quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h31

LIVREIROS, LIVRAI DA IGNORÂNCIA

Foto: Roberto C. Farias

Notadamente conhecido e consolidado, o comércio de livros usados tem prosperado em Maceió. Como testemunho físico de tal afirmação temos a ocupação crescente de espaços na rua Barão de Atalaia, precisamente no paredão que faz base ao prédio assembléia legislativa. Encostado no inclinado muro de arrimo se dispõe as bancas. E do outro lado da rua, entremeado por acessos ao estacionamentos particulares há inúmeros sebos.

Foto: Roberto C. Farias

Para quem resolve desafiar o tríplice conjunto de poeira, mofo e ácaros, sempre haverá recompensa seja na aquisição de itens para acervos próprios ou ainda no despertar para os assuntos que as capas e orelhas dos muitos títulos secretam em variados formatos e números de páginas. Que no toque do leitor ganham vida. O livro ganha sempre do filme, no meu modo de entender, por forçar a imaginação em belas descrições dos ambientes, personagens, cores e afins. O livro prescinde da imaginação de quem o decifra. O filme é um pacote pronto. Gosto de ambos e procuro extrair a seiva que também pode servir de alimento. Da alma e do intelecto.
Transitar em garimpo no real labirinto de letras é estar sujeito.

Foto: Roberto C. Farias

Sujeito a novo enquadramento, novos despertares reformulados pela atenção curiosa e pela bela busca; ó aventureiro! Buscai!
Apesar da generosa oferta de volumes dos mais variados temas, a busca deve ser apoiada por uma atmosfera mais próxima do hábito de ler: ambientes mais salubres e mobiliário condizente que possibilitem desenvolver o conforto e ainda, a frequência. Hábitos que se traduzirão em bons negócios.

Foto: Roberto C. Farias

A organização, catalogação e os pertinentes métodos podem trazer o cliente qualitativo em maior quantidade, tornam o espaço já ocupado e consolidado em paisagem acolhedora e propícia. Dignos de novas experimentações e novas notas.

Foto: Roberto C. Farias

Outra relação a se beneficiar com a área é o melhor ordenamento do tráfego cuja intensidade deverá ser amainada parcialmente para trocar conflito por pacificação, provavelmente com a redução da velocidade permitida e a criação de pavimento trepidante, beneficiamento dos passeios e segurança do transeunte. Todos vitais.

Foto: Roberto C. Farias

Bancas de livros usados no “Corredor Cultural dos Sebos” patrimônio material que merece ser tombado pela sociedade e políticas públicas. Estrategicamente posicionadas na sombra matinal do “Paredão”. Resistência e resiliência de nicho de mercado que só cresce. Recebe diariamente passantes, clientes fiéis, colecionadores e fornecedores. Talvez a grande ousadia seja abrir o paredão em arcadas ou colunatas de modo a abrigar os comerciantes e compradores em espaço condizente com ítens de cordialidade, hospitalidade, bem estar, conforto, acessibilidade e promoção da qualidade do produto ofertado. Já dá para imaginar um domingo por mês com a rua fechada aos carros e aberta aos pedestres, com o tráfego desviado pela praça Dom Pedro II, em vasta programação cultural para os Maceioenses e os visitantes.

Foto: Roberto C. Farias

É confortável enfatizar nesta altura a proximidade com a biblioteca pública. Num diálogo bastante simbólico e simbiótico. São os livros os tijolos células de edificações do pensamento, construtores de identidade, promotores de conversões e mudança. Grandes companheiros para o passar das horas. De que matéria é feita o sebo, o alfarrábio e os livreiros? Conheço alguns que são leitores assíduos e críticos sapientes cujo aconselhamento é o verdadeiro tesouro. Bebamos nas fontes.
Nesta época do ano, últimos dias de julho, ainda bate sombra nas bancas de sebo. É valioso ressaltar que a temperatura alta deforma os LPs e diminui o tempo de permanência do comprador deixando ao vendedor a própria sorte. Se num vislumbre de Projeto o paredão aceitar ser escavado para apoiado em colunatas e arcadas ser a ampliação espacial vital para a acolhida deste modelo de negócio. tornando o sub-solo da edificação da Assembleia Legislativa o espaço propício e independente dado que fica na rua de trás. Outra possível ideia é fixar duas marquises metálicas paralelas e em alturas distintas: uma fornecerá a sombra aos transeuntes e a outra possibilitará a duplicação em altura das bancas, servidas por exíguas escadas helicoidais, possibilitando uma armazenagem maior de livros e até vitrines convidativas facilitando a propaganda tão consorciada a venda.
Há meses em que o sol inclemente castiga incidindo sobre a rua em horas de maior calor. Desorientando e extraindo suor. Lembrando que o folhear de
páginas requer o cuidado que a idade do livro e sua encadernação pode promover.

Foto: Roberto C. Farias

Fica o registro das sugestões ora apresentadas, separar um final de semana por mês para desviar o trânsito da rua ( que terá o seu nível elevado objetivando ligar uma calçada a outra em benefício aos pedestres de um modo geral e, com outro tipo de pavimento trepidante fazer a redução da velocidade dos automotores), ao promover a inversão do tráfego na frente da Assembléia fazendo com que as demandas para o Trapiche e adjacências desçam a ladeira de frente a biblioteca pública.
Esse gesto da municipalidade oportunizará um número significativo de famílias que sobrevivem há pelo menos quatro décadas no ramo. Neste domingo festivo de cada mês; artistas da terra, eventos paralelos de gastronomia e ampla cultuação do jeito Maceioense de ser e estar.
Deverá o município ter em mente que apenas arrecadar o aluguel do uso do solo onde está este resistente ponto de cultura é pouco, há que se promover a infraestrutura, a acessibilidade e o encontro de maneira aprazível. Certamente os turistas virão conhecer.
Livreiros, Livrai-nos da cegueira cultural que nos assola.

Foto: Roberto C. Farias

Roberto Costa Farias, 31 de julho de 2023. Texto e fotos.

Respostas de 12

    1. Laila, obrigado! Certamente o necessário, apenas o necessário para alcançar o extraordinário!
      Na torcida; abraço fraterno 🙏

  1. Obrigado Aída! Elucidar e promover espaços é missão do arquiteto. Imagina como a distribuição de atividades pode gerar economia criativa para muitos segmentos, criando e fortalecendo memórias!

  2. Matéria excelente! Como nos livros, que são sempre melhores que os filmes, visualizei a rua fechada, artistas e o público desfrutando de agradáveis momentos !
    Maceió é muito mais que praia e sol!

  3. Parabéns Roberto! A explanação desse excelente profissional deve ser levada a sério não deve ser uma só colocação e deixada de lado, as autoridades de Maceió devem pensar nas pessoas que não tem a oportunidade de ter um livro pra comprar, é fundamental a leitura para todo um progresso, é tão bom ler um livro em um espaço adequado com uma estrutura dar mais vontade de ler, leiam e executem esse projeto. Façam pela a cidade que vocês nasceram!!!

    1. Obrigado Felícia! Ao intencionarmos sempre adequados espaços para usufruto coletivo, possíveis com baixo custo, estaremos a criar novas relações de pertencimento com a Maceió de um futuro desejável. Agradeço muito.

  4. Parabéns Roberto, excelente ideia!
    Já fui lá com meu filho uma vez, garimpamos bastante.
    Acredito que a seria muito interessante, uma ação cultural que só valorizaria a cidade.

    1. Obrigado, Flávia! Também acreditamos na possibilidade de uma valorização constante que possa ser ampliada de modo a fomentar possibilidades!

  5. Excelente matéria!
    As sugestões são pertinentes e devem ser aplicadas.
    A importância da leitura é fartamente relatada em estudos diversos. Devemos pois incentivar ao máximo.
    Parabéns pela matéria Gustavo, grande incentivador da cultura.
    Abração.
    Jairo

    1. Obrigado Jairo! Há em nossa Maceió, muitos lugares adormecidos e latentes, esperando o momento em que um singelo toque proporcione a alavanca necessária para o despertar!

  6. Matéria escrita com muita cidadania e amor pelo nosso grande amigo Roberto Farias. De uma sutileza inimaginável, que nos remete a um passado, bem presente, escondido em nossas mentes. Em meio aos computadores, tablets e celulares… Parabéns

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