sábado, 18 de julho de 2026 – 23h51

‘Liga contra o Empréstimo de Livros’ tratou de questões socioculturais na década de 1930 em Maceió

Iniciativa promoveu feira de livros e publicou nota oficial sobre construção de abrigo para menores abandonados
Foto: Acervo Digital do APA
Praça Dom Pedro II, berço histórico da capital alagoana e palco da Grande Feira de Livros, em 1932 Foto: Acervo Digital do APA

Que o livro emprestado entre amigos “vai e não volta mais”, já é máxima sabida por muitos. Que a leitura é fundamental, não há o que se discutir. O acesso ao livro se torna premente e exige iniciativas que levem a ele. Foi o que aconteceu, na década de 1930, em Maceió. Os jovens escritores da revista Novidade fundaram a “Liga contra o Empréstimo de Livros”, um esforço conjunto devido à preocupação com questões socioculturais da cidade.

Sem sede, estatuto ou diretoria, a Liga promoveu a Grande Feira de Livros, “para vendagem popular e absolutamente acessível a todos”, na praça Dom Pedro II, no bairro do Centro. Com abertura em 1º de maio de 1932, o evento conseguiu a proeza de vender cerca de 1.500 volumes, que haviam sido doados, nos seus dois dias de realização.

Em abril do mesmo ano, o grupo já tinha publicado uma nota oficial no Jornal de Alagoas, na qual expressava a vontade de construir um abrigo para menores abandonados, a partir da venda de livros.

Conscientes da importância de “despertar o interesse da comunidade alagoana pelas coisas do espírito”, a Liga foi fundada, em fevereiro de 1932, por Alberto Passos Guimarães, Carlos Paurílio, Luiz Ramalho de Azevedo, Manoel Diegues Júnior, Raul Lima e Valdemar Cavalcanti, poucos meses depois da publicação do último número de Novidade, que saiu em setembro de 1931.

No mês de fevereiro ainda, o grupo já contava com a participação de Hebel Quintela, José Lins do Rego, Mendonça Braga e Théo Brandão. 

Em março, algumas mulheres se associaram à Liga. Fizeram parte dela Elsa Ferraz, Enaura Melo, Flora Ferraz, Ligia Menezes e Lourdes Caldas. Ainda no mesmo período, aderiram ao grupo Abelardo Duarte, Aurélio Buarque de Holanda, Durval Cortês, Joaquim Ramalho, Mário Marroquim, Moacir Pereira, Rui Palmeira e Santa Rosa Júnior.

Valdemar Cavalcanti esclarecia os princípios do grupo, em artigo publicado já em março, no Jornal de Alagoas, que tratava, em tom jocoso, de “Os dez mandamentos contra o empréstimo de livros e suas explicações”. Alberto Passos Guimarães complementou com “Um programa de ação”, no mesmo diário alagoano. 

Em agosto, as preocupações culturais do membros permaneciam. O grupo promoveu ainda a Festa da Arte Moderna, no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL).

Na programação, a pianista Lourdes Caldas – aluna de Arminda Villa-Lobos, segunda esposa de Heitor Villa-Lobos -, tocou peças de compositores modernos. Manuel Diegues Júnior proferiu palestras sobre música moderna, e Santa Rosa Júnior expôs pinturas e desenhos de sua lavra.

Nas fontes pesquisadas, não é dito quando a Liga acabou, ou mesmo se ela chegou a atingir os seus objetivos, ou ainda se o abrigo para menores começou a ser construído.

O livro de todos e de ninguém

Os livros continuam de todos, de cada um e de ninguém. E se vão quando emprestados a amigos e conhecidos.

“Meus livros são teus livros, nessa rubra capa com que os vestiste, e que entrelaça um desespero aberto ao sol de outubro à aérea flor das letras, ritmo e graça”, dizia Carlos Drummond de Andrade, no poema A um morto na Índia, dedicado ao pintor e ilustrador paraibano, Santa Rosa Júnior.  

O texto foi publicado em 1959, no livro “A vida passada a limpo”, anos depois do fim da “Liga contra o Empréstimo de Livros”. O poema homenageia Santa Rosa Júnior, falecido na Índia, em 1956. O designer de livros paraibano, conhecido como o “pai do livro moderno”, ilustrou a capa de obras de diversos escritores brasileiros, dentre eles, as de Drummond. 

O poeta alagoano Aloísio Branco, que fazia parte de Novidade e morava no Rio de Janeiro quando a Liga foi fundada, havia publicado o artigo “Ladrão de Livros”, dedicado a José Lins do Rêgo. Este havia cortado relações com Aloísio devido às visitas inoportunas, a qualquer hora do dia ou da noite, à biblioteca do escritor paraibano. Após o artigo, recebeu de Lins do Rêgo os mais sinceros elogios e o pedido de reconciliação.

O mesmo Aloísio – amante inveterado de literatura – doou a José Américo os livros de autoria de Amado Nervo, que Carlos Paurílio havia emprestado a ele.

Fontes:

http://abcdasalagoas.com.br/

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-24112009-160650/publico/IEDA_LEBENSZTAYN.pdf

 

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