sexta-feira, 24 de abril de 2026 – 00h58

Arlindo, o artesão macro em um universo micro

Cada peça exige horas de dedicação para capturar a tradição e o cotidiano regional
Arlindo Monteiro, com sua escultura em palito de fósforo - Foto: LulaCastelloBranco/NC

Conheci o artesão Arlindo Monteiro há trinta anos. Ainda muito jovem, eu vivia uma década de expressivas mudanças. Eram movimentos em todo o mundo, desde a reunificação da Alemanha até a clonagem da ovelha Dolly. Para uma época em que a dinâmica era saber o que o mundo realizava apenas pela fala do outro, especialmente por meio dos meios de comunicação de massa, tornou-se extremamente importante para mim entender como esses movimentos se iniciavam.

Foi nessa década de transformação que, ao refletir sobre o processo acelerado em que vivíamos, busquei compreender a importância da comunicação nesse contexto. No momento da conclusão do meu curso em Comunicação Social, mergulhei na arte e transitei por um campo até então pouco explorado: a linguagem plástica no artesanato. Assim conheci Arlindo Monteiro, um artesão simples, vindo de uma comunidade sem grande destaque social. Ele criava objetos em madeira e troncos de coqueiro e os vendia no Mercado do Artesanato, em Maceió (AL). Durante seis meses de pesquisa, esse trabalho me rendeu um TCC que contribuiu significativamente para minha formação em Comunicação Social.

Arlindo Monteiro demonstrava, desde cedo, o seu talento para a arte. Começou aos treze anos a transformar materiais comuns em criações surpreendentes. Influenciado pelas tradições nordestinas, criava esculturas usando troncos de madeira que ele mesmo fazia questão de escolher. Muitas vezes, ele dizia: “Vinha rolando os troncos de coqueiro da praia até o mercado, e nem eu mesmo acreditava que ia conseguir.” Assim começava o processo de transformação, desde a coleta até a peça finalizada. Mesmo sem saber, cada obra carregava uma infinidade de falas, olhares e sentimentos envolvidos, refletindo a linguagem corporal do artesão.

Obra mais complexa, toda construída em palitos de fósforo – Foto: LulaCastelloBranco/NC

Nos anos seguintes, Arlindo deixou de lado as grandes peças e, motivado por um sonho, começou a trabalhar com pequenos objetos que transformava em arte. O versátil artesão deu uma nova cara ao artesanato: o que antes era grandioso passou a ser pequeno, com miniaturas cheias de detalhes que encantavam até os olhares mais exigentes. Foi por meio de suas pequenas esculturas, feitas com palitos de fósforo, que o mundo passou a conhecer o seu trabalho.

O artesão, que outrora buscava troncos imensos na praia, passou a exercer sua criatividade de forma mais minuciosa, como um cirurgião. Ele percebeu que os detalhes se tornaram o foco principal de suas novas criações. Seu trabalho é marcado pela paciência e pelo perfeccionismo. Ele utiliza palitos de fósforo, como base para criar miniaturas detalhadas de barcos, jangadas, igrejas, casarios e outros elementos típicos da cultura nordestina. Cada peça exige horas de dedicação, ajustando os palitos e os colando, com precisão, para capturar o espírito da tradição e do cotidiano regional.

A fama de Arlindo cresceu quando suas obras começaram a ser exibidas em feiras de artesanato e exposições culturais. Sua arte chamou atenção, não apenas pelo preciosismo, mas também pela originalidade e pela capacidade de reaproveitar materiais simples, promovendo a sustentabilidade. Em 2013, ele ganhou destaque nacional ao participar da abertura da novela “Flor do Caribe”, da TV Globo. Suas obras foram incorporadas à trama, ambientada em cenários e paisagens nordestinas, valorizando e representando a riqueza cultural da região.

Obra de Arlindo, uma cadeira criativa – Foto: ArquivoPessoal

A pequena arte de Arlindo ganhou vida na abertura da novela, contribuindo para uma estética delicada e autêntica. Miniaturas de barcos, jangadas e casas típicas, todas feitas pelo artesão, foram exibidas com grande destaque. A simplicidade e o encanto das tradições nordestinas estavam simbolizados nas mãos do artista. Desde as belas imagens do litoral até o universo artesanal, suas obras remetiam às raízes culturais do Brasil.

Sem saber, seu trabalho foi essencial para reforçar o tom artesanal e autêntico da novela. Sua participação representou um marco na valorização de artistas populares, em produções de grande alcance no Brasil, ampliando as oportunidades de apresentar seu trabalho em exposições e eventos.

Este artista dos pequenos detalhes, caro leitor, ainda pode ser encontrado no mesmo local, onde o entrevistei há 34 anos: o velho e saudoso Mercado do Artesanato. Cheio de histórias e encantos, ele continua lá, esperando para nos surpreender com sua arte. Não deixe de dar uma passadinha e se encantar com a cultura viva, traduzida em suas obras.

Concluo com as palavras do mestre Arlindo Monteiro: “Nada acontece por acaso. A fé é que nos move.” Com apenas uma lâmina de bisturi e um palito de fósforo, a criação nasce, e a emoção toma conta.

Visite o mercado do Artesanato no Centro de Maceió. Deixe seu comentário aqui para que, juntos, possamos cada vez mais encontrar os focos de cultura em nossa Alagoas.

Até o próximo domingo!

Resposta de 0

  1. Estou encantada com a delicadeza e beleza da arte do Mestre Arrlindo. Riqueza nos detalhes, nas cores e na forma como o artista traz a nossa cultura.

    1. Sim, Tainá muito bonita a sua arte, tem um encanto particular e um respeito ao nosso nordeste. Vale à pena dá uma passada por lá e ver o seu trabalho. E não deixe de nos acompanhar, toda semana traremos novidades.

  2. Estou encantando com a arte do mestre Arlindo. Não o conhecia e sua coluna me proporcionou esse encontro. Que delicadeza, rico nos detalhes. Viva a nossa arte! Viva o Mestre Arlindo!

  3. Karla,
    Seu artigo é sucinto e sua arte na escrita, nos faz desejar conhecer mais sobre o artista. Parabéns pelo artigo, muito bom!
    Bem, sobre Arlindo, recordo, a um certo tempo, uma reportagem que assisti falando dele e de sua arte. Particularmente, achei sensacional o quê e como ele conseguia fazer uma arte tão expressiva em forma de miniaturas. Espetacular.

  4. Parabéns pelo excelente relato,avivando memórias de quando mergulhamos nesse universo de cultura nesse local tão rico que é o mercado do artesanato e buscamos compreender a linguagem por trás das peças lindas produzidas por esse ilustre Mestre !!

  5. Uma linda lembrança!!! Saber que Mestre Arlindo continua com sua arte no Mercado do Artesanato é um privilégio para nós Alagoanos e também para os que nos visitam.

  6. Que trabalho lindo! Como é bom conhecer a arte desse artista que, de forma tão sublime, transmite cultura e emoção em sua criação artística.

  7. Importante demais reconhecermos nossos artistas. Tanta gente boa e talentosa. Precisamos valorizar nosso artesanato e nossa cultura. Parabéns Ana Karla!

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