quinta-feira, 11 de junho de 2026 – 15h50

As Águas de 1949

Histórias do Velho Capita
Ponte do Salgadinho partida ao meio - Foto: DomínioPúblico/NI

O ano, 1949, eu era um menino, fiquei assustado com relâmpagos e trovoadas, me alegrava apenas lembrar dos caranguejos, eles sairiam do buraco com trovões, durante a manhã eu havia espalhado nas tocas de caranguejos às margens do Riacho Salgadinho, armadilhas feitas de lata de óleo. Durante a madrugada houve um temporal diluviano. O Salgadinho transbordou, encheu as casas da Rua Silvério Jorge, onde eu morava.

À noite uma enxurrada desceu do Tabuleiro com muita velocidade, passando pelo bairro do Farol com um barulho aterrador de água em grande movimento. A aluvião avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente, carros, carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou na descida do Farol, na Rua Barão de Atalaia, perto fábrica de Guaraná Davino, aconteceu um forte estrondo, rompeu um enorme bloco de barro desprendido da barreira caiu por trás das casas. Tragédia, 20 residências soterradas, mais de 50 mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo-Salgadinho a correnteza da água de chuva, volumosa e insustentável como um enorme vagalhão, levava o que havia pela frente em seu corredor. Na foz, no desembocar, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, a enxurrada chegou tão forte que partiu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou. Foi arrastada em dois blocos à beira-mar.

No vão, onde estava a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era um transporte urbano muito usado naquela época.

Quando o dia amanheceu puderam-se avaliar os estragos da catástrofe, daquela chuva de volume nunca visto. Curiosos, moradores, ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela madrugada.

Pela manhã já se sabia pela da catástrofe pela Rádio Difusora, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida. A Rádio anunciou a suspensão das aulas; depois do café da manhã, corri atrás de minhas “ratoeiras”, não encontrei uma sequer, em alguns locais estavam submersas. Andei até a praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos à beira-mar, lavados pelas ondas, como se fossem rochas naturais. Dois pedaços de ponte. Fiquei deslumbrado com os trilhos pregados no dormente, resistindo, numa linha curva, o que restou da tragédia. Esses mesmos trilhos serviram como base, construíram imediatamente uma ponte provisória para pedestre. Os usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, os passageiros recebiam um tíquete, atravessavam a ponte improvisada, tomavam outro bonde que os levava ao destino. Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando via bairro do Poço.

A meninada traquina até gostou da tragédia, apareceu mais outro divertimento. Todo dia nós acompanhávamos, encantados, as obras de engenharia, construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos por baixo da ponte de pedestre improvisada, em local estratégico, apreciando o desfile das calcinhas das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Foi rápida, um ano, a construção da nova ponte de concreto, inaugurada com muito estardalhaço pelos políticos.

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