sexta-feira, 26 de junho de 2026 – 21h27

Foto: Roberto C Farias

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Terminologia arcaica descreve o papiro, couro ou pergaminho cujos escritos grafados primordiais foram raspados e eliminados, para oferecer lugar a novel escrito. Promovendo assim um outro reúso.

Foto: Roberto C Farias

“Só eu sei,
As esquinas por que passei
Só eu sei, só eu sei.
Sabe lá o que é não ter, e ter que ter pra dar.
Sabe lá” nossa conversa, estimados leitores, pega carona nos versos consagrados do conterrâneo e contemporâneo Djavan, Alagoano de boa cepa, músico de universal reconhecimento, cuja poesia e musicalidade é motivo de orgulho e redobrado regozijo. E tantas são as esquinas que dobramos neste nosso perambular existencial. Mesmo não trocando caminho por arrudeio; viramos para um lado ou para outro lado. Agora em nossa arquigrafia, somos instigados, navegadores urbaNAUTAS, na observação de construções no Centro que estão situadas exatamente nas esquinas.

Foto: Roberto C Farias

Curioso aspecto este, cuja localização permite servir de igual modo em harmônica simetria a duas ruas. Ensejando laborioso trabalho dos projetistas (hoje com o registro de seus nomes apagados pelo tempo) em atender a composição com a curvatura ideal, matando a quina viva, para ceder com elegância o espaço da justa travessia decantada pelo poeta de berço maceioense (ou maceyorquino, dada sua cosmopolita e atuante agenda?), que no dizer: – “Só eu sei.” Fala por todos pois a peleja nossa de cada dia, é de cada um o cumprimento e o lamento curtido no modo particular e também coletivo. Sentimos todos as nossas dores. As dores do outro. As dores do mundo. É o instinto da solidariedade atávico tatuado em todas as formas, semblantes, silhuetas e gestuais que resiliente busca o manifesto, senão a veiculação. Ricos de nós, rimos de nós mesmos.

Foto: Roberto C Farias

Essas construções assobradadas e de boa concepção, fruto de nossa identidade e herança coloniais, cuja opacidade e implantação apresenta a quase totalidade da inexistência de recuos, dialogam entre si nos cruzamentos das vias e seu entorno. Totalizando uma gentileza ao suavizar com o trecho de senóide o formato de cruz e a interseção das ruas. Muito interessante anotar.

Foto: Roberto C Farias

Elegantes em sacadas de contemplação, essas aerodinâmicas edificações nos parecem procurar dizer que dividem dando-nos uma oferta de ar, de luz e notadamente a visibilidade que captam as atenções.

Foto: Roberto C Farias

E diante do que já se escreveu, surge a imperiosa e perturbadora necessidade voluptuosa de se apagar o escrito anterior para compor uma outra forma de comunicação, talvez pretensiosa, talvez colossal posto que o se agigantar seria o sobressair. Talvez. O certo é que esses pergaminhos de plástico são, graças a Providência Divina, removíveis. Provisórios. Passíveis de proporcionar a recomposição do original. Seria para nós urbaNAUTAS uma recompensa ao nosso deambular prescrutador?

Foto: Roberto C Farias

Tiremos as máscaras. Lancemos abaixo os adereços, apaguemos a soberba. Vamos conviver com a verdade dos materiais, com a pureza do instante original. Com o nosso castiço. Com a nossa fala. Com o jeito nosso de ser. Nosso sotaque arquitetônico. Nosso idioma criativo nativo. Para que as influências nossas sejam recriadas no sentido apenas da ampliação do nosso repertório.

Foto: Roberto C Farias

Se até o que veio depois, pleno de marquises defensoras da insolação e promotoras da despassivação térmica, consegue incorporar a formatação legada com sabedoria de modo que, reescrever com uma pitada de mimetismo torna melhor a leitura das épocas a conviver respeitosamente enquanto o antigo e o moderno objetivam as mesmas finalidades em arquitetura: servir e durar.

Foto: Roberto C Farias

“A nave em breve ao vento vaga de leve e traz”, então Djavan novamente nos inspira nos movimentos do ir e vir, nas ondas que podem fluir e refluir sem medos ou ansiedades. Formidáveis e inexoráveis como só o tempo sabe ser. E o homem por não saber lidar, tenta aprisionar em modismos, embora passageiros, para se tentar a sensação de possuir.

Foto: Roberto C Farias

Aqui, tudo gira se movimentando; o relógio compassando seus ponteiros; o ventilador soprando pelo seu cata-vento; as rodas dos inúmeros e dos numerosos veículos; as notícias que se alternam em altercações; as ideias que avançam em espirais de projetos; a circulação de mercadorias; os espasmos peristálticos da digestão; a deglutição de valores e costumes; tudo gira gira. Gira mundo bamboleando nessa roleta, girando na carrapeta, nas orbitais de um velho jogo de improvisar.

Maceió das Alagoas,
terça feira, 24 de outubro de 2023

RCF
Texto e fotos

Respostas de 7

  1. Replicando comentário recebido no whatsapp:

    Parabéns Nobre Roberto Farias pelas belas e imponentes imagens desses sobrados históricos detalhando a Arquitetura da época de ouro da Arquitetura, com esse texto reflexivo dialogando com Djavaniar na canção do internacional Djavan, citada pra mostrar essas Esquinas Exuberantes que a modernidade tenta esconder, mas que algumas ainda resistem para que a memória urbana não seja apagada e enterrada. E já que você tão bem casou a música de Djavan com as Esquinas onde passei, finalizo meu comentário com a música de outro grande compositor e músico da terra Eliezer Setton: “Não há quem não morra de Amores pelo meu lugar”. Parabéns pela Matéria. 👍👏👏

    Sérgio Moraes

  2. Obrigado, Eduardo, por captar na essência o que as entrelinhas revelam. Glórias ao Altíssimo!
    São as esquinas as maiores promotoras espaciais do encontro!
    Nosso abraço fraterno.

  3. Como já dizia nosso conterrâneo… Sabe-se lá o que é não ter… E ter que ter pra dar!!!!!! Bela expressão… divina… É só nos remetermos ao Salmo 118:22, onde o salmista explica. A IMPORTÂNCIA DA PEDRA ANGULAR. A pedra que por todos foi rejeitada… mas que é a principal… que ironia… DEUS é bom o tempo todo. Que sigamos seus caminhos sem medo… pois nessas esquinas metafóricas lá está Ele, mostrando Sua importância, Sua imponência, Sua Onipresença… Hoje o colunista nos mostra, mesmo que em nossa incapacidade de discernir, assim diria, nosso DEUS… Que Ele seja louvado para sempre🙌🙌

  4. Parabéns Nobre Roberto Farias pelas belas e imponentes imagens desses sobrados históricos detalhando a Arquitetura da época de ouro da Arquitetura, com esse texto reflexivo dialogando com Djavaniar na canção do internacional Djavan, citada pra mostrar essas Esquinas Exuberantes que a modernidade tenta esconder, mas que algumas ainda resistem para que a memória urbana não seja apagada e enterrada. E já que você tão bem casou a música de Djavan com as Esquinas onde passei, finalizo meu comentário com a música de outro grande compositor e músico da terra Eliezer Setton: “Não há quem não morra de Amores pelo meu lugar”. Parabéns pela Matéria. 👍👏👏

    Sérgio Moraes

    1. Amparados pela vossa fala, tentemos levar nossos valores mais caros, adiante. Moraes, agradeço o zeloso comentário.
      Forte abraço.

  5. Parabéns Roberto Faria pelas Exuberantes imagens desses sobrados históricos com um texto reflexivo dialogando com Djavaniar na canção do Ilustre Djavan nas esquinas onde passou, citada pra mostrar essas Esquinas com suas fachadas que nos faz viajar no tempo e que a modernidade tenta esconder, mas que algumas ainda resistem para que a memória urbana não seja apagada e enterrada. Parabéns pela Matéria. 👍👏👏

    Nessas Esquinas do vai e vem do comércio
    Tem olhares valorosos e muitos olhares néscios para essa esplendorosa arquitetura.

    Sérgio Moraes
    PILAR-AL

    1. Obrigado, Nobre Sérgio! Pelo congraçamento das ideias e ideais protecionistas de nosso Patrimônio Histórico, em Maceió e no Pilar. Somos Das Alagoas!
      Fraterno abraço.

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