Mais um mapa-múndi controverso foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desta vez, de ponta-cabeça. O órgão lançou uma nova versão, com o mapa invertido e o Brasil ao centro. A carta foi apresentada no perfil do presidente, Márcio Pochmann, na rede social X, na quarta-feira (7). Segundo ele, “a novidade busca ressaltar a atual posição de liderança do Brasil”. Para os servidores da casa, de acordo com o núcleo sindical, a iniciativa é “um gesto sem respaldo técnico reconhecido pelas convenções cartográficas internacionais”.
No mapa, estão sinalizadas cidades brasileiras ligadas a fóruns internacionais: Rio de Janeiro (capital dos Brics), Belém (sede da COP 30) e Ceará (Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global). “O IBGE lançou um novo mapa-múndi com o Brasil no centro, contendo o sul na parte superior do mapa, também identificado por mapa invertido. A novidade busca ressaltar a posição atual de liderança do Brasil em importantes fóruns internacionais como no Brics e Mercosul e na realização da COP 30 no ano de 2025”, escreveu Pochmann em seu perfil. O material está a venda, por R$ 15, na loja do IBGE.
Já em abril de 2024, o instituto divulgou o mapa-múndi, da 9ª edição do Atlas Geográfico Escolar, em orientação geográfica habitual, mas com o Brasil ao centro, ocupando o lugar do continente africano, que foi posicionado mais à direita. O modelo incluiu a marcação dos países que compõem o G20 e daqueles com representação diplomática brasileira. Na ocasião, o diretor da Autoridade do Desenvolvimento Sustentável do Estado do Rio de Janeiro, Paulo Protásio, disse que a projeção do Brasil expressou nova postura e ideia. “Nós nos acostumamos a sermos eurocentristas e ser eurocentrista não é ser brasileiro”.
Repúdio dos servidores
Em manifesto de repúdio ao lançamento, o núcleo sindical dos servidores do IBGE, lotados na unidade da Avenida Chile, no centro do Rio de Janeiro, demonstrou insatisfação com a publicação. “Trata-se de uma iniciativa que, em vez de informar, distorce; em vez de representar a realidade com rigor, cria uma encenação simbólica que compromete a credibilidade construída pelo IBGE ao longo de décadas de trabalho sério, imparcial e respeitado globalmente”, descreveu. “Também se fere o princípio da eficiência, pois a adoção de padrões gráficos não reconhecidos confunde a educação, prejudica comparações internacionais e deslegitima produtos oficiais”, afirmou o documento.
Em posicionamento enviado ao Broadcast, do Grupo Estado, a executiva nacional do sindicato de trabalhadores do instituto, o Assibge-SN, disse que a publicação atenderia à agenda pessoal de Pochmann. “O mapa em si não apresenta nenhuma incorreção técnica, e poderia compor, em conjunto com outras representações, atlas e materiais didáticos, trazendo um debate bem-vindo sobre as representações cartográficas e sua expressão política. O que avaliamos como bastante problemático é o lançamento de um produto que não foi construído pelas áreas técnicas, não teve um lançamento adequado, e parece atender a agenda pessoal do presidente Marcio Pochmann”, declararam.
Crise no IBGE
A crise na gestão de Márcio Pochmann à frente do IBGE se estende desde o ano passado. A intensificação do conflito entre servidores e direção levou o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) a anunciar, em janeiro de 2025, a suspensão da Fundação IBGE+, chamada “IBGE paralelo”, por servidores do órgão. O estatuto da fundação previa a possibilidade de parcerias e contratos com entidades privadas.
Em setembro de 2024, uma carta aberta dos servidores denunciava que a iniciativa havia sido “formalizada em sigilo por 11 meses e anunciada dois meses após sua oficialização em cartório”, dizia trecho do documento. O que geraria “dúvidas quanto à sua real finalidade e ao impacto que terá sobre a independência técnica e administrativa do Instituto”, complementava.
Mapa invertido
O mapa invertido remonta ao início do século XX, por meio da expressão artística do pintor uruguaio, Joaquín Torres García ( 1874-1949). A intenção com a obra modernista “América Invertida”, de 1943, era fazer uma declaração política que valorizasse o Sul global e a cultura latino-americana.





























