quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h31

Você viu o seu Edmilson?

Falo do som inconfundível do chocalho do seu Edmilson, mais conhecido como “o cego do Centro”
Fotos: LulaCastelloBranco/NC

Caros leitores, o novo ano chegou, e a vida continua como ontem, seguindo o ciclo natural de seu movimento. Esta semana, estive no Centro de Maceió e, como boa observadora, percebi a ausência de um som que, desde minha juventude, sempre me acompanhou nas andanças pelo comércio da cidade.

Notei que havia um silêncio diferente. Naquela manhã ensolarada, o som do chocalho, da gaita e do pandeiro não estava no local habitual de trabalho. Curiosa, perguntei a um conhecido morador da porta da igreja:
— Cadê o seu Edmilson? Hoje ele não veio?

Ele, sabiamente, olhou ao redor e respondeu:
— Em dias de chuva, ele não vem.

Agradeci e segui meu caminho.

Para os que agora se perguntam sobre o silêncio a que me refiro, falo do som inconfundível do chocalho do seu Edmilson, mais conhecido como “o cego do Centro”. Há mais de quarenta anos, ele toca seu instrumento, canta e encanta quem passa pelo comércio de Maceió.

Por diversas vezes, sua voz trouxe canções e sucessos populares que ecoavam nas rádios locais, como “É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim”, entre tantas outras que, com o tempo, acabei esquecendo. Mas não é o caso de seu Edmilson.

Hoje, seu repertório mudou. Ele deixou de cantar as velhas e boas músicas populares para trazer suas próprias composições ao público. Em 2021, lançou o álbum “Janela para o Mundo”, que transformou o artista do povo em autor das próprias histórias. Entre suas músicas, encontramos o cotidiano traduzido de forma simples e autêntica, como em Moça Namoradeira, Serra da Goiana e O Casamento do Pobre. Nesta última, seu Edmilson canta:
“O casamento do pobre é uma história engraçada…
Só tem a noite e o dia, e o sereno da madrugada.”

Suas canções carregam a essência e a originalidade do nosso povo.

Para muitos, seu Edmilson é apenas um cego que fica na porta da igreja recolhendo trocados para sobreviver. Mas ele é muito mais que isso. Quem já parou para conversar com ele sabe que sua história não percorre linhas tão simples. O cego do centro é, na verdade, um patrimônio vivo de Maceió. Ele cativa a todos com sua alegria e mostra que o comércio da cidade é orgânico, pulsante e cheio de vida.

No palco improvisado das ruas, seu Edmilson consegue enxergar mais que nós. Enquanto nos perdemos em nossas angústias diárias, ele observa o todo. Focamos em pequenos problemas enquanto o tempo escorre como as águas de um rio, seguindo seu destino sem questionar.

E assim, o nosso patrimônio — o cego do Centro — nos convida a refletir: a simplicidade não nos impede de avançar na história ou deixar um legado. Seu exemplo nos inspira. Com alegria contagiante e sabedoria de vida, ele é como um Diógenes do século XX, que nos questiona sobre o que realmente importa.

Diógenes, o filósofo grego, ousou desafiar reis e cidadãos comuns. Diz-se que até Alexandre, o Grande, ao conhecê-lo, teria dito:
“Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.”

Assim como Diógenes, seu Edmilson nos mostra que a essência da vida está na simplicidade e nas conexões humanas. Não romantizo as dificuldades que ele enfrenta, mas reconheço a grandeza de sua trajetória.

Einstein, em 1922, escreveu uma reflexão que parece dialogar com a vida de seu Edmilson:
“Uma vida calma e modesta traz mais felicidade do que a busca incessante pelo sucesso, combinada com inquietação constante.”

Essas palavras, de um dos maiores gênios da humanidade, nos fazem pensar no verdadeiro valor da vida. Da mesma forma, o exemplo de seu Edmilson nos coloca em xeque, nos fazendo questionar o que priorizamos: posses materiais ou conexões interpessoais?

Para aqueles que acreditam que a cultura é apenas algo decorativo, aprendido em livros escolares, eu digo: a cultura é viva, orgânica e está ao nosso redor todos os dias. Basta parar e aprender com ela.

Vida longa ao seu Edmilson Mendes! Que seu som continue ecoando nos corredores do centro de Maceió, lembrando-nos do valor da simplicidade e da alegria.

E você, já teve alguma experiência com ele? Quer conhecer mais sobre sua obra?
Ouça seu CD.

Abraços, caros amigos leitores. Na próxima semana, nos encontraremos novamente!

Uma resposta

  1. Ótimo texto, parabéns. Edmilson é mesmo um Patrimônio Vivo de Maceió, só falta a prefeitura fazer justiça e reconhecer oficialmente.

  2. Puxa, que maravilhoso conhecer um pouco desse patrimônio humano de Maceió. Sempre passei por lá e admirei a resiliência dele, mas não conhecia a história.

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