Caros leitores, o novo ano chegou, e a vida continua como ontem, seguindo o ciclo natural de seu movimento. Esta semana, estive no Centro de Maceió e, como boa observadora, percebi a ausência de um som que, desde minha juventude, sempre me acompanhou nas andanças pelo comércio da cidade.
Notei que havia um silêncio diferente. Naquela manhã ensolarada, o som do chocalho, da gaita e do pandeiro não estava no local habitual de trabalho. Curiosa, perguntei a um conhecido morador da porta da igreja:
— Cadê o seu Edmilson? Hoje ele não veio?
Ele, sabiamente, olhou ao redor e respondeu:
— Em dias de chuva, ele não vem.
Agradeci e segui meu caminho.
Para os que agora se perguntam sobre o silêncio a que me refiro, falo do som inconfundível do chocalho do seu Edmilson, mais conhecido como “o cego do Centro”. Há mais de quarenta anos, ele toca seu instrumento, canta e encanta quem passa pelo comércio de Maceió.
Por diversas vezes, sua voz trouxe canções e sucessos populares que ecoavam nas rádios locais, como “É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim”, entre tantas outras que, com o tempo, acabei esquecendo. Mas não é o caso de seu Edmilson.

Hoje, seu repertório mudou. Ele deixou de cantar as velhas e boas músicas populares para trazer suas próprias composições ao público. Em 2021, lançou o álbum “Janela para o Mundo”, que transformou o artista do povo em autor das próprias histórias. Entre suas músicas, encontramos o cotidiano traduzido de forma simples e autêntica, como em Moça Namoradeira, Serra da Goiana e O Casamento do Pobre. Nesta última, seu Edmilson canta:
“O casamento do pobre é uma história engraçada…
Só tem a noite e o dia, e o sereno da madrugada.”
Suas canções carregam a essência e a originalidade do nosso povo.
Para muitos, seu Edmilson é apenas um cego que fica na porta da igreja recolhendo trocados para sobreviver. Mas ele é muito mais que isso. Quem já parou para conversar com ele sabe que sua história não percorre linhas tão simples. O cego do centro é, na verdade, um patrimônio vivo de Maceió. Ele cativa a todos com sua alegria e mostra que o comércio da cidade é orgânico, pulsante e cheio de vida.
No palco improvisado das ruas, seu Edmilson consegue enxergar mais que nós. Enquanto nos perdemos em nossas angústias diárias, ele observa o todo. Focamos em pequenos problemas enquanto o tempo escorre como as águas de um rio, seguindo seu destino sem questionar.
E assim, o nosso patrimônio — o cego do Centro — nos convida a refletir: a simplicidade não nos impede de avançar na história ou deixar um legado. Seu exemplo nos inspira. Com alegria contagiante e sabedoria de vida, ele é como um Diógenes do século XX, que nos questiona sobre o que realmente importa.
Diógenes, o filósofo grego, ousou desafiar reis e cidadãos comuns. Diz-se que até Alexandre, o Grande, ao conhecê-lo, teria dito:
“Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.”
Assim como Diógenes, seu Edmilson nos mostra que a essência da vida está na simplicidade e nas conexões humanas. Não romantizo as dificuldades que ele enfrenta, mas reconheço a grandeza de sua trajetória.
Einstein, em 1922, escreveu uma reflexão que parece dialogar com a vida de seu Edmilson:
“Uma vida calma e modesta traz mais felicidade do que a busca incessante pelo sucesso, combinada com inquietação constante.”

Essas palavras, de um dos maiores gênios da humanidade, nos fazem pensar no verdadeiro valor da vida. Da mesma forma, o exemplo de seu Edmilson nos coloca em xeque, nos fazendo questionar o que priorizamos: posses materiais ou conexões interpessoais?
Para aqueles que acreditam que a cultura é apenas algo decorativo, aprendido em livros escolares, eu digo: a cultura é viva, orgânica e está ao nosso redor todos os dias. Basta parar e aprender com ela.
Vida longa ao seu Edmilson Mendes! Que seu som continue ecoando nos corredores do centro de Maceió, lembrando-nos do valor da simplicidade e da alegria.
E você, já teve alguma experiência com ele? Quer conhecer mais sobre sua obra?
Ouça seu CD.
Abraços, caros amigos leitores. Na próxima semana, nos encontraremos novamente!






























Uma resposta
Ótimo texto, parabéns. Edmilson é mesmo um Patrimônio Vivo de Maceió, só falta a prefeitura fazer justiça e reconhecer oficialmente.
Edmilson é patrimônio do nosso centro.
Aprendemos muito com seu sorriso, cantoria e simplicidade.
Puxa, que maravilhoso conhecer um pouco desse patrimônio humano de Maceió. Sempre passei por lá e admirei a resiliência dele, mas não conhecia a história.