sexta-feira, 26 de junho de 2026 – 21h45

Burnout: o esgotamento que pesa na Previdência

Todo Direito
Foto: MuntazarMansory/Pixabay

Burnout: o esgotamento que pesa na Previdência

Os afastamentos por burnout — a síndrome do esgotamento profissional — deixaram de ser um problema restrito ao ambiente corporativo e passaram a pressionar de forma concreta as contas da Previdência Social. Dados do Ministério da Previdência revelam que os auxílios-doença concedidos por esgotamento no trabalho e falta de descanso cresceram quase seis vezes entre 2021 e 2024. Em números absolutos, os benefícios saltaram de pouco mais de 800 para quase 5 mil concessões no período, um aumento de 493%.

A curva ascendente não deu sinais de arrefecimento. Em 2025, apenas no primeiro semestre, foram registrados 3.494 afastamentos por burnout — o equivalente a mais de 70% de todo o volume observado em 2024. O ritmo indica aceleração do fenômeno e reforça a expectativa, entre técnicos do governo, de que 2026 trará um novo recorde de concessões.

Especialistas alertam, contudo, que os dados oficiais não capturam toda a dimensão do problema. O burnout é um transtorno de diagnóstico complexo, frequentemente associado a quadros de depressão e ansiedade, o que dificulta sua identificação como causa principal do afastamento. Além disso, milhões de trabalhadores informais, que não contribuem para o INSS, ficam fora das estatísticas, o que sugere subnotificação relevante.

O avanço do burnout ocorre dentro de um cenário mais amplo de deterioração da saúde mental no mercado de trabalho. Em 2024, quase meio milhão de auxílios-doença concedidos pelo INSS tiveram como causa transtornos mentais, como depressão, ansiedade e síndromes relacionadas ao estresse — um salto expressivo em relação ao ano anterior. Em 2025, até junho, esse tipo de adoecimento já respondia por mais de 270 mil afastamentos, o que representa aproximadamente um em cada sete benefícios concedidos no período.

Tradicionalmente, problemas osteomusculares lideravam as estatísticas de afastamento. Hoje, os transtornos mentais se aproximam desse patamar, alterando o perfil histórico da Previdência. O impacto financeiro acompanha a mudança: as despesas com auxílio-doença cresceram mais de 60% entre 2022 e 2024, ritmo muito superior ao aumento das despesas totais do sistema previdenciário no mesmo intervalo.

Esse descompasso acendeu um sinal de alerta no governo ainda durante a transição presidencial de 2022, quando estudos internos já apontavam os efeitos prolongados da pandemia de Covid-19 sobre o equilíbrio emocional dos trabalhadores. O isolamento social, a insegurança econômica e a reorganização abrupta das rotinas de trabalho deixaram marcas duradouras.

Entre os fatores estruturais associados ao aumento do burnout estão a expansão do home office sem limites claros de jornada, o prolongamento do tempo de conexão digital, a intensificação da informalidade e o avanço da chamada “uberização” das relações de trabalho. Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) vêm alertando que ambientes laborais marcados por metas inalcançáveis, baixa autonomia e ausência de pausas elevam significativamente o risco de adoecimento mental.

No campo normativo, houve avanços. Em 2023, o Ministério da Saúde reforçou o enquadramento do burnout como doença ocupacional, garantindo aos trabalhadores o direito ao auxílio-doença acidentário, que assegura estabilidade no emprego após o retorno. Em 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego passou a exigir que empresas mapeiem riscos psicossociais em seus ambientes.

A aplicação de multas, no entanto, foi adiada após pressão do setor empresarial e está prevista apenas para maio de 2026. Até lá, o custo do adoecimento mental segue sendo absorvido majoritariamente pela Previdência e pelos próprios trabalhadores.

Mais do que um problema médico, o burnout tornou-se um indicador de desequilíbrios profundos no mundo do trabalho. Ignorá-lo não apenas compromete a saúde de milhões de pessoas, como também impõe uma conta crescente a um sistema previdenciário já pressionado — uma equação que, se nada mudar, tende a se agravar nos próximos anos.

Contatos:

WhatsApp: (82) 99335-9596

E-mail[email protected]

Instagram: @karlamontoni.advogada

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Também
Leia Também