Departamento de Justiça disse que os americanos poderiam “usar, discutir e reproduzir” os planos de fabricação dessas armas letais, feitas de plástico.

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