Queridos Leitores,
É com muita alegria e orgulho que comemoro meus 35 anos de vida aqui na Inglaterra! Que doideira né?
Pois bem, eu nem lembrei direito na data, foi dia 21 de Agosto de 1990 que cheguei aqui, estava até com minha coluna dessa semana prontinha na minha cabeça, então de noite quando olhei para o meu calendário onde marco que tomei minha medicação lembrei que tinha esquecido de comemorar!

No dia anterior eu tinha tomado uma decisão sobre um assunto muito incômodo que eu estava tentando resolver, ainda não resolvi, mas mudei de tática e isso me aliviou. Então quando percebi que tinha esquecido de comemorar também os meus 35 anos aqui, resolvi fazer isso na minha coluna, pois ela é o que mais me aproxima das pessoas aí no Brasil!

Lembro como se fosse hoje eu chegando aqui, indo ficar com umas brasileiras desconhecidas pois eram conhecidas de um único contato meu por aqui… Vim para aventurar por um ano!

Os motivos pelos quais eu vim são vários. O primeiro foi a minha frustração de sentir todos os dia que eu não era capaz e que ninguém acreditava que eu era capaz de ser ou fazer qualquer coisa, inclusive ser mãe. Outro motivo foi que eu fiquei muito indignada com o presidente eleito do Brasil na época e eu tinha certeza que não teria oportunidade nenhuma como uma jovem mãe solteira, e talvez o último motivo e que nem eu sabia que era motivo foi de me entender e achar como pessoa. Eu estava cansada de ser taxada disso ou daquilo, cansada da falsidade das pessoas, amigas que nem me convidar para seus casamentos me convidaram, para não passarem vergonha. Não que eu ligasse para isso, o que mais me machucava era depender de meus pais para poder criar minha filha e eu não tinha voz!

Como podem perceber eu estava com a cabeça muito confusa, aos 26 anos, já era mãe de uma linda menina e não tinha a mínima ideia do que fazer de minha vida. Não tinha o pai de minha filha para conversar. Na minha cabeça meus pais não mais me queriam ali, mas só me tinham porque eles queriam minha filha, eu precisava ter controle de minha vida e para isso tinha que sair daquele lugar que me sufocava. Hoje sei bem que meus pais só queriam me proteger e proteger a Nanda, não que não fosse capaz de protegê-la, mas era dependente deles e assim nunca ia sentir-me capaz! Eles me apoiaram porque eles queriam que eu fosse feliz, que achasse minha voz e minha independência e não o que pensei antes.

A coisa mais difícil foi me separar de minha filha, mas essa separação me deu determinação de viver tudo que vinha pela frente. Sub empregos, pessoas falsas (pior que no Brasil) ao meu redor, tirando proveito pois eu já falava inglês muito bem, pagar contas, ter certeza que teria comida. Uma vida normal do ‘batalhador’ brasileiro no Brasil eu estava experimentando aqui, pois tinha tido sorte de ter nascido numa família de classe média que pôde me dar tudo que eu poderia ter desejado. Não acho que isso foi ruim, mas vir pra cá me fez valorizar a minha educação e me arrepender amargamente da minha ‘rebeldia sem causa’ que provocou tantas brigas bestas com meus pais. À partir daí eu prometi a mim mesma que jamais iria me arrepender de nada, pois todas as escolhas, certas ou erradas, nos ensinam alguma coisa e nos faz crescer mais fortes.

Fui camareira de hotel, fui faxineira de casas e de um museu, fui babá, garçonete, fui lavadora de pratos de um bar, fui bar tender, fui vice gerente de um bar… ufa, cansei de tanto trabalho ‘manual’ precisava de alguma coisa que pudesse fazer usando minha criatividade. Voltei a estudar, meu ex marido dizia que eu era a pessoa mais velha da faculdade, eu deixava ele falar isso, pois mesmo casada, eu tinha minha independência, nunca deixei de trabalhar e sempre pagava minhas contas. Quando me formei em maquiagem, fui a melhor estudante daquele ano. Meu ex marido não dava valor, até que uma vez, a filha da ex dele me pediu para ir fazer pintura de rosto em crianças para arrecadar dinheiro para escola. Então eu fui, nunca tinha feito isso, mas tinha meu material pois tinha pago essa matéria na faculdade. O mais divertido não foi ver as crianças felizes e interagindo comigo, o mais divertido foi ver a cara de tacho do meu ex quando viu que eu sabia fazer e que no final da feira, eu sozinha como pintora, arrecadei mais dinheiro do que as outras pessoas, vendendo comida e outras coisas! Queriam que eu ficasse com 10%, mas eu não quis, doei a minha parte também! Foram essas coisas que criaram em mim um bom escudo, e nada melhor que poder calar os críticos mostrando a minha capacidade!

Não posso esquecer também do meu ‘professor’, o câncer, que não só me deu a certeza de que Deus sempre está comigo, mas que me carrega no colo, quando não sei para onde ir, ou o que fazer! Foi esse ‘professor’ também que me ensinou a pedir ajuda e a receber ajuda quando oferecida, sou brava, destemida e forte, mas sou humana. Na minha ânsia de aproveitar essa vida, confesso que fiz coisas erradas também, mas como já disse, sou humana e ao me redimir tenho certeza que Deus me perdoa, pois Ele é só amor!

Hoje, moro só, tenho meu carro, faço minhas viagens sozinha ou acompanhada, meus cabelos grisalhos sempre com alguma cor diferente para realçar, tenho 11 tatuagens sendo que 3 delas são os pontinhos da radioterapia, tenho essa coluna aqui que me deixa expressar minhas alegrias, minhas tristezas, até mesmo meus protestos e que foi motivo de eu ganhar um prêmio, continuo aprendendo com a vida e com as rasteiras que ela me dá, mas continuo naquela do famoso samba de Paulo Vanzolini : ‘levanta sacode a poeira e dá a volta por cima’!

Obrigada Deus por esses 35 anos nessa aventura aqui na Inglaterra e com esperança que ainda terei muitos anos pela frente para continuar vivendo e contando minhas aventuras de ‘gringa com sangue brasileiro’! Obrigada também a vocês meus leitores e amigos que estão sempre por aqui lendo sobre minha vida e me apoiando! Tá valendo!

Fiquem com as fotos e a poesia!
Até a Próxima!
Aída

Dorian Grey eu não sou,
Jovem continuo no meu retrato,
No espelho vejo o tempo que passou,
E as marcas desse ingrato.
Mas meu coração ainda pulsa,
Com a força de uma criança,
Os males e a tristeza expulsa,
Atraindo alegria e esperança.
De um passado que me acalenta,
Ensinando tudo que sei,
No rosto parece 40 (rsrs),
Mas no coração eu sou Dorian Grey…
Aquele que não envelhece!
Aída
22/08/25






























Respostas de 19
Trinta e cinco anos de muitas emoções, conquistas e aprendizados!
A sua jornada é um verdadeiro exemplo de força, coragem e dedicação.
Você é uma guerreira admirável, daquelas que inspiram sem precisar dizer muito.
Ler os seus relatos é se emocionar com cada capítulo da sua história.
Parabéns por tudo o que você construiu até aqui! 🌹😘
Eita Dione, assim eu choro! Brigada amiga 😘
Parabéns Aída! Continue essa mulher guerreira e determinada, todo sucesso pra vc! Bj
Obrigada Andréa, que bom ter você por aqui! Volte sempre! 😘
Brigada Andrea, tenho momentos difíceis, mas quem não tem? Volte sempre ! 😘
Outro comentário lindo que recebi no WhatsApp e coloco aqui para vocês, foi da minha eterna mestra de ballet Eliana Cavalcanti:
‘Acabei de ler sua retrospectiva em comemoração aos seus 35 anos Inglaterra. Muito bom , Aída! Parabéns e uma abraço afetuoso!’
Obrigada’tia’ Lili!