quarta-feira, 17 de junho de 2026 – 14h36

Planície do entorno do Centro de Maceió é só abandono

Entre a praça do Bonfim, a praça da Faculdade e a orla da Avenida, vive-se noites e dias estranhos
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Vista panorâmica da parte baixa do bairro do Centro, em Maceió - Foto: LulaCastelloBranco

Até o final da década de 1980, Maceió tinha no bairro Centro e em seu entorno a principal opção de comércio, serviços e lazer. Sapateiros, ourives, chaveiros, engraxates, advogados, contadores estavam ali.  Confeitarias, sorveterias, pizzarias, lanchonetes, principais lojas e magazines, dos mais diversos ramos, consultórios médicos e odontológicos, bancas de revista, cinemas, rádios e jornais, todos formavam o comércio da cidade. Quem viveu esse tempo sabe o que o bairro representava no dia a dia da capital alagoana.

Com o crescimento habitacional de bairros mais afastados, surgiram novos centros comerciais no Benedito Bentes, Jacintinho, na Avenida Rotary e Gruta e no Pinheiro (hoje desértico), que, de algum modo, foram reduzindo o movimento da área central, para onde, até hoje, convergem as principais vias da cidade. O comércio, como é chamado o núcleo pulsante do Centro, começou a sofrer perdas devido à concorrência dos outros bairros. E mais ainda chegada dos Shoppings Centers.

Foto: LulaCastelloBranco
Vista panorâmica da bela Maceió, mostra a verticalização na arquitetura e comércio de bairros vizinhos do Centro- Foto: LulaCastelloBranco

A orla, da Pajuçara à Jatiúca, ainda com poucos prédios, havia moradias e casas de praia, nos anos de 1980, que pertenciam aos mais abastados. Quando, num surto imobiliário, foi invadida pela arquitetura verticalizada, ampliando abruptamente sua população. Hoje, também tem em seu entorno um comércio próprio. Os bairros Centro e Jaraguá foram gradativamente sendo desabitados: onde havia uma vida que acordava e dormia nesses locais centrais, hoje se dorme e se acorda em bairros vazios. 

A partir dos anos 2000, o comércio, espalhado pela cidade, ganhou força. O Centro caiu em um esquecimento coletivo e foi abandonado. Em dezembro de 2015, o Hipermercado Bompreço da Buarque de Macedo (o B14), fechou portas. O Hiper, como era chamado, funcionava até às 22h e tinha loja, lotérica e farmácia. O movimento era oportuno para uma vizinhança de comércio e serviços. Tudo pulsava.

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Antigo Hiperbompreço, um gigante adormecido – Foto: LulaCastelloBranco

O fechamento do Hiper, impactou a todos no entorno do estabelecimento. Um grande vazio urbano chegou. A nota do Walmart, terceira rede de supermercado do Brasil, acusou o  “ambiente econômico no Brasil [2015]” pelo fechamento de lojas. Consumidores e, sobretudo, moradores da vizinhança mudaram a rotina das compras, esvaziando as calçadas e ruas, levando ao fechamento de lanchonetes, farmácias, lojas, empresas de serviços na região.

Na praça Sinimbu, o abandono está crônico, hoje. O prédio do TSE fechado, numa reforma caduca, lenta, que nunca acaba, à porta acampamentos de sem-teto, raros transeuntes cruzam a praça, mesmo pelo dia. No Salgadinho também, outra obra que caduca. Na Ferroviária, que tinha um fluxo de 11 mil passageiros por dia, o caminho foi interrompido e, hoje, se conta, nos dedos, os passageiros em horários das viagens diárias. 

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Abandono da tradicional praça Sinimbu reflete o descaso das políticas públicas – Foto: LulaCastelloBranco

O melhor de tudo é que o comércio ainda pulsa, fortemente, com todos os produtos e serviços de sua tradição. No horário comercial e em raríssimos eventos o Teatro Deodoro salva as noites do bairro. Mas em seu entorno, longo entorno, da praça do Bonfim à praça da Faculdade e toda a orla da Avenida, todo esse núcleo, está absolutamente abandonado, em noites esquisitas.

Moradores reclamam da falta de um supermercado na região, embora ainda haja órgãos e instituições, como a Vamu Mobilidade (antiga Transpal), o Sebrae, o Instituto Federal de Alagoas (antiga Escola Técnica), o PAN Salgadinho, o Espaço Cultural Salomão de Barros Lima (antiga Reitoria), clínicas e consultórios, que atraem um bom público. Mas  não há farmácias, padarias, papelarias, nem pizzarias e sorveterias. São casas desocupadas, o Hiper desocupado, um gigante adormecido.

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Fundos do prédio do antigo Hiperbompreço, o B14, bastante danificado – Foto: LulaCastelloBranco

É unânime a queixa de não haver um supermercado na região. Os mercadinhos surgem (também pequenas farmácias e padarias), onde há maior aglomerado de habitações, porém não cobrem a carência de consumo. Essa população vai a supermercados em bairros vizinhos, Pajuçara, Farol e Prado, ou a atacados em bairros mais distantes. Reclamam também da insegurança nas ruas, da má iluminação, da desvalorização de seus imóveis, da desumanização das praças e vias. De que não se vive mais a cidade.

Para quem anda, por toda essa parte mais baixa central, há momentos de total solidão. Onde a pessoa sente-se um ser de outro mundo. Calçadas mal cuidadas e vazias, praças e logradouros vazios, praia vazia, terrenos baldios, casas fechadas. Descuido do poder público constituído, de quem pode e deve fazer.

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Ruas do Centro, desrespeito absoluto aos transeuntes – Foto: LulaCastelloBranco

Com as bênçãos de Nossa Senhora dos Prazeres (Padroeira de Maceió), de Nossa Senhora do Carmo e de Nosso Senhor do Bonfim, de tudo o que está ali, que não parece realidade, que se recrie, urgentemente, o núcleo primário do surgimento da cidade, porque parte dessa primazia já foi apagada completamente nos bairros que a mineração da Braskem condenou. É nossa História sendo apagada e nada de novo tem surgido. Havemos de ter esperança.

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