sexta-feira, 22 de maio de 2026 – 14h08

A linda viagem que a Braskem encerrou drasticamente

O trem urbano de Maceió, nos trilhos que o leva à Rio Largo, sofre interrupção devido afundamento do solo 
Bairros afetados pela exploração do sal-gema em Maceió - Foto: LulaCastelloBranco/NC

Estação ferroviária de Maceió, quarta-feira, dia 17 de abril de 2024, às 09 horas. A paz, o silêncio e um pouco mais que uma dezena de passageiros aguardam o trem VLT. Pela manhã, entrevista com a  coordenadora de comunicação e marketing da CBTU, Morgana Moraes, (vide matéria). E, às 11 horas, viagem da estação Central rumo à estação Lourenço Albuquerque. 

Impressões e reflexões da viagem

Bem cuidada, a estação Central com pouco movimento, lanchonete e lojinha fechadas, um grande vão, lajeado, sombreado, fresco, uma bela mangueira. Todo ambiente é extremamente poético, silencioso. O trem VLT não demora, inicia-se o panorama do caminho, um cinema vivo da janela no vagão, quase vazio. Até a estação Mercado, a Maceió do cotidiano do Centro da cidade fica pra trás, adiante estão os bairros Cambona e Levada, chegando à estação Bom Parto.

O triste e humilhante infortúnio 

A próxima parada, estação Mutange está interditada porque uma grande parte da cidade, dois bairros inteiros e boa parte de três outros bairros, que beiram a laguna Mundaú, estão evacuados, devido ao afundamento de terra, pelas enormes minas de sal-gema cavadas naquele subsolo, na mineração da petroquímica Braskem.

Foto: Instagran/CharlesNoutrup
Foto: Instagran/CharlesNoutrup

Da estação Bom Parto, todos os que seguem viagem, são obrigados a descer do VLT, confortável e com ar-condicionado, dirigirem-se aos ônibus, que os aguardam fora da plataforma. Para contornar os dois bairros totalmente evacuados (Mutange e Pinheiro), atravessando os três afetados: Bom Parto, Farol e Bebedouro.

Vem a lembrança do que já foi o caminho do trem, no extinto bairro do Mutange, estes 3 km interditados da ferrovia, um pedaço da história da cidade apagado, nos dois lados do caminho. Casarões, com a laguna Mundaú ao fundo, o Hospital Psiquiátrico José Lopes, o Instituto do Meio Ambiente (IMA), a Secretaria de Educação, Vila Amália. Casebres pendurados por toda a encosta, rente ao trilho, ao antigo Colégio Bom Conselho e a igreja de Santo Antônio de Pádua, na praça Lucena Maranhão.

Detalhe ao antigo Centro de Treinamento do Centro Sportivo Alagoano (CSA), tradicional time de futebol da cidade, o azulão do Mutange, onde, ao lado, foi instalada a bomba de sucção da Braskem, diante aquela arquibancada, de construções simples em cascata, onde a torcida azulina gratuitamente assistia treinos e jogos do amado clube. Era um belíssimo trecho do caminho, devastado pela inconsequente tragédia.

Baldeação. Área restrita, parte da cidade destruída – Foto: LulaCastelloBranco/NC

A baldeação é entre as estações Bom Parto e Bebedouro. Constrangimento é o que se percebe, muitas reclamações e comentários jocosos sobre a postura das autoridades alagoanas, da permissão de que todo esse alvoroço esteja a acontecer: _“uma humilhação”, diz um passageiro. O ônibus, desconfortável, em ruas esburacadas, contorna toda essa área cercada de tapumes, que hoje pertence à mineradora, indo em direção da avenida Fernandes Lima, no bairro Farol, via arterial da cidade, sempre congestionada, até a avenida Rotary, retorna, cruza o canteiro e desce pela rua Belo Horizonte e ladeira do Calmon até  Bebedouro.

Baldeação entre o ônibus e o trem – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Baldeação, retorno ao trem – Foto: LulaCastelloBranco/NC

Após a baldeação

Bebedouro foi um dos bairros afetados. Sua estação ferroviária se encontra conservada, mas o ambiente externo, rodeado de tapumes, escondem a história apagada. Do ônibus, deslocam-se os passageiros para outro trem, um trem de ferro, que aguarda na estação. Com vagões mais amplos, ventilados, material rústico. A viagem segue com dois condutores, Luciano Alves e Kreslerson Gouveia, maquinistas da antiga locomotiva Nordestina.

Estação Bebedouro – Foto: LulaCastelloBranco/NC

Até a estação Sururu de Capote há rastros do desastre ambiental por todos os lados. Segue a Nordestina, conduzindo gente, há 70 anos. A partir desse perímetro, toda a paisagem muda, é como sair de um campo de guerra e retornar às casas. A vida pulsa, a natureza se manifesta, o vagão balança. Para na estação Goiabeiras, cruza todo o bairro histórico de Fernão Velho, a próxima parada. 

Em todo o trecho Centro – Fernão Velho, havia tradições culturais, educacionais e turísticas, como o Trem do Forró que, nas noites de São João, conduzia os brincantes para a festa, no bairro. Estudantes e turistas desciam na estação de Fernão Velho para conhecer mais de perto a sua história, a antiga fábrica de tecido Cármen, a igreja e a praça da matriz, as fachadas coloniais. A quebra do caminho, o translado de ônibus, as tradições não mais acontecem.

Estação Fernão Velho – Foto: LulaCastelloBranco/NC

A exuberância continua. Pastos, matas, habitações, gente, até as estações periféricas ABC e Rio Novo, cruza o rio Catolé e chega ao município de Satuba e à estação Satuba. Com os mesmos elementos pictóricos, destacam-se o IFAL e a nova oficina da CBTU. Cruza parte da cidade, a ponte, plantação de cana de açúcar, pasto e várzeas. Chega ao Rio Largo, outro município, estações Utinga e Gustavo Paiva, e o rio Mundaú margeia com mais frequência, embelezando a paisagem.

Estação Rio Largo – Foto: LulaCastelloBranco/NC

Chegando à cidade de Rio Largo, cruzando seu entorno histórico, a longa cascata do rio Mundaú, escombros de uma arquitetura imponente viva, mas abandonada, além da bem conservada estação Rio Largo. Como a de Fernão Velho, é uma boa parada para descer e circular pela cidade, um local turístico e histórico. Seguindo a viagem, destino à estação Lourenço Albuquerque, o fim da linha, às 13 horas, ponto sem estrutura para turistas. 

O trajeto completo é um pouco longo. São 34 km de viagem, no total. O mesmo trem que chega, parte. Mas a história dessa viagem foi contaminada pela ganância e corrupção de empresários, juristas e políticos; pelo silêncio de uma imprensa comprometida; por 40 anos de perfuração no subsolo da cidade, motivos de profunda tristeza, ver o fim de tão bela viagem, só de lembrar que está de volta para Maceió, dá dó no coração. Chegada às 15 horas.

Baldeação. Parte do trecho interrompido, com os trilhos ainda expostos – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Luciano Alves e Kreslerson Gouveia, maquinistas da CBTU – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Vagão do VLT – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Vagão do trem de ferro – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Fernão Velho – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Passageiro rumo ao treino de futebol – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Passageiro sentado no fundo do último vagão, admirando a paisagem – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Vagões puxados pela locomotiva Nordestina – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Paisagem – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Paisagem – Foto: LulaCastelloBranco/NC
Paisagem, nos vagões dançantes puxados pela ‘Nordestina’ – Foto: LulaCastelloBranco/NC

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