terça-feira, 1 de setembro de 2026 – 01h12

‘Anvisa, faça a polilaminina andar’, apela Tiba Camargos, para acesso à substância

Descoberta científica brasileira tem sido usada de forma experimental para regeneração de conexões nervosas
Tiba Camargos, junto à esposa, Déa, e seus seis filhos - Foto: Reprodução/Instagram

O influenciador católico, Tiba Camargos, iniciou uma mobilização pública, solicitando à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a autorização para receber a polilaminina durante nova cirurgia na medula espinhal. 

Tetraplégico desde fevereiro de 2025, ele afirma que a intervenção cirúrgica pode representar uma oportunidade para tentar o tratamento experimental. A família já havia recorrido duas vezes à Justiça, em busca da autorização para o uso compassivo da substância, mas os pedidos anteriores foram indeferidos. 

Tiba sofreu uma grave lesão medular, após mergulhar em um rio, na tentativa de salvar um dos seus seis filhos. Desde então, passou por tratamento e reabilitação, mas permanece com importantes limitações motoras. 

Segundo a família, a nova cirurgia – para a retirada de cistos na área lesionada – exigirá a abertura da região da medula, criando uma outra lesão aguda, situação que poderá gerar a oportunidade para a aplicação da substância.

“É a minha única chance”, afirmou Tiba, no apelo publicado nas redes sociais, no qual pediu apoio à Anvisa e ao Ministério da Saúde. A publicação feita no domingo (30) alcançou mais de 100 mil curtidas e gerou mobilização de seguidores.

Entre os pontos questionados para a utilização da substância, estão a janela de até 72 horas após o trauma e a restrição a determinados tipos de lesão.

“Quem definiu esses critérios? Em qual documento? Porque não existe resolução, ou ato normativo que imponha essas restrições. Eles contraiam a própria essência da resolução do uso compassivo”, contestou Déa Camargos, esposa de Tiba.

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 38/2013, da Anvisa, estabelece regras para o uso compassivo de medicamentos ainda não registrados no país. 

“Antes desses critérios, existia um caminho previsto em norma da própria Anvisa desde 2013, o uso compassivo. Quando não há alternativas, um médico prescreve, o paciente consente e, por esse caminho, segundo a equipe do projeto, a janela chegou a ser de 90 dias, não 72 horas”, afirmou Déa.

Segundo o Laboratório Cristália, há relatos de melhora em pacientes tratados fora da janela de 72 horas, mas ainda não existem evidências que comprovem a segurança e a eficácia da substância em pessoas com lesões medulares crônicas. 

Um parecer técnico, produzido no âmbito do Poder Judiciário, em 2026, relacionado a uma ação judicial, envolvendo o acesso à polilaminina, afirma que, para traumas com mais de 90 dias, ainda estão sendo realizados estudos experimentais em animais, para posterior utilização em seres humanos.

Em janeiro deste ano, a autarquia autorizou o início da fase 1 do estudo clínico. A etapa tem como objetivo principal avaliar a segurança da substância e prevê a participação de cinco pacientes com lesão medular torácica completa, entre T2 e T10, ocorrida há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.

Tiba tem uma lesão cervical crônica, enquanto o estudo de fase 1 se destina a lesões torácicas agudas e completas, o que faria com que o caso dele não se enquadrasse no protocolo atualmente aprovado.

Déa chama atenção para os procedimentos anteriores ao início da fase 1, por meio do uso compassivo. “Houve pacientes atendidos com quatro, cinco meses de lesão, um deles até com sete meses por decisão judical. Foram mais de 60 aplicações compassivas, num universo de mais de 100 casos acompanhados”, informou.

“A equipe médica relata zero efeitos colaterais atribuídos à substância. Na reavaliação, feita seis meses depois, 75 a 80% dos pacientes avançaram pelo mesno dois graus na escala da lesão”, complementou.

A autorização é analisada individualmente e envolve avaliação de riscos e possíveis benefícios do tratamento. Enquanto aguarda resposta, Tiba segue mobilizando seguidores e autoridades para ter acesso à substância antes da nova cirurgia. 

“Anvisa, faça a polilaminina andar. Avalie o caso do Tiba e abra a pesquisa para outros pacientes”, exaltou o influente.

A Polilaminina

A polilaminina é uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína encontrada naturalmente no organismo e presente na placenta humana. A substância, quando aplicada diretamente na região medular lesionada, pode favorecer a regeneração das conexões nervosas.

A pesquisa é conduzida pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. 

Em 2021, a universidade firmou uma  parceria com o Laboratório Cristália para viabilizar o desenvolvimento e a produção da polilaminina em escala.

Tatiana começou a estudar a laminina ainda na década de 1990. Ao longo de quase três décadas, sua equipe realizou pesquisas em células, ratos, cães e, posteriormente, em pacientes com lesões medulares. 

Nos primeiros estudos em humanos, oito pacientes com lesões medulares completas receberam a substância. Seis deles apresentaram algum grau de melhora neurológica, segundo resultados publicados em artigo científico. 

Os pesquisadores ressaltam que o estudo foi pequeno e não permite concluir que as recuperações tenham sido causadas exclusivamente pela polilaminina.

Um dos casos mais conhecidos é o de Bruno Drummond de Freitas. Após sofrer um grave acidente de trânsito e ficar tetraplégico, ele recebeu a polilaminina cerca de 24 horas depois do trauma. Com a reabilitação, recuperou os movimentos e voltou a andar, levando atualmente uma vida independente.

Outro caso relatado é o de Hawanna Cruz Ribeiro, que sofreu uma queda do terceiro andar de um prédio, em 2017, quando tinha 19 anos, ficando tetraplégica.

Ela recebeu a substância em 2020 e, apesar das limitações para realizar fisioterapia intensiva, recuperou autonomia nas atividades cotidianas e, posteriormente, tornou-se atleta paralímpica de rugby em cadeira de rodas.

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