sexta-feira, 26 de junho de 2026 – 21h49

Setembro Amarelo: Não há saúde mental sem justiça social

Todo Direito
Foto: Freepik

Todo mês de setembro, o Brasil se pinta de amarelo em uma importante campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. O Setembro Amarelo nos lembra da urgência de cuidarmos da saúde mental — nossa e de quem está ao nosso redor. Mas é preciso ir além dos muros dos consultórios e das campanhas de incentivo à procura por ajuda. Porque, afinal, não há saúde mental possível em uma sociedade doente de desigualdade.

Falar de suicídio é falar também de invisibilidades. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. No Brasil, o número ultrapassa 14 mil mortes por ano, o equivalente a uma pessoa a cada 37 minutos. Mas esses números não atingem todos da mesma forma. Eles têm cor, classe, gênero e endereço.

O suicídio afeta de maneira desproporcional as populações mais vulnerabilizadas: jovens negros, moradores de periferias, indígenas, população LGBTQIAPN+, trabalhadores precarizados. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade por suicídio entre jovens negros cresceu 12% na última década, enquanto entre jovens brancos caiu 5%. Isso não é coincidência, é reflexo de um sistema excludente.

Saúde mental não é luxo, é direito

Ainda que o acompanhamento psicológico e psiquiátrico seja essencial, ele sozinho não dá conta do problema. Não adianta dizer “procure ajuda” se essa ajuda é inacessível. Não adianta pedir para alguém “cuidar da mente” se a realidade ao redor está insuportável. Como cuidar da saúde mental enfrentando o desemprego, a fome, o racismo, o esgoto a céu aberto, a violência policial e a ausência do Estado?

É impossível separar saúde mental de condições de vida dignas.

Por isso, é preciso dizer: prevenir o suicídio passa, também, por garantir moradia digna, saneamento básico, trabalho justo com jornada equilibrada e direitos trabalhistas respeitados, alimentação saudável e suficiente, acesso à saúde e à educação públicas de qualidade, cultura e lazer como direito e não privilégio. Não são “coisas diferentes” do cuidado emocional. São parte dele.

Um país que precisa cuidar da saúde mental no trabalho 

Segundo o Ministério da Previdência Social, somente em 2024 foram registrados 472 mil afastamentos por transtornos mentais. Isso representa um aumento de 68% em relação ao ano anterior e um marco na série histórica dos últimos 10 anos.

Os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) demonstram que a maioria dos afastamentos foram de mulheres (64%), com idade média de 41 anos, com quadros de ansiedade e de depressão e que ficaram afastadas do trabalho por até três meses.

 Violências que adoece(m)

Outro ponto fundamental na discussão é o bullying e as diversas formas de violência simbólica e física. No ambiente escolar, no trabalho, nas redes sociais e até dentro de casa, milhares de pessoas são expostas diariamente a práticas de exclusão, humilhação, racismo, LGBTfobia e machismo. Isso adoece. Isso mata.

Especialmente entre adolescentes, o bullying é um fator de risco grave. Segundo o IBGE (2019), cerca de 40% dos estudantes brasileiros relataram já ter sofrido bullying — e aqueles que sofrem são mais propensos a apresentar sintomas de depressão, ansiedade e ideação suicida.

Falar é preciso. Agir é urgente.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre dor, sobre sofrimento e sobre vida. Mas falar por si só não basta. Precisamos escutar com empatia, cuidar com responsabilidade e, acima de tudo, lutar por transformações estruturais. Porque prevenir o suicídio não é apenas dever da psicologia, da medicina ou dos serviços de saúde. É dever da sociedade como um todo.

Não basta cuidar do indivíduo. É preciso cuidar do coletivo.

Afinal, saúde mental não é só ausência de transtornos. É presença de dignidade.

Precisa de ajuda?

O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta um serviço gratuito voltado ao apoio emocional de forma geral, antes que o suicídio seja uma possibilidade.  Os contatos com o CVV podem ser feitos pelo telefone 188, que funciona todos os dias por 24 horas, ou via chat ou e-mail, acessando o site  www.cvv.org.br.

Contatos:

WhatsApp: (82) 99335-9596

E-mail[email protected]

Instagram: @karlamontoni.advogada

 

Uma resposta

  1. Acho muito importante divulgar o CVV, acesso ao apoio de forma simples e gratuita.
    Parabéns pela matéria, trazendo a urgência do assunto para o coletivo e o individual.

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