Alagoas é simplesmente um concerto musical do olimpo. Vivos ou mortos, a lista de ouro da batuta alagoana diante dos palcos do mundo é notável e inclui maestros como Heckel Tavares, Octaviano Romero Monteiro, o maestro Fon-Fon, Florentino Dias, Hermeto Pascoal, Almir Medeiros, os solistas Selma Brito e Joel Bello Soares, e os maestros do povo, das filarmônicas municipais, representados por dois regentes de Marechal Deodoro: José Canário, da filarmônica Santa Cecília, e José Cícero da Silva, o “criador” do Esquenta Mulher.
Ao longo da série “Divinos maestros alagoanos”, o Notícias do Centro vai mostrar um pouco da vida e obra de cada um deles. Um perfil para que se conheça mais a música erudita e popular de Alagoas, e as histórias desses ilustres músicos. Grande parte deles partiu cedo de Maceió, de Santa Luzia do Norte, de Traipu, de Marechal Deodoro para reger e fundar sinfônicas, escrever musicais incríveis, como a popular peça Suçuarana, de Heckel Tavares, ou a incrível performance do “bruxo” de Lagoa da Canoa, Hermeto Pascoal, que nos últimos dois anos conquistou o Grammy e foi eleito doutor honoris causa por universidades dos Estados Unidos e Inglaterra.
Porém, o prelúdio da série vem com a melhor história, ou uma das melhores, a do regente internacional Octaviano Romero Monteiro (1908-1951), o maestro Fon-Fon, filho ilustre de Santa Luzia do Norte, que desde os 10 anos já tocava numa banda de pífanos na beirada da lagoa Mundaú. Saiu de Alagoas ainda adolescente para se tornar uma celebridade como regente, arranjador, instrumentista e compositor.
Em 1935, criou sua própria orquestra, para atuar no Cassino Assyrio, no Rio de Janeiro. Foi o primeiro maestro no Brasil a utilizar naipes de saxofones e metais, dando à sua orquestra uma sonoridade especial. Em 1942, acompanhou com sua orquestra, na Odeon, Ataulfo Alves e sua Academia, na gravação do clássico samba “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago.

A partir daí, dirigiu e acompanhou grandes nomes da música popular brasileira, como Carmem Miranda, Francisco Alves, Dircinha Batista, Moreira da Silva, Almirante, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Orlando Silva e Aracy de Almeida.
“Lá no povoado do Quilombo, tinha uma banda de pífanos, que tocava nas ruas de Santa Luzia. Pífano é um instrumento de sopro, artesanal; feito de madeira e que tem um som muito bonito, dá um agudo que não se consegue tirar em outro instrumento. Essa banda de pífanos, pertencia a uma família chamada Mugumba. Eu ficava admirado olhando eles tocarem. De tanto acompanhar a banda, um dia deram-me um pífano para eu tirar uma música. Daí pra frente, não parei nunca mais. Não fosse aquele gesto, eu não estaria hoje aqui na Europa”, disse o maestro Fon-Fon, em entrevista ao jornal O Globo, reproduzida do artigo O alagoano que encantou o Brasil e a Europa, do ator e dramaturgo alagoano, Chico de Assis, sobrinho do grande maestro.
SAUDADES DAS ALAGOAS
Durante os últimos anos na Europa, no final do ano 1950, o maestro Fon-Fon enviou uma série de cartas para a família, uma delas para a irmã, Vicentina Romeiro, em que fala da saudade de sua terra e de suas apresentações nos palcos europeus:
“Vicentina, primeiro que tudo espero encontrá-la bem de saúde. Hoje tive uma emoção sem igual. No show aqui em Madri tocamos a música Touradas em Madri do Braguinha. Foi lindo! os espanhóis adoraram. Só não encontrei uma espanhola natural da Catalunha. Estou morrendo de saudades de vocês e de comer um sururu de capote aí em Santa Luzia.”
Em dezembro de 1950, Fon-Fon envia uma carta ao seu pai, Amaro Romeiro, descrevendo os momentos vividos na Europa. A carta foi escrita após o Natal.
“Meu Pai. Não podia deixar de lhe comunicar a minha última parada. No momento encontro-me na Grécia, onde todos os costumes são diversos de toda Europa. Deixei de lhe escrever estes meses, porque não me demorei em nenhum país, mais um mês, de modo que espero demorar no mínimo três meses neste belo país. Pretendo seguir depois para o Brasil. Já me encontro cansado de todos os dias a mesma luta e sem esperança de mais nada. Conheço toda Europa, elevei a música do nosso país. Fiz a música brasileira ser conhecida, embora monetariamente não me tenha dado resultado. Porém estou contente com o que Deus me deu. Aqui deixo o meu abraço a todos da nossa família, desejando um ano cheio de felicidades e próspero 1951. Minha benção e que Deus os guarde. Otaviano Romeiro.”
Reproduzida do artigo O alagoano que encantou o Brasil e a Europa, por Chico de Assis, no portal maestrofonfon.blogspot.com.br
Octaviano Romero Monteiro, maestro Fon-Fon, morreu de forma dramática, aos 43 anos de idade, em sua última turnê, antes de voltar ao Brasil, em agosto de 1951, na capital grega, Atenas, no momento em que regia sua orquestra durante uma apresentação.
Na viagem, eles gravaram seu único elepê pelo selo London: “Fon-Fon et sa Musique du Bresil”, nunca editado no Brasil. O inventário musical do maestro foi todo composto em long-plays de cera e em 78 rpm. Quando realizou a turnê pela Europa, de 1947 a 1951, gravou, na Inglaterra, um LP de 10 polegadas e, na França, alguns de 78 rpm pela Odeon Francesa.
Discografia do Maestro Fon-Fon
No Brasil
(1932) Cláudio • Columbia • 78
(1944) Rato, rato/Deixa por minha conta • Odeon • 78
(1945) Turbilhão de beijos/Odeon • Odeon • 78
(1946) Soluços/Aguenta a mão • Continental • 78
(1946) Relembrando/Liszamba • Continental • 78
(1946) Um baile em Catumbi/Murmurando • Odeon • 78
(1947) Já vai tarde/Você não pensou • Odeon • 78
(1947) Urubu malandro/Remeleixo • Odeon • 78
(1948) No meu tempo era assim/É assim que eu gosto • Odeon • 78
No Exterior
(1950) Fon-Fon et sa Musique du Bresil • London LP (Não editado no Brasil).
(1951) Fon-Fon Brazilian Rhytms . London, com participação vocal da cantora Horacina Correia, nas faixas “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso; “Deseo”, de Bienvenido Granda; “Passo do Ginga”, de Sá Róris; “Chiquita Bacana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro; “Jacarepaguá”, de Paquito, Romeu Gentil e Marino Pinto; “Terra Seca”, de Ary Barroso; e “Zumba”, de Murilo Caldas e Moysés Friedman.
Ainda fizeram parte do disco as faixas instrumentais “Os Pintinhos no Terreiro”, de Zequinh a de Abreu; e “Remechendo”, de Radamés Gnattali.
Fontes:
http://maestrofonfon.blogspot.com/
Para ouvir:





























