terça-feira, 26 de maio de 2026 – 15h37

Tributo a Belchior com João Calabar e Dinho Zampier

Espetáculo promete elementos eletrônicos, poesia e qualidade musical para homenagear artista cearense
Foto: Divulgação


Nesta quinta-feira (28), às 20h, a Toca do Calango, em Jaraguá, apresenta Tributo a Belchior com João Calabar e Dinho Zampier. Os dois talentosos artistas alagoanos traduzem qualidade musical em forma de expressão contemporânea, numa genialidade que atravessa gerações. Com repertório irretocável, o espetáculo traz, entre outras faixas, as emblemáticas Sujeito de Sorte, Alucinação e Comentários a Respeito de John, que embalam gerações. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.

  • Dinho Zampier – Músico, tecladista, produtor cultural, nascido em Maceió, Dinho Zampier é um entusiasta, responsável por projetos e repertórios musicais clássicos de MPB, POP e JAZZ. O artista convida e é convidado a dividir e somar em palcos de músicos consagrados e de outros em promissora ascensão, como João Calabar.
  • João Calabar – João Calabar Alves da Silva é o artista que, ao interpretar, traz uma alma criativa na cena musical independente. Nascido em Porto Calvo e criado entre a histórica cidade e o município de Maragogi, mistura, em seus trabalhos, ritmos de bossa nova, sonoridades alternativas, temperados com poesia da tropicália e do folclore de Alagoas. Cantor, compositor, arranjador e intérprete musical, Calabar é nome expressivo para João, nome artístico e de registro.

Artista alagoano em brilhante ascensão, teve sua estreia em 2023, quando lançou “Epifania”, trabalho autoral que revelou as faixas Epifania, Urubus, Agouro e Matriz. Essa identidade musical de autor e ator – com essência sensível e poética – soube posicionar sua voz tanto em canções autorais como em interpretações. A exemplo de “Calabar Canta Gal”, desta vez, já em palcos de Maceió, São José dos Milagres e Arapiraca, João canta Belchior.

O Notícias do Centro conversou com João Calabar sobre esses projetos que, como afirma Dinho Zampier, homenageiam ícones musicais, em parcerias diversas, presenteiam o público com o que há de melhor de artistas consagrados, como Belchior (que dispensa apresentações), preserva a essência, é original, com recursos técnicos diferenciados, embora mantenha a mesma aura – elã vital, traço de criação personalizado.

Calabar reafirma a qualidade empregada no show. “Qualidade sim e sem medo de errar, sem precisar estar em nenhum pedestal. Falo daqui da simplicidade do quintal da minha casa, porque há dedicação criteriosa. Acredito que este é o show mais maduro, mas a minha relação musical com o Dinho começou no início do ano passado, janeiro do ano passado com o Tributo a Luiz Melodia, a gente apresentou um show, no Cine Arte Pajuçara, e daí pra frente apresentamos tantos outros eventos”.

Notícias do Centro – Calabar lembra o icônico Belchior, quando canta em versos, que é um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Quais as semelhanças entre vocês?

João Calabar – “Presentemente eu posso me considerar um Sujeito de Sorte”, a vida tem sido generosa comigo, muito generosa, apesar de tudo. Veja, a gente começa apresentando Belchior na veia, “Apenas um rapaz Latino Americano” é a segunda música do repertório. Quando meu professor de teatro Caio Ricardo assistiu a primeira apresentação desse show, muito atento ele chegou pra mim e considerou, nessa segunda canção do repertório, ele muito atento comentou, “quando você está cantando Apenas um rapaz Latino Americano, você não está dizendo do Belchior, você está dizendo de você”. E ele tem toda razão, e é por esse motivo que no repertório, ela está como segunda música da apresentação. E não tem como eu não me identificar com isso. Eu me encontro em vários momentos da letra, inclusive na canção de abertura Sujeito de Sorte, me considero mesmo um sujeito de sorte.
O que eu quero dizer com isso, é que a identificação com a poesia com as letras de Belchior, e que acontece com todas as canções presentes nesse especial. Eu me encontro com Belchior na profundidade, é isso que me interessa.
 
NC – João, quando surgiu a vontade de ser artista, teve influência e/ou incentivo da família?

JC – Espera, eu vou olhar pra mim mesmo pra poder te responder isso. Faço uma retrospectiva, pra saber do momento, se teve um momento em que a vontade apontoupara esse lugar, “o ser artista”. O que eu consigo dizer, é que o centro da minha vontade sempre foi a de se expressar, então a arte foi o lugar pra isso e ainda bem, porque sinto que não seria compreendido fora da arte. Se dentro dela uma vez ou outra não sou compreendido, imagine se dentro dela vez por outra não sou compreendido, que dirá fora dela. Então a arte é o lugar encontrado para a expressão.
  João afirma “preciso dizer que as influências e incentivos musicais na família nunca existiram”. Mas preciso usar também da minha honestidade, para dizer que nenhuma barreira também foi posta. Só apontei para essa necessidade de se expressar, apontei para o lugar da arte e ninguém ficou na minha frente e eu não deixaria que ficassem não. Como diria Belchior, “Saia do meu caminho, eu preciso andar sozinho. Deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol. Porque bate lá meu coração”. Belchior disse tudo aqui! Eu me arrepio dizendo isso pra você, porque sempre senti dessa maneira mesmo.
A arte me aconteceu de uma maneira natural, eu não sou formado em música, não passei por escola de música. Pra mim a música é a natureza, é a vida acontecendo, as relações passando pela gente, é isso, a gente conversar, estar aqui conversando com você. Eu sempre fui sensível a isso, sempre estive aberto a isso. A arte vem pra gente por que ela tem que vir, eu a recebi e trato tudo isso com muito respeito.
João Calabar teve sua consolidação como artista musical em 2024, quando lançou o álbum “Corações Leões”. Esse trabalho expande sua sonoridade com músicas ensolaradas e tropicais, conta também com canções reflexivas. Destaca-se na cena cultural, incluindo o projeto Seis & Meia, criou o elogiado espetáculo Calabar Canta Gal.
 
NC – João, como foi a preparação do repertório para este show em homenagem a Belchior?

JC – O Dinho fez uma playlist de canções para esse tributo a Belchior, com músicas que não poderiam ficar de fora e eu fiz o mesmo movimento. A gente juntou as playlists e as músicas eram praticamente as mesmas com raras exceções e tinha coisa que tinha minha e não tinha na dele, foi assim que surgiu o repertório. Então fomos lapidando, tivemos muito tempo para pré-produzir e a gente sempre teve muito cuidado com esse show, sempre mesmo.
Então toda vez que olhávamos para o palco, a gente analisava o que estava bom e o que precisaria melhorar. Costumamos fazer em coletivo, em conjunto, tem coisas individuais e precisamente técnicas, conversamos, mas também tem questões muito técnicas e ele como músico especialista vai procurar se dedicar e voltar toda a atenção pra isso, equacionar e resolver.
Tem coisas que são minhas, vejo como melhorar, a minha apresentação, o meu canto, a maneira como me apresento, qual a intenção, a maneira como me coloco para interpretar uma música, tudo é observado, a ideia sempre é fazer o melhor, que seja prazeroso para toda construção musical do espetáculo e em especial para o público.
 
NC – Das canções de Belchior, quais você destacaria?

JC – Sem dúvida, destaco Alucinação – “Eu não estou interessado em nenhuma teoria. Em nenhuma fantasia, nem no algo mais”, “Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, “Os humilhados do parque com os seus jornais”. (Canção de Belchior, 1976).
Para João Calabar, essa canção diz tudo com total profundidade.
João Calabar, enfatiza o requinte e a profundidade da obra de Belchior.

NC – Sobre a sua formação pessoal, suas influências musicais, o que você coloca em destaque, quais suas inspirações?

JC – Posso lhe dizer que tenho uma formação acadêmica em publicidade, propaganda e marketing, que é outra parada, outro lugar. Adiciono pouca coisa dessa minha formação, para coisas da música, mas nunca me senti publicitário, me sinto um cantor, isso aí me sinto facilmente, me reconheço intérprete.
Eu não tenho uma formação musical acadêmica, a música me ocorreu de forma muito orgânica, como disse, nasceu do desejo de me expressar e arte como lugar dessa expressão, e assim é a música pra mim. 
Para dizer das minhas influências musicais, elas são tantas, muitas, muitas, muitas, porque eu sou feito de muitos sons, eu me entendo assim. Com essa intensidade.
Então, posso te falar, por exemplo da Banda Sete de Setembro de Porto Calvo, uma espécie de orquestra filarmônica da cidade, que ensaiava em frente a casa da minha bisavó, em um galpão, que eles chamavam de sede, quando eu era pirralho, aí ouvia aquilo, aquele som com muita curiosidade, muito cuidado e atenção.
Os meus dois trabalhos autorais “Epifania”, 2023 e “Corações Leões”, 2024, ambos têm a presença de metais, que fiz questão de constar, isso é resultado da influência desse lugar, foi originado nisso, está em minha memória.  

NC – Como você vê a carência de espaços públicos com estrutura voltados à sociedade, aos estudantes, assim como aos artistas de um modo geral, em especial os que trabalham com música?

JC – Eu gostaria muito que Alagoas fosse bem reconhecida por sua expressão artística e cultural, porque nós temos muito a dizer, mas muito mesmo a dizer, sabe? Só que, infelizmente, os próprios alagoanos precisariam fazer valer mais as potências e suas valiosas identidades culturais. Que coloca como um lugar de praias bonitas e paisagens paradisíacas, e só! Eu considero esse conceito deprimente, porque isso nos desconsidera na nossa complexidade e profundidade, desconsidera a pluralidade das identidades que compõem esse Estado, entende? Eu atribuo a responsabilidade disso ou ausência de responsabilidade do poder público.
Há de se fazer uma louvação a leis de incentivo à cultura que vem lá cima, nos últimos anos, o que nos últimos anos nos possibilitou a fala como uma escuta um pouco mais atenta, a partir disso, as leis de incentivo à cultura pudessem agir com mais capilaridade e chegar em algumas comunidades que antes não chegavam. Mas ainda não é o suficiente, porque as expressões artísticas em Alagoas estão morrendo.

* Com Assessoria de Maria Tereza Pereira

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