sexta-feira, 5 de junho de 2026 – 15h44

Brasil atinge pior colocação no Índice de Percepção da Corrupção na série histórica

IPC avalia 180 países e atribui notas entre 0 e 100; CGU questiona metodologia
Foto: RacoolStudio/Freepik

O Brasil regrediu e ocupa a 107ª posição no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional, em 2024. A pior colocação na série histórica, iniciada em 2012, aplicada em 180 países do mundo. A pesquisa conta com dados oriundos de diferentes fontes, que trazem a percepção de acadêmicos, juristas, empresários e outros especialistas sobre o nível de corrupção no setor público de cada país analisado. Em nota, a Controladoria-Geral da União questiona a metodologia do IPC. Leia na íntegra abaixo.

Comparado ao ano anterior, a atual colocação do país representa uma queda de dois pontos e três posições. Em relação às melhores pontuações na série histórica, nos anos de 2012 e 2014, a redução foi de nove pontos e 38 posições. Há dez anos, o país estava empatado com Bulgária, Grécia, Itália, Romênia, Senegal e Essuatíni (antiga Suazilândia). Hoje o Brasil encontra-se em situação de empate com Argélia, Malawi, Nepal, Níger, Tailândia e Turquia.

Produzido desde 1995, o IPC atribui notas entre 0 e 100, enfatizando a percepção de integridade do país. No ano passado, o Brasil obteve 34 pontos na avaliação. “A presença cada vez maior e explícita do crime organizado nas instituições estatais” mostra o “avanço do processo de captura do Estado pela corrupção”, disse o diretor-executivo da Transparência Internacional-Brasil, Bruno Brandão.

“Houve um grande impulso anticorrupção na última década, com a Operação Lava-Jato, mas o país falhou em dois aspectos cruciais: ao invés de corrigir os erros dessa operação histórica, liquidou-a por completo e, ainda mais importante, falhou em olhar para as raízes sistêmicas do problema e avançar com reformas,” avalia Brandão. “A corrupção contra-atacou de maneira avassaladora e hoje, do ponto de vista legal e institucional, estamos piores do que antes da Lava-Jato”, concluiu.

Segundo o documento, destacam-se como fatores negativos o “silêncio reiterado do presidente Lula sobre a pauta anticorrupção”; a “institucionalização da corrupção em larga escala com a persistência, agigantamento e descontrole das emendas orçamentárias, em franca insubordinação às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF)”; e a “aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Anistia”.

Entre os mais bem colocados no IPC da corrupção, em 2024, estão Dinamarca (90 pontos), Finlândia (88), Cingapura (84), Nova Zelândia (83). Empatados, com 81 pontos, encontram-se Luxemburgo, Noruega e Suíça. Os países avaliados com piores índice foram Sudão do Sul (8), Somália (9), Venezuela (10) e Síria (12). Na mesma colocação, com 13 pontos, estão Guiné Equatorial, Eritréia, Líbia e Iêmen.

As Américas

Nosso vizinho Uruguai foi o país com a melhor pontuação nas Américas, com 76 pontos, ocupando a 13ª posição no ranking mundial. Já a Venezuela amargou a antepenúltima posição, com 10 pontos. A Argentina e a Colômbia aparecem próximas do Brasil, com 37 e 39 pontos, respectivamente, mas abaixo da média dos países das Américas (42 pontos) e da média global (43 pontos) do ano passado.

Seguindo o Uruguai, entre os países americanos, o Canadá ocupa a 15º posição, com 75 pontos, Barbados em 23º, com 68 pontos, e empatados com a mesma pontuação os Estados Unidos e Bahamas, em 28º lugar, com 65 pontos. O Brasil, com a pontuação atual, de 34 pontos, encosta na média dos países tidos como não democráticos, que é de 33 pontos, baseado em avaliação da Economist Intelligence Unit.

“É muito mais relevante nós darmos atenção à série histórica e ao fato de estarmos na pontuação mais baixa em toda a série histórica, do que a variação de um ano para o outro. É a isso que devemos dar atenção, porque é grave e tem que ser recebido com um grande alarme pela sociedade. Porque precisamos reverter essa trajetória, porque a cada ano que passa, ela fica mais difícil de ser revertida”, concluiu Brandão.

Países com maior pontuação

Dinamarca (90 pontos – estável)
Finlândia (88 pontos – subiu um ponto)
Cingapura (84 pontos – subiu um ponto)
Nova Zelândia (83 pontos – caiu um ponto)
Luxemburgo (81 pontos – caiu três pontos)
Noruega (81 pontos – caiu três pontos)
Suíça (81 pontos – caiu um ponto)

Países com menor pontuação

Guiné Equatorial (13 pontos – caiu quatro pontos)
Eritréia (13 pontos – caiu oito pontos)
Líbia (13 pontos – caiu cinco pontos)
Iêmen (13 pontos – caiu três pontos)
Síria (12 pontos – caiu um ponto)
Venezuela (10 pontos – caiu três pontos)
Somália (9 pontos – caiu dois pontos)
Sudão do Sul (8 pontos – caiu cinco pontos)

*Fonte de dados Transparência Internacional


Nota da Controladoria-Geral da União
sobre o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional

A Controladoria-Geral da União (CGU) reforça seu compromisso com a transparência e o combate à corrupção. Por isso, alerta para limitações metodológicas do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), da Transparência Internacional (TI). O IPC mede percepção, não a ocorrência real de corrupção, e seu próprio relatório recomenda cautela na interpretação dos resultados, especialmente em relação a variações (“sutis” ou “estatisticamente irrelevantes”) da pontuação.

Os países que combatem corrupção podem ser penalizados no IPC, uma vez que a exposição de casos e investigações impacta negativamente a percepção sobre o problema. O combate à corrupção não pode ser tratado como um fator negativo para a avaliação de um país.

O uso do IPC para embasar debates públicos pode levar a distorções, alimentando narrativas que minam a confiança nas instituições democráticas. O índice se baseia em pesquisas com grupos específicos, como empresários, e não representa a percepção geral da população. Além disso, vários eventos mencionados no relatório como fatores negativos para o Brasil ocorreram após o período de coleta de dados do índice, o que compromete a coerência da análise.

Por outro lado, avanços concretos não são devidamente reconhecidos. O Brasil ampliou sua transparência com melhorias no Portal da Transparência, avançou na rastreabilidade de emendas parlamentares e lançou o Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025-2027, com 260 ações estratégicas. Além disso, a CGU bateu recorde de operações contra a corrupção em 2024, totalizando 47 ações.

O Brasil também retoma protagonismo internacional na transparência, sendo sede da COP 30 e fortalecendo sua participação na Parceria para Governo Aberto (OGP). Esses avanços refletem um compromisso sólido com governança democrática, algo que o IPC não mede de forma adequada.

A CGU segue firme em sua missão de garantir uma gestão pública transparente e reafirma a necessidade de um debate mais técnico e fundamentado sobre os métodos de avaliação da corrupção no Brasil e no mundo.”

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