No cardápio, um bolo de fubá com grilo e um pão de queijo com tenébrio gigante moído. Substituir carne de frango ou boi por 50 gramas de insetos comestíveis. Essa pode ser a alternativa para o combate à fome no mundo, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
Mudanças nas preferências do consumidor e nas atitudes sociais em relação à entomofagia (a prática de comer insetos) nas sociedades ocidentais, – o que os cientistas denominam “tabu alimentar” e “neofobia”, cientes de que muita gente perde o apetite só de pensar em lagartas na comida, – continuam sendo o maior desafio para a indústria de insetos.
De acordo com o levantamento da FAO, cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo são adeptas à entomofagia (prática de comer insetos) ou incluem na sua dieta gafanhotos, formigas, baratas e outros invertebrados. Além disso, a produção da farinha de larvas é menos danosa ao clima do que a de fontes de proteína tradicionais, como vacas, porcos ou galinhas.
A União Europeia incluiu a farinha feita com larvas em alimentos, liberando para consumo humano. Trata-se do estado larval do besouro Tenebrio molitor, pulverizado. Tem conteúdo proteico de 50% a 55%, incluindo todos os nove aminoácidos essenciais, gorduras saudáveis e fibras alimentares, usada em massas, pães, biscoitos e barras de cereal.
Prevê-se, ao longo da próxima década, que as dietas nos países de baixo rendimento continuem a basear-se em alimentos básicos. Já os consumidores nos países de rendimento médio e alto passarão a consumir mais gorduras e produtos de origem animal, numa dieta mais saudável.
O termo “mini-pecuária” identifica insetos e outros organismos de pequeno porte que podem ser criados e consumidos de forma lucrativa por humanos. Em todo o mundo, cerca de 92% dos insetos comestíveis são coletados na natureza, e apenas pequenas quantidades são criadas em cativeiro.
Há uma carência de conhecimento estruturado sobre como os insetos devem ser criados em condições que respeitem seu bem-estar. Os criadores gerenciam os vários estágios da produção de insetos de acordo com técnicas geralmente empíricas, desenvolvidas por meio de um processo de “tentativa e erro”.
O Codex Alimentarius, que representa uma diretriz internacional para a segurança alimentar, não considera os insetos como alimento, insetos são referidos apenas como “impurezas”. As regulamentações variam muito de país para país e a maioria dos países ocidentais sequer aborda especificamente os insetos.
No mundo, existem mais de 2.100 mil espécies comestíveis de insetos. O maior grupo é o de besouros, seguido por formigas; gafanhotos e grilos; lagartas de borboletas e mariposas; e cupins, cigarrinhas e moscas. No Brasil existem cerca de 135 espécies, entre larvas de besouros, lagartas de borboletas, formigas e gafanhotos.
Para quem deseja saber mais sobre insetos comestíveis antes de experimentá-los, existe uma vasta literatura online, desde artigos sobre estilo de vida até estudos científicos mais especializados. A principal referência continua sendo o Livro Branco da FAO de 2015 sobre Insetos Comestíveis.
Uma praga
O Tenebrio molitor é comumente conhecido como larva-da-farinha. Para o agricultor tradicional, ele é considerado uma praga secundária de grãos armazenados, farinhas e rações. Suas larvas infestam produtos secos, preferindo locais escuros e com umidade, sendo uma praga comum em silos e depósitos.
As larvas danificam o produto ao se alimentarem dele e o contaminam com seus excrementos, cascas e restos. Alimentam-se de cereais, farinhas, farelos, rações e massas. Tem metamorfose completa (ovo, larva, pupa, adulto) e o ciclo larval dura de 3 a 4 meses, e Preferem lugares escuros e, embora prefiram produtos secos, são atraídos por alimentos úmidos.
Embora seja uma praga, ele é amplamente criado para ser utilizado como isca de pesca, alimento para animais exóticos e, cada vez mais, como fonte de proteína na nutrição animal.

Na Itália
A Nutrinsect, empresa italiana, primeira do país a obter licença para produzir e vender alimentos à base de insetos para consumo humano, tem a versão de 100 gramas da farinha de grilo, com 56 gramas de proteína, está sendo vendido a € 6, o equivalente a R$ 32, na cotação atual.
Os grilos são criados em recipientes plásticos forrados com caixas de embalagens de ovos que servem de ninho para se alimentarem e acasalarem. São mantidos em um ambiente aquecido e após 30 dias de vida são congelados antes de serem despachados para empresa externa, onde são liofilizados e moídos até virar farinha.
Embora o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni defenda que a culinária italiana deve ser protegida da ameaça dos insetos, a União Europeia aprovou a venda de grilos, gafanhotos e larvas de besouros escuros para consumo humano no início de 2023.
A decisão elevou os pedidos de licenças de empresas interessadas em disputar uma fatia do mercado de insetos comestíveis, na Itália. De acordo com matéria publicada pelo The Guardian, a Europa deverá atingir 2,7 bilhões de euros (R$ 14,5 bilhões de reais) até 2030.
O empreendedor destaca que o produto é benéfico para o meio ambiente. Embora o inseto exija acesso a uma boa quantidade de água potável, a produção de um quilo de farinha de grilo requer cinco litros de água, em comparação com os 15 mil litros necessários para produzir um quilo de carne.
No site oficial, a empresa sugere utilizar a proteína em shakes, smoothies e iogurtes, ou misturá-la em massas, pães, pizzas e wraps. “Tem sabor de avelã, combinando bem com todos os produtos assados, doces e salgados. Ideal para pães, biscoitos, biscoitos e bolos”, recomenda a marca.
O empresário Jose Cianni, fundador da empresa, ironiza que embora o inseto precise para a produção de um quilo de farinha de grilo, de cinco litros de água, comparando aos 15 mil litros necessários para produzir um quilo de carne. E que a fábrica da Nutrinsect tem 1 km², enquanto para produzir 200 kg de carne são necessários 100 km².

No Brasil
O consumo de insetos no Brasil é uma prática ancestral, comum em comunidades indígenas e tradicionais. Focada em insetos como tanajuras (formigas), larvas e abelhas. Essa prática é sustentável e altamente nutritiva. Povos da África, Ásia e Américas central e do sul – onde há demanda – consomem insetos e animais exóticos.
A comercialização para consumo humano ainda não possui regulação específica no Brasil, sendo tratados pela Anvisa como “novos alimentos” que exigem avaliação de segurança. O Ministério da Agricultura (MAPA) já permite o uso de insetos apenas na alimentação animal, como no caso de tenébrios para pássaros e pequenos répteis.
Muitos brasileiros já consomem subprodutos de insetos, como o corante carmim, extraído da cochonilha, aplicado em iogurtes e alimentos de cor vermelha. Estima-se que cerca de 150 espécies de insetos são consumidas no Brasil, principalmente na região Norte e Nordeste, onde formigas como a tanajura ou içá são consideradas iguarias.
A Nutrinsecta, localizada em Betim (MG), no Instituto Vale Verde, já produz cerca de duas toneladas de grilos, tenébrios, moscas, larvas e baratas, que são vendidos a criadores de animais exóticos e silvestres e fabricantes de ração animal. O instituto oferece um café da manhã com recheio especial e nutritivo, aos visitantes.
No Feevale Techpark, a empresa Insect Protein, sediada em Campo Bom/RS, aposta em biotecnologia e economia circular para transformar insetos comestíveis — mais especificamente o Tenebrio molitor — em insumos ecológicos voltados à nutrição animal e à agricultura orgânica.
O representante da empresa, Mauro Ávila da Silva explica que a proteína que produz, pode servir para qualquer animal não ruminante, que é o que permite o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A Insect Protein é a única empresa no Brasil que tem certificação do Ministério para trabalhar com o Tenebrio Molitor.
“É um superalimento que não sofre nenhum processo de transformação complexo. Ele simplesmente é abatido por congelamento e depois é desidratado numa desidratadora de frutas durante um tempo, numa temperatura específica, para depois poder ser consumido”, complementa.

O Marketing
Pesquisa realizada pela Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ) indica que a combinação de mensagens focadas em saúde e nas características sensoriais positivas, aliada a informações visuais atraentes, contribui para neutralizar a neofobia alimentar – relutância em consumir alimentos desconhecidos – e aumentar a intenção de compra de produtos à base de insetos.
O contexto da pesquisa leva em consideração o que aponta o relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2021-2030 – Perspectivas para a Agricultura 2021-2030 – da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). As tendências no consumo de carne e a degradação do planeta.
O estudo faz parte do projeto “Proteínas alternativas no Brasil: estruturando as informações a fim de alavancar o desenvolvimento do setor de alimentos”, sobre a necessidade crítica do incentivo às mudanças no consumo, não apenas no sistema atual de produção, mas também nos hábitos e alimentação da sociedade, como fontes alternativas de proteína, alimentos à base de plantas e insetos substituir as carnes tradicionais.
“Os consumidores expostos às informações relacionadas à saúde não apenas demonstraram maior intenção de comprar os biscoitos, mas também os notaram como mais sustentáveis, sugerindo que informar tais benefícios pode servir como poderoso motivador, potencialmente superando a novidade ou o desconhecimento do produto, principalmente, quando os consumidores estão preocupados com a sustentabilidade”, disse a doutoranda da UFRRJ, Karen Romano.
O estudo sugere que o setor supere a resistência inicial do consumidor por meio de estratégias de marketing, educação e apoio político para aumentar a aceitação e a adoção de alimentos à base de insetos, para chegar ao mercado. Mostrar que esses produtos são uma solução viável.




























