Estação ferroviária de Maceió, quarta-feira, dia 17 de abril de 2024, às 09 horas. A paz, o silêncio e um pouco mais que uma dezena de passageiros aguardam o trem VLT. Pela manhã, entrevista com a coordenadora de comunicação e marketing da CBTU, Morgana Moraes, (vide matéria). E, às 11 horas, viagem da estação Central rumo à estação Lourenço Albuquerque.
Impressões e reflexões da viagem
Bem cuidada, a estação Central com pouco movimento, lanchonete e lojinha fechadas, um grande vão, lajeado, sombreado, fresco, uma bela mangueira. Todo ambiente é extremamente poético, silencioso. O trem VLT não demora, inicia-se o panorama do caminho, um cinema vivo da janela no vagão, quase vazio. Até a estação Mercado, a Maceió do cotidiano do Centro da cidade fica pra trás, adiante estão os bairros Cambona e Levada, chegando à estação Bom Parto.
O triste e humilhante infortúnio
A próxima parada, estação Mutange está interditada porque uma grande parte da cidade, dois bairros inteiros e boa parte de três outros bairros, que beiram a laguna Mundaú, estão evacuados, devido ao afundamento de terra, pelas enormes minas de sal-gema cavadas naquele subsolo, na mineração da petroquímica Braskem.


Da estação Bom Parto, todos os que seguem viagem, são obrigados a descer do VLT, confortável e com ar-condicionado, dirigirem-se aos ônibus, que os aguardam fora da plataforma. Para contornar os dois bairros totalmente evacuados (Mutange e Pinheiro), atravessando os três afetados: Bom Parto, Farol e Bebedouro.
Vem a lembrança do que já foi o caminho do trem, no extinto bairro do Mutange, estes 3 km interditados da ferrovia, um pedaço da história da cidade apagado, nos dois lados do caminho. Casarões, com a laguna Mundaú ao fundo, o Hospital Psiquiátrico José Lopes, o Instituto do Meio Ambiente (IMA), a Secretaria de Educação, Vila Amália. Casebres pendurados por toda a encosta, rente ao trilho, ao antigo Colégio Bom Conselho e a igreja de Santo Antônio de Pádua, na praça Lucena Maranhão.
Detalhe ao antigo Centro de Treinamento do Centro Sportivo Alagoano (CSA), tradicional time de futebol da cidade, o azulão do Mutange, onde, ao lado, foi instalada a bomba de sucção da Braskem, diante aquela arquibancada, de construções simples em cascata, onde a torcida azulina gratuitamente assistia treinos e jogos do amado clube. Era um belíssimo trecho do caminho, devastado pela inconsequente tragédia.

A baldeação é entre as estações Bom Parto e Bebedouro. Constrangimento é o que se percebe, muitas reclamações e comentários jocosos sobre a postura das autoridades alagoanas, da permissão de que todo esse alvoroço esteja a acontecer: _“uma humilhação”, diz um passageiro. O ônibus, desconfortável, em ruas esburacadas, contorna toda essa área cercada de tapumes, que hoje pertence à mineradora, indo em direção da avenida Fernandes Lima, no bairro Farol, via arterial da cidade, sempre congestionada, até a avenida Rotary, retorna, cruza o canteiro e desce pela rua Belo Horizonte e ladeira do Calmon até Bebedouro.


Após a baldeação
Bebedouro foi um dos bairros afetados. Sua estação ferroviária se encontra conservada, mas o ambiente externo, rodeado de tapumes, escondem a história apagada. Do ônibus, deslocam-se os passageiros para outro trem, um trem de ferro, que aguarda na estação. Com vagões mais amplos, ventilados, material rústico. A viagem segue com dois condutores, Luciano Alves e Kreslerson Gouveia, maquinistas da antiga locomotiva Nordestina.

Até a estação Sururu de Capote há rastros do desastre ambiental por todos os lados. Segue a Nordestina, conduzindo gente, há 70 anos. A partir desse perímetro, toda a paisagem muda, é como sair de um campo de guerra e retornar às casas. A vida pulsa, a natureza se manifesta, o vagão balança. Para na estação Goiabeiras, cruza todo o bairro histórico de Fernão Velho, a próxima parada.
Em todo o trecho Centro – Fernão Velho, havia tradições culturais, educacionais e turísticas, como o Trem do Forró que, nas noites de São João, conduzia os brincantes para a festa, no bairro. Estudantes e turistas desciam na estação de Fernão Velho para conhecer mais de perto a sua história, a antiga fábrica de tecido Cármen, a igreja e a praça da matriz, as fachadas coloniais. A quebra do caminho, o translado de ônibus, as tradições não mais acontecem.

A exuberância continua. Pastos, matas, habitações, gente, até as estações periféricas ABC e Rio Novo, cruza o rio Catolé e chega ao município de Satuba e à estação Satuba. Com os mesmos elementos pictóricos, destacam-se o IFAL e a nova oficina da CBTU. Cruza parte da cidade, a ponte, plantação de cana de açúcar, pasto e várzeas. Chega ao Rio Largo, outro município, estações Utinga e Gustavo Paiva, e o rio Mundaú margeia com mais frequência, embelezando a paisagem.

Chegando à cidade de Rio Largo, cruzando seu entorno histórico, a longa cascata do rio Mundaú, escombros de uma arquitetura imponente viva, mas abandonada, além da bem conservada estação Rio Largo. Como a de Fernão Velho, é uma boa parada para descer e circular pela cidade, um local turístico e histórico. Seguindo a viagem, destino à estação Lourenço Albuquerque, o fim da linha, às 13 horas, ponto sem estrutura para turistas.
O trajeto completo é um pouco longo. São 34 km de viagem, no total. O mesmo trem que chega, parte. Mas a história dessa viagem foi contaminada pela ganância e corrupção de empresários, juristas e políticos; pelo silêncio de uma imprensa comprometida; por 40 anos de perfuração no subsolo da cidade, motivos de profunda tristeza, ver o fim de tão bela viagem, só de lembrar que está de volta para Maceió, dá dó no coração. Chegada às 15 horas.








































