domingo, 12 de julho de 2026 – 15h38

‘É uma obra que se apresenta como crítica e diálogo’, diz Vitor Pirralho, sobre ‘Refrãos’

Artista fala sobre seu mais recente álbum, que propõe uma reflexão sobre a forma como a música é consumida na contemporaneidade
Em 'Refrãos', Vitor Pirralho dialoga com a criação musical e a pressa no consumo - Foto: Divulgação

Vitor Pirralho não é só um cantor e compositor, nascido em Alagoas, ele é um observador do comportamento humano. Em “Refrãos – Esboços de canções que podem acontecer ou não”, seu mais recente trabalho, propõe uma reflexão sobre a forma como a música é criada e consumida nos tempos atuais, uma abordagem do zeitgeist – o espírito da época.

Com 18 faixas inéditas, em pouco mais de 12 minutos, o disco apresenta uma proposta incomum: em vez de canções completas, o álbum é formado por refrãos, trechos e esboços musicais. “Relaciona-se com o tempo que atravessamos, o zeitgeist do momento, a forma como a atual geração consome música”.

O disco dialoga diretamente com a cultura digital e a velocidade das plataformas de streaming e das redes sociais. As faixas curtas provocam uma reflexão sobre o consumo acelerado de conteúdos, a atenção do público pautada pelo imediatismo e o próprio conceito de obra acabada.

Nesta entrevista ao Notícias do Centro, o artista fala sobre o álbum, o processo de transformar esboços em obra final, a influência da literatura em seu trabalho, a escolha pela flexão culta do plural de refrão e o papel do ouvinte na construção de sentido da obra.

A conversa também trata da importância dos editais públicos para a produção musical independente em Alagoas (o projeto foi contemplado pelo Edital Xameguinho – Fomento à Música, da Política Nacional Aldir Blanc) e a possibilidade de alguns desses refrãos se tornarem canções completas.

Além dos próximos passos do projeto, com o lançamento de um álbum visual, que “praticamente será o álbum, porque as imagens e a montagem apresentarão o cotidiano e o modus operandi dos usuários das redes, tudo em diálogo com as mensagens dos refrãos”. Com produção do selo musical independente Janela Capacete, o disco está diponível em plataformas digitais de streaming e redes sociais.

Confira abaixo a entrevista completa desse artista das letras e dos sons, que há 27 anos atua na cena musical alagoana.

Notícias do Centro – “Refrãos” transforma rascunhos em obra acabada. Em que momento você percebeu que esses fragmentos resultariam em produto e não seriam apenas o ponto de partida para músicas completas?

Vitor Pirralho – Não sei o momento exato, mas, certamente, relaciona-se com o tempo que atravessamos, o zeitgeist do momento, a forma como a atual geração consome música. Então me veio este estalo: por que não lançar obras inacabadas? É como a maior parte do conteúdo veiculado na internet aparenta ser, pelo menos para mim, então tentei dialogar com isso.

NC – Você faz um paralelo entre o álbum e os “poemas-pílula” do Modernismo. Como sua formação em Letras influencia a forma de compor e de pensar a música como linguagem artística?

VP – Influencia integralmente. E não é de hoje. Se você analisar minha obra completa, vai perceber que a literatura, sobretudo a modernista, está lá desde o início. Por exemplo, o título do meu primeiro álbum é uma frase de Haroldo de Campos na qual ele define o que é a Antropofagia cultural. É um período que inegavelmente me orienta artisticamente.

NC – Em relação ao nome desta obra, você zelou pela norma culta da língua no que se refere ao plural do substantivo refrão. Você entende que o uso da forma coloquial “refrões” comprometeria a obra, ou é apenas uma exigência de alguém que conhece a gramática normativa?

VP – Ótima pergunta. Não se trata de uma exigência, apenas pensei que, ao expor no título a flexão correta, já chamaria a atenção, afinal, há um vício nacional ao utilizar essa palavra no plural, geral fala “refrões”, eu mesmo falei por muito tempo. Então minha ideia era chamar a atenção logo de cara e, de repente, até estimular críticas negativas, como julgamentos de que eu tivesse grafado a palavra de forma incorreta, pois é o tipo de coisa que acontece na internet, os julgamentos sem conhecimento, apressados, sem pesquisa, então creio que dessa maneira, a partir do título, a proposta da obra começa a ser cumprida antes mesmo da audição.

NC – O disco parece dialogar com a velocidade das redes sociais, mas sem necessariamente celebrá-la. Você enxerga “Refrãos” como uma crítica à cultura da pressa, ou somente uma tentativa de compreendê-la por meio da arte?

VP – Creio que seja um amálgama de ambas as situações. Como eu não faço parte da geração das redes sociais, eu as vi surgindo e venho me adaptando e tentando compreender seus mecanismos até hoje e não concordo com muitos deles quando inevitavelmente comparo com a minha geração, acredito que é nessa interseção que resida o amálgama, Refrãos é uma obra que se apresenta como crítica e diálogo concomitantemente.

NC – Ao deixar as canções inacabadas, você entrega parte da criação ao ouvinte. Até que ponto esse espaço para a imaginação do público foi uma escolha estética?

VP – É uma escolha estética pelo diálogo com o comportamento do ouvinte atual, como já debatemos, mas a questão do que está acabado quando se trata de arte é bem tênue, justamente porque o que faz arte ser arte é que, mesmo uma obra acabada, concluída, ela estará sempre em aberto para ser interpretada, ela estará sempre disponível às subjetividades de quem a usufrui. O ouvinte, o leitor, o espectador, enfim, o consumidor será sempre coautor, não é mesmo? Cada um terá uma interpretação, uma conclusão, e a maioria dessas interpretações sequer terá passado pela cabeça do autor, o que imprime à arte esse aspecto de estar em aberto para ser concluída a bel-prazer de quem queira e quantas vezes queira, e o engraçado é que muitas vezes essas conclusões serão até mais interessantes que a ideia original. 

NC – Vivemos uma época em que muitas músicas são produzidas pensando nos primeiros segundos de execução. De que maneira esse fenômeno de atração do público influenciou – ou desafiou – suas decisões criativas neste álbum?

VP – Como eu disse antes, Refrãos é um experimento, é crítica, é entretenimento, é certa dúvida e duvidosa certeza, é tentativa, é assumir riscos, é um diálogo entre compreensão e decepção, digamos assim, com o atual zeitgeist.

Álbum convida o ouvinte a refletir sobre a forma como se relaciona com música e arte na era do imediatismo – Foto: Divulgação

NC – Você atua há 27 anos na cena cultural alagoana. Como percebe a evolução da produção musical independente em Alagoas diante o papel de projetos fomentados por editais públicos?

VP – Praticamente, tudo que fiz até hoje foi via editais de fomento, e creio que com a internet, pegando o gancho do assunto que estamos aqui dialogando, o acesso está bem mais amplo. Eu comecei em um período em que, para saber sobre o lançamento de editais e participar era mais difícil e mais restrito. Hoje, com as redes sociais, com os canais virtuais de comunicação, a coisa está bem mais capilarizada, o que é muito bom, todo mundo tem que ter acesso e participar e usufruir de recursos públicos que são destinados a esse fim.Há muito mais artistas hoje, e, naturalmente, muito mais artistas independentes, que têm ideias que merecem ser materializadas, e os editais culturais são um meio para realizar essas produções. Claro que há ressalvas a serem feitas sobre gerência, distribuição, burocracias, sempre houve, mas hoje é bem melhor que quando comecei, justamente pelo advento da internet, que permite uma melhor fiscalização e cobrança da sociedade civil.

NC – Grande parte do material surgiu de gravações de voz e anotações acumuladas ao longo dos anos. Houve algum critério específico na escolha de quais esboços fariam parte do álbum e quais continuariam engavetados?

VP – Eu digo que o critério foi a curadoria, o garimpo. Revisitei esses esboços e fiz uma seleção pensando no que poderia ser materializado de maneira que fizessem sentido dentro de um álbum, que compusessem uma obra completa, apesar de a ideia da peça ser algo incompleto.

NC – Com apenas cerca de 12 minutos para 18 faixas, “Refrãos” rompe com a lógica tradicional do tempo de duração de um álbum. Você acredita que esse formato aponta para novas possibilidades de escuta, ou foi escolhido como proposta para uma obra pontual?

VP – A ideia foi pontual, como debatemos em questionamentos semelhantes levantados aqui anteriormente, até porque com Refrãos eu não posso propor novas possibilidades de escuta, tendo em vista que o formato do álbum é uma reprodução, pensemos assim, do que já é a nova escuta, é assim que a atual geração tem ouvido música, apenas segundos, apenas pedaços de músicas.

NC – Além do lançamento nas plataformas de streamings, o projeto também prevê um álbum visual. Como a linguagem audiovisual complementa a experiência sugerida por “Refrãos” e amplia a leitura do conceito inerente à obra?

VP – Sim, a questão do visual em tempos de redes sociais é muito importante, eu diria até que é inevitável, valoriza-se infinitamente mais o imagético, o áudio já não é mais o primeiro plano, e é justamente pensando nisso que lançaremos o álbum visual, ele não funcionará como complemento do álbum, ele praticamente será o álbum, porque as imagens e a montagem que estamos produzindo apresentarão o cotidiano e o modus operandi dos usuários das redes, tudo em diálogo com as mensagens dos refrãos. Eis um pequeno spoiler sobre o nosso short film.  

NC – Depois de lançar um trabalho, que questiona o entendimento de uma canção pronta, como você imagina os próximos passos da sua produção artística? Existe a possibilidade de alguns desses refrãos se tornarem músicas completas, ou eles pertencem definitivamente a esta obra?

VP – Eu tenho sim a ideia de fazer um garimpo, desses já garimpados esboços que se tornaram o álbum Refrãos, para produzir canções acabadas. Essa é a ideia para o próximo projeto, um álbum entre 8 e 10 faixas no formato tradicional, com canções prontas, com introduções e estrofes desenvolvidas a partir desses refrãos que serão selecionados. No entanto, como diz o próprio título da obra, essas canções podem acontecer ou não. Aguardem.

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