sábado, 2 de maio de 2026 – 02h56

A arte no cotidiano do caminhar

Sr. Orino resgatou, ali mesmo, a minha história — e, de certo modo, a nossa também
Sr. Orino, sob as lentes do repórter fotográfico, Lula Castello Branco, na Praça Deodoro, bairro do Centro de Maceió, em 2023.

Caros leitores e amigos,

Há uma cultura muito bem escondida — e, ao mesmo tempo, tão às claras diante dos nossos olhos. Em uma de minhas caminhadas pelo centro da cidade de Maceió, o sol estava tão quente que precisei parar um pouco para me refrescar do calor, que, mesmo em tarde de outono, ainda teima em não se afastar.

Com os olhos voltados para a Praça Deodoro, percebi, num canto da praça, um senhor sentado com seu instrumento de trabalho nas mãos, um sorriso no rosto — ele era só alegria. Enquanto exercia sua função, engraxando os sapatos dos clientes, contava histórias, como se aquelas pessoas fossem amigas de longa data. Era um homem simples, de mãos marcadas pelo ofício, que, com paciência e capricho, moldava, restaurava e fazia brilhar os calçados dos poucos clientes que ainda passavam por ali. Mais do que um serviço, ele prestava um cuidado, um gesto de atenção a cada um que se sentava diante dele.

Por alguns minutos, permaneci ali, observando seus gestos. E, no silêncio do anonimato, percebi o quanto aquela figura já fazia parte da paisagem humana e afetiva da Praça Deodoro. O Sr. Orino, como é conhecido, retira dali o sustento de sua vida. Por trás do brilho dos sapatos e do couro restaurado, ele perpetua uma atividade que, infelizmente, não irá durar por muito mais tempo.

Aquele pedacinho de tarde em que ali permaneci me fez voltar no tempo e abrir as janelas da memória. Trouxe-me de volta a espaços temporais em que eu caminhava com meu pai pelas ruas do centro de Maceió. Lembro o quanto ele valorizava sair com os sapatos bem limpos, sempre muito bem engraxados. O Sr. Orino resgatou, ali mesmo, a minha história — e, de certo modo, a nossa também —, em breves lapsos de nostalgia.

Engana-se quem pensa que apenas Rás Gonguila — nosso personagem de projeção nacional, com seu carisma e irreverência — representou o povo das ruas de Maceió. Por trás do brilho dos sapatos e do couro restaurado havia, e ainda há, famílias inteiras sustentadas por esse ofício.

Como o Sr. Orino, muitos aprenderam o ofício com os pais e, depois, ensinaram aos filhos. Acordavam cedo, preparavam seus bancos de madeira, e, no ponto certo, na hora exata, faziam a cidade ganhar movimento. Entre uma conversa e outra, entregavam o melhor de si. E, como num rito, cada etapa era calculada e bem conduzida para que o resultado fosse perfeito.

O banco de engraxate se transforma em confessionário, em palco de histórias, em ponto de escuta. Os sapateiros também resistem no centro da cidade. São verdadeiros cirurgiões dos calçados: curam rasgos, restauram solas, resgatam a beleza dos pares esquecidos. Suas bancadas cheiram a cola, couro e passado. São oficinas de memória. O sapateiro não vê apenas o desgaste — ele enxerga um pedaço de vida que precisa continuar.

Infelizmente, esse mundo vai sumindo. Aos poucos, diante da pressa que tudo consome, perdem-se as histórias, o costume de cuidar, de conversar. Esse modo de vida está sendo trocado por uma lógica de descarte — tão presente na nossa sociedade de consumo exacerbado.

Mas a cultura que esses homens representam resiste — não em placas ou museus, mas na prática silenciosa do cotidiano. E é exatamente isso que não podemos esquecer.

Cultura, caros leitores e amigos, também é isso: o trabalho honesto, repetido e cheio de alma. É a sabedoria do ofício. É o silêncio eloquente de quem serve com dignidade. E, se o centro de Maceió ainda pulsa memória, é também por causa desses mestres do brilho, que, com suas latas de graxa e martelos miúdos, ajudam a manter viva uma cidade que caminha e bem calçada por entre os tempos.

A propósito, passei pelo centro essa semana, e o Sr. Orino não estava mais na praça. Será que a cultura, na forma do exercício de seu ofício, foi expulsa da praça, que também é do povo?

Quem souber, conte-nos aqui.

Abraços e até nosso próximo encontro!

 

Resposta de 0

  1. A escritora com sua sensibilidade aguçada, durante a sua caminhada, capta, lindamente, preciosidades como o Sr. Orino. Sua percepção nos leva a andar juntos e sentir minúcias deste trabalhador histórico, que lustra vidas e memórias.

  2. É lindo observar o olhar sensível que resgata a memória de costumes antigos, são coisas do cotidiano que se passam despercebidos pela presa da vida moderna.
    A história dessa fotografia é maravilhosa uma simplicidade cheia de memórias, um passado que se mistura ainda com o presente. Parabéns!

  3. Seu texto me trouxe uma linda memória de infância: eu sentadinha no banco da praça lendo história em quadrinhos enquanto esperava meu pai engraxar os sapatos lá em Goiânia/GO. Sempre com a mesma pessoa, o Sr. João. Obrigada Ana

  4. Lembro-me de de esperar meu pai engraxar seus sapatos sentadinha no banco da praça, lá em Goiânia/GO, lendo histórias em quadrinhos. Obrigada Ana por essa lembrança cheia de cultura e amor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Também
Leia Também