Caros leitores, a nossa coluna vai lhe levar a cantarolar ao som do nosso Nordeste.
Imagine caminhar pelas ruas da sua cidade, perdido em pensamentos, quando algo chama a sua atenção. Foi exatamente assim que aconteceu comigo. Em um ponto de ônibus, uma cena comum para muitos, ganhou um significado especial para mim. Ali, duas figuras marcantes esperavam pelo transporte: dois senhores que carregavam, além da idade em seus rostos, um pedaço vivo da nossa cultura.
Eles vestiam camisas de manga arregaçadas e calças sociais já gastas, acompanhadas de chapéus que não só protegiam do sol, mas também carregavam histórias. No ombro deles, estavam as violas, que são parte inseparável de suas identidades. Aqueles senhores eram violeiros repentistas, prontos para mais um dia de trabalho, sob o sol ardente das nossas praias.
Você já viu um repentista em ação? Geralmente, eles andam em duplas, trocando versos e prosas enquanto fazem o público rir, pensar e se emocionar. Esses artistas são a expressão viva da resistência cultural nordestina. Com as cordas das violas, eles narram as lutas, os amores e as esperanças do nosso povo, mantendo acesa a chama da nossa tradição.
Lembro-me de ter crescido ouvindo suas cantorias. Quando criança, eu não entendia plenamente o significado, mas eram momentos mágicos, onde cada palavra improvisada parecia conversar diretamente comigo. Infelizmente, esses encontros têm se tornado cada vez mais raros. Hoje, são poucos os que ousam pegar suas violas e enfrentar as estradas em busca de público. Nas praias, os repentistas remanescentes, sob o sol quente, ainda tentam encantar os passantes, improvisando até o dia acabar.
Esses guerreiros da poesia não têm medo do trabalho. Lutam diariamente para que sua arte não seja esquecida. Com cada verso improvisado, eles desafiam o tempo e a indiferença, acreditando que o repente pode voltar a ter o espaço que merece.
Quem já ouviu não esquece: “Ô amigo, pare aí e preste atenção, que agora eu canto a história…”. Com essas palavras, eles abrem caminho para narrativas que encantam, ensinam e emocionam. Às vezes, o final pode não agradar a todos, mas o brilho nos olhos do público revela o poder da poesia que vem do coração.
Por isso, caros leitores, eu lhes convido a valorizar os repentistas. Quando você parar para ouvi-los, esteja em uma feira, na praia, ou em qualquer outro lugar, lembre-se de que eles carregam nas mãos e na voz a história e a essência do Nordeste. Eles nos mostram que nossa cultura é rica, resiliente e merece ser celebrada.
Convido-os, com todo o respeito, a prestigiar esses artistas, porque só assim poderemos garantir que seus versos continuem a ecoar, pois cada rima improvisada é um pedaço de nós mesmos, transformado em arte.
Caro amigo e amiga leitores, quando foi a última vez que você ouviu um repente? Deixe aqui para gente um pedacinho de sua lembrança.






























Uma resposta
Realmente a maior presença deles é nas praias, certamente para maior aproximação com os turistas e poderem ter um dinheiro a mais. É uma cultura nordestina fantástica.
Concordo Edson, é muito importante mantermos viva a nossa cultura.
Gosto muito e ler essa coluna e a narrativa cultural de vivências lindas. Quando iniciei no turismo a praia do francês era repleta de repentistas que abordavam os turistas e sempre após perguntar o nome e a procedência começavam a trolar a cantoria entre eles e o público que ficava estarrecido com tanto improviso poético e entrosamento.
Grata por compartilhar esses momento raros.
Ana Rogato, sempre via as duplas percorrendo a pria do Francês, era incrível como tinha o poder de síntese quanto as narrativas. Continue nos acompanhando, e aguardo dicas.
Muitos atuam também nas areias das praias.
Michelle, isso no calor do nosso sol, eles estão sempre presentes. É bom manter viva a lembrança dos repentistas conosco. A história do nosso nordeste tem muito a nos contar.