Ada Rogato foi uma pessoa predestinada, que encontrou sua sina na plenitude dos voos, conforme sonhara desde menina. Ela mergulhou profundamente, ultrapassando limites da aviação civil. Contornou as três Américas, sobrevoou a Cordelheira dos Andes e a Floresta Amazônica, guiada apenas por uma bússola, no seu avião monomotor “Brasil”. Visitou 28 países, em um percurso de mais de 51 mil quilômetros, em 364 horas de voo. Polvilhou, com inseticida, lavouras atingidas pela broca do café, fez shows aéreos que atraíram milhares de pessoas, com acrobacias e saltos de paraquedas. Tudo isso entre os anos de 1935 e 1960.
Hoje, 22 de dezembro, comemora-se os 114 anos de nascimento dessa mulher extraordinária, “cujos melhores e mais incisivos adjetivos não seriam suficientes para decifrá-la”. Ada recebeu centenas de homenagens por seus feitos, honrarias destinadas a poucos, foi um ás da aviação civil brasileira. Corajosa e determinada, sempre em voos solitários, superou o tempo, as condições climáticas, as longas distâncias, os voo rasteiros, os saltos noturnos de paraquedas. A vida de Ada Rogato é uma história apaixonante, “voando com o seu sonho, em busca do novo e do próximo, na pureza do céu, desnuda tudo aquilo que na sua época eram preconceitos, descrenças e impossibilidades”.
Sua origem
Nascida em São Paulo, no dia 22 de dezembro de 1910. Filha do imigrante italiano Salvatore Guglielmo (Guilherme) Rogato, fotógrafo, que após crise provocada pela Primeira Guerra Mundial na Europa, aterrissou em São Paulo, em 1910, e logo casou-se com a também imigrante Maria Rosa Grecco Rogato, e tiveram a pequena Ada Leda Rogato. Guilherme montou um estúdio no Rio de Janeiro, mas recebeu um convite do governo de Alagoas, no início dos anos 1920, e a família rumou para Maceió (AL).
Terminado o curso primário e secundário na capital alagoana, seguindo o padrão das boas moças da época, Ada também estudou piano, desenho e pintura, com professores particulares, enquanto a mãe a habilitava em prendas domésticas. “Nada mais lhe faltava”, pensava o pai, pensando em lhe arranjar um bom casamento. Mas ela sempre o desafiou, impondo seu ideal de pilotar aviões.
Guilherme Rogato introduziu o cinema em Alagoas, no início dos anos de 1930. O primeiro longa-metragem produzido no estado, “Casamento é Negócio”, em 1933. E foi em suas viagens pelo interior alagoano, que o fotógrafo apaixonou-se por uma moça de Quebrangulo, de 19 anos de idade, Augusta Pereira dos Santos, com quem posteriormente casou-se e teve Flávia Rogato Farias, conceituada médica em Alagoas.
Em meio ao conflito familiar, Rosa e Ada retornaram para São Paulo, separaram-se definitivamente, para o resto da vida, de Guilherme. Na capital paulista, instalaram-se numa pequena casa do bairro de Santana, onde Ada, além de colaborar nas tarefas habituais, ajudava a mãe nos sustentos domésticos, fazendo bordados em peças para enxoval. Porém, entre o casario do bairro onde moravam e o Rio Tietê, havia o Campo de Marte, o primeiro aeroporto do Estado.
Vendo as aeronaves cruzando os céus, aviões e planadores, de sua janela, enquanto bordava, fazia crescer em Ada seus anseios e desejos por voar. Começou a economizar dinheiro para pagar as aulas de voo e poder frequentar eventos relacionados com a aviação. Em 1934, durante a visita e apresentação de uma comitiva alemã de voo a vela, o voo em planador, Ada tomou uma atitude que a marcaria para sempre.
Entre os ases da comitiva alemã, havia Hanna Reitsch, mulher de 22 anos, recordista em distância e duração dos voos em planador, o volovelismo. Ada quis conhecê-la, foi até sede social do aeroclube, assistiu às exibições da equipe estrangeira, e ainda teve a graça de estar na foto oficial do evento, ao lado de Hanna. No ano seguinte, 1935, a bordo de um Grunau Baby, Ada Rogato foi a primeira sul-americana a obter o brevê “C” de piloto de planador, com reconhecimento internacional.
Em março de 1936, fez o seu primeiro voo solo em avião, e, a bordo de um Tiger-Moth de 90 HP, tornou-se a primeira mulher a receber o brevê em avião pelo Aeroclube de São Paulo. A partir daí, passou a participar de novos tipos de competições e exibições aéreas, sem deixar de lado o volovelismo, colaborando nos testes para a construção dos primeiros planadores brasileiros.

Sua biografia
“Quando terminei de ler a história de Ada Rogato, pensei que estava sonhando e jurei que acabara de presenciar uma obra de ficção. Aquilo não era real. Mas, ao “acordar”, tudo era documentado… era verdade… aconteceu… inacreditável, concluí.”, descreve o Maj Brig Ar R/1 José Roberto Scheer, na apresentação do Livro ‘Ada Rogato, Um Pássaro Solitário’, da jornalista Lucita Briza.
“Como alguém, nos anos 30 e 40, e ainda mulher, num período em que a cultura do ‘fazer acontecer’ pertencia unicamente aos homens, poderia ter realizado tamanhas façanhas verdadeiramente heroicas, ou até mesmo, de certa forma, insanas. Mas fez. Essa incrível mulher, cujos melhores e mais incisivos adjetivos não seriam suficientes para decifrá-la, realizou proezas que hoje, com aviões mais modernos, com tecnologia avançada e utilizando maiores recursos, não seriam nada fáceis de serem concluídas”, continua o Major Brigadeiro.
“O seu ideal de ser pássaro, voando com o seu sonho, em busca do novo e do próximo, na pureza do céu, desnuda tudo aquilo que na sua época eram preconceitos, descrenças e impossibilidades. Para Ada tudo era, simplesmente, amor ao excelso voo, e as suas consequências não ensejavam preocupações e nem ansiedades, apenas se resumiam em suaves chegadas e saídas. Cada conquista singular era, apenas, mais um pouso, e cada saudade uma decolagem. O voo era a razão da sua existência”, conclui o Major Scheer.
“Sua aparência não lembrava propriamente a de uma superheroína; tímida e de compleição delicada, era mais baixa do que alta, nem feia nem bonita, mas de olhar expressivo. ‘Seus olhos’, diria mais tarde o poeta Paulo Bomfim, ‘tinham uma magia, viviam impregnados de viagens… Esse olhar me fascinava, porque ela parecia estar sempre querendo ir mais além’”, escreve Lucita Briza, em sua biografia de Ada Rogato.
Vida de glórias, glórias na morte
Foi uma vida de aventuras e glórias. Após a morte de sua mãe, em 1974, sempre solitária viveu. Quando descobriu que estava acometida de um câncer, nos anos de 1980, preferiu continuar sozinha no apartamento. Mas o câncer já havia se espalhado e, ciente da gravidade do caso, a amiga Neide, com alguma resistência de Ada, avisou aos parentes mais próximos. A prima Ângela e a Drª Flávia, sua meia-irmã, que veio, de imediato, de Maceió para vê-la no hospital.
Só na segunda visita da meia-irmã que puderam conversar. Flávia então perguntou se Ada havia recebido as cartas que, durante anos seguidos, ela lhe havia enviado. E Ada respondeu que sim “e, nesse dia, ela me pediu perdão pelo seu modo de agir”, lembrou Flávia, que permaneceu em São Paulo até a morte de Ada. Ela morreu nos braços da prima Ângela, em 15 de novembro de 1986.
No velório da aviadora, no dia seguinte, no Museu da Aeronáutica, ao lado do seu tão querido “Brasil”, Ada foi velada por amigos e autoridades, sob as luzes de flashes e câmeras de televisão.
A caminho do cemitério, uma comitiva, tendo à frente o carro de bombeiros, enviado pelo governador Franco Montoro, acompanhada no ar pelos Tucanos da Esquadrilha da Fumaça, que faziam passagens baixas sobre os carros. Quando o corpo da pioneira baixou à sepultura, no lugar que escolheu para repousar, ao lado da mãe, um pequeno avião aproximou-se voando baixo, lançando pétalas de rosa sobre o caixão e, nos céus, escreveram “Adeus, Pássaro Solitário” os aviões da esquadrilha, enquanto o “teco-teco” se afastava aos poucos, até desaparecer.
Sobre alguns grandes feitos
- a primeira piloto de planador da América do Sul e, como piloto de avião, a terceira do Brasil;
- a primeira brasileira a tirar brevê de paraquedista e a primeira do mundo a dar um salto noturno de paraquedas, nas águas da Baía de Guanabara;
- a primeira piloto agrícola do país a polvilhar, com inseticida, lavouras atingidas pela broca do café; e
- a estrela de dezenas de shows aéreos que atraíram milhares de pessoas por todo o país nos anos 1940, quando, com seus voos acrobáticos e saltos de paraquedas, ajudou a promover a fundação de dezenas de aeroclubes.
- A primeira piloto brasileira a atravessar os Andes.

Não satisfeita, a aventureira iria ainda muito mais longe, numa série de reides. Seguem alguns:
- Durante a Segunda Guerra Mundial, realizou voluntariamente 213 vôos de patrulhamento aéreo do litoral paulista.
- Em 1948, no combate aéreo à broca do café – praga que ameaçava as plantações do principal produto de exportação na época -, ela aceitou o desafio de cumprir a tarefa que a transformou em pioneira do polvilhamento aéreo no Brasil.
- o Sul-Americano em 1950, passando por Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai, tornando-se, assim, a primeira brasileira a cruzar os Andes, pilotando um Paulistinha CAP-4 de apenas 65 HP, totalizando 11.200 km em 116 horas de voo solitário;
- o circuito pelas Três Américas em 1951, quando, sem possuir instrumentos para “voo cego” e a bordo de seu novo avião – o “Brasil”, um Cessna 140-A de 90 HP – , passou por todos os países (exceto a Bolívia) e territórios americanos, indo até o Círculo Polar Ártico, no Alasca (EUA). Com esse voo solitário, bateu o recorde mundial de maior distância (51.064 km) percorrida em avião de pequeno porte;
- o Brasil-Bolívia, em 1952, quando, sozinha e, com o mesmo Cessna, atingiu o aeroporto de El Alto (La Paz, Bolívia), o mais alto do mundo, a 4.071 metros de altitude. Até então, nenhum piloto – homem ou mulher – tentara aterrar ou decolar de El Alto com avião de tão pequena potência;
- o circuito pelo Brasil, em 1956, no chamado Ano Santos-Dumont (50º aniversário do 1º voo com o 14-bis), realizou um reide por todo o território nacional (25.057 km em 163 horas de voo), incluindo o Brasil Central, sobrevoando trechos ainda não explorados do então chamado “inferno verde”, como o Xingu-Cachimbo-Jacareacanga, tornando-se o primeiro piloto a voar sobre a selva amazônica num pequeno avião e sem rádio;
- e, finalmente, em 1960, o reide a Terra do Fogo, indo de Piracicaba (SP) até Ushuaia, na Argentina – a cidade mais austral do mundo, sendo a primeira a chegar lá pilotando. Nesse reide, sempre sozinha a bordo do mesmo “Brasil”, voou 12.800 km, em 82 horas e 43 minutos.
Um Livro
Acesse o opúsculo ‘Ada Rogato – Um Pássaro Solitário’, escrito pela jornalista Lucita Briza.































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Parabéns pela excelente matéria, muito importante esse resgate da história.