sábado, 25 de julho de 2026 – 16h45

Companheira de Viagem

Histórias do Velho Capita
Imagem: Gemini/IA

Cheguei à rodoviária do Recife faltando cinco minutos para quatro da tarde, rapidamente comprei a passagem, desci correndo a escada, fui o último passageiro a embarcar, coloquei a pequena valise em cima, no porta-malas. Acomodei-me na poltrona. Cumprimentei com um sorriso minha vizinha de viagem, o ônibus deu a partida, pegou a estrada rumo a Maceió. Aproveitando os últimos raios do sol, uma luminosidade razoável, comecei a ler o livro do Mário Vargas Llosa, “Elogio da Madrasta”. A vista cansou com o lusco-fusco do entardecer. Fechei o livro, arriei a poltrona, tempo de pensar no romance que escrevo em minha cabeça. Nesse momento a vizinha da poltrona tirou o fone do ouvido, puxou conversa.

– Eu lhe conheço, leio suas divertidas crônicas aos domingos, adoro.

Percebi que não era uma adolescente como havia imaginado, a vizinha de bordo devia estar na faixa de 25 anos. Morena, olhos e cabelos negros, uma moça bonita. Pelas roupas vestidas e maneira de falar calculei ser de família classe média. Respondi à companheira de viagem.

– Que bom você gostar do que escrevo. A maior alegria de um escritor é o reconhecimento, fico feliz em encontrar uma leitora como você.

– Agora me diga, como o senhor arranja tantas histórias todos os domingos, elas são verdadeiras?

– Olha menina, algumas são verdadeiras 100%, outras tem 80% de verdade, outras 40%, as que não são baseadas em fatos reais eu as inventei. Tenho uma fértil imaginação desde menino quando lia histórias em quadrinhos e assistia filmes de cowboy.

 – Aquela história da loura tarada da praia da Jatiúca é hilária, e também aquela outra…

Minha companheira de viagem passou um bom tempo contando, às gargalhadas, várias das minhas histórias. Depois falou sobre meus livros, ela sabia de toda minha vida. Fiquei contente em ter uma leitora tão bem informada. Interrompi Michelle, era seu nome, perguntei o que fazia na vida. Ela não se fez de rogada.

– Estudo Direito, tenho certeza que serei uma boa advogada, gosto de falar. Sou dedicada, quero vencer na vida. Além de ser uma profissão fascinante, a advocacia tem mais chances de concursos públicos. Termino esse ano, minha meta é trabalhar e estudar sempre para concurso, quem sabe se não serei uma juíza ou desembargadora? 

– Acho a profissão de advogado muito interessante, sou engenheiro.

– Eu sei, sei de muita coisa de sua vida. Casado, três filhos.

Deu uma gargalhada debochada.

– Uma amiga comum me disse que o senhor é um bom boêmio.

– Senhor não, me chame de você, Sou um menino no corpo de um coroa. 

– Na minha Faculdade sou líder, reconheço minhas virtudes, depois de me formar quero trabalhar, trabalhar muito, aprender a profissão no dia a dia. Não me importa de viajar, enfrentar tribunais, sou despachada e corajosa. 

Proseando passamos boa parte do percurso, conversas amenas, até política. A moça me impressionou pela vivacidade e inteligência. A viagem tornou-se rápida, logo o ônibus entrava em Maceió. Ao passar por Jacarecica, peguei minha valise, me preparei para descer na parada mais perto da Jatiúca. Ainda deu tempo de uma última pergunta à companheira de viagem. Onde trabalhava? Ela foi de uma franqueza espontânea.

– Não tenho emprego definido, sou recepcionista de casamento e festas, trabalho numa empresa sem carteira assinada, só ganho quando acontece o evento. Se o senhor tiver algum lançamento de livro, ou outros tipos de eventos, eu cobro barato. Preciso de ajuda, veja o que o senhor pode fazer por mim.

O ônibus parou, desci para pegar um táxi, dei um até logo com a mão vazia. Ainda percebi o sorriso simpático e maroto de minha companheira de viagem enquanto o ônibus, soltando fumaça, desaparecia na escuridão da noite. Eu queria lhe dar meu novo romance, nem peguei o telefone da minha simpática companheira de viagem.

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