O objetivo do radioamadorismo é se comunicar. A comunicação ocorre em qualquer parte do mundo sem o limite das línguas nacionais. O sistema de fonia – Código Q e alfabeto fonético – e o sistema de telegrafia – Código Morse – quebram barreiras linguísticas, aproximam países e mantêm o radioamadorismo mais vivo e atual que nunca. Todo esse universo tem uma base forte em nosso estado. A Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (LABRE-AL), fundada em 1960, com sede no Centro de Maceió, permanece ativa até hoje.
Por meio de convenções internacionais, os recursos linguísticos disponíveis na área permitem que se estabeleça o contato entre nações e pessoas. O Código Q – especial para uso na comunicação aeronáutica, militar e de segurança civil – está adaptado e disponível aos radioamadores. A identificação QRA apresenta o operador em qualquer parte do mundo em nível internacional de chamada. O QSL, por exemplo, emite o sinal de positivo, de entendimento; já o TKS diz que o agradecimento foi feito.

O alfabeto fonético, outro recurso do sistema de fonia, é convencionado, padronizado e possui todas as letras alfabéticas e os algarismos numéricos. De alfa, bravo, charlie, delta a zulu, transmissões codificadas permitem a comunicação inclusive com povos que utilizam outros tipos de alfabeto que não o latino em suas línguas pátrias, como alfabeto cirílico, ou arábico, os mesmo os caracteres do mandarim.
A telegrafia, ou continuous wave (CW), ao contrário do que se possa pensar, está em plena atividade no mundo. Mecânica de comunicação binária intermitente, utiliza o Código Morse para transmitir a mensagem. O recurso não necessita de grandes investimentos eletrônicos. Com uma pilha comum e um circuito adequado, consegue-se chegar a uma grande distância. A título de ilustração, meio watt de potência elétrica torna possível trabalhar uma estação em Portugal. A telegrafia se encontra perfeitamente adaptada aos caracteres digitais, como arroba (@) ou hashtag (#).

A LABRE-AL tem um operador de telegrafia lendário, o Dr. João Simões, médico, 92 anos de idade, indicativo de chamada PP7JR, conhecido no mundo inteiro. Considerado exímio telegrafista, capaz de alcançar enorme velocidade no manipulador vertical, popularmente conhecido como “pica-pau”, chegando a uma média de 60 a 80 palavras por minuto, ultrapassando a capacidade de o computador decodificar a mensagem. O Dr. João Simões é capaz de telegrafar um jornal inteiro.
Quando um radioamador tira o licenciamento a partir da prova da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) – que após a pandemia da Covid-19 passou a ser aplicada de forma remota -, ele recebe um código indicativo exclusivo. É a sua identidade. O iniciante começa na classe C e pode chegar às classes B e A. A diferença entre os níveis está na frequência e no limite de potência permitidos. O radioamador na classe C pode operar até 100 watts; na classe B, até 1.000; e, na classe A, até 1.500 watts. O mais novo radioamador de Alagoas é um menino de 10 anos de idade, do município de São José da Laje.

“Na verdade, o bom profissional se caracteriza pela ética profissional. Não adianta ser um classe A e não ter ética operacional. Para mim, o importante nessas classificações é a ética”, ponderou, José Carlos Alves, com indicativo de chamada PP7TB Alves, servidor público e taxista, radioamador há 32 anos.
Alguns assuntos são proibidos de serem tratados pelo radioamador, como questões de segurança nacional, religião e temas polêmicos. Exceto quando estão colaborando em situações emergenciais, as mensagens normalmente giram em torno de curiosidades sobre países, seus povos, culturas, datas comemorativas, assuntos gerais, ou sobre questões da própria atividade de radioamadorismo.

Não é permitido ao radioamador licenciado se comunicar com um radioamador clandestino, nem mesmo para orientar sobre os riscos do uso inadequado de aparelhos de frequência. Ele está sujeito a sérias penalidades caso estabeleça o contato. Operar aparelhos de transmissão sem licença é crime previsto na legislação brasileira. As licenças e os aparelhos precisam ser homologados pela Anatel.
A LABRE-AL tem cinco repetidoras licenciadas – estações que recebem sinal de transmissão e retransmitem simultaneamente numa frequência de decalagem a mais ou a menos -. Elas se localizam nos municípios de Maceió, Junqueiro, Cajueiro, Morro do Cuscuz e Matriz de Camaragibe, e cobrem todo o estado de Alagoas. Para os demais estados e países, os radioamadores utilizam repetidoras – a de Junqueiro se interliga com as de Sergipe, que se interligam com as da Bahia -, satélites ou janelas.

“Uma coisa muito legal no radioamadorismo é descobrir qual país eu posso atingir, em que horário e por quanto tempo eu posso falar. É como se fossem janelas, dentro da atmosfera, as ondas ficam chicoteando até chegarem a um local. A janela fica aberta, numa propagação favorável, uma antena direcional aponta para aquele país onde se quer atingir, se calcula quantos saltos ela vai dar até chegar e alguém responder”, explica Crezivando Júnior, advogado, radioamador desde 2002, com indicativo de chamada PP7CJ.
A LABRE-AL possui sede própria, inaugurada em 1971, localizada na ladeira da Catedral, emblemática área do Centro de Maceió. Entidade civil sem fins lucrativos e sem remuneração na prestação de serviços sociais, é considerada de “utilidade pública”, pela Lei Municipal nº 4.752, de 1998. Os membros contribuem mensalmente para mantê-la aberta. Desde 2016, a gestão é feita por uma comissão, formada por dez sócios, que vem reequilibrando as contas e reestruturando o espaço físico. Por iniciativa da entidade, Alagoas é o único estado da federação com o próprio “Dia Estadual do Radioamador”, celebrado em 10 de novembro, instituído pela Lei Estadual nº 8.264, de 2020.






























