quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h35

Uma transformação de percepção e sentimento da foto analógica à digital

A revelação do segredo queimado no filme, com as imagens penduradas em varais
Foto: TatoSales

O instante do click, momento em que a ordem mental é dada para fazer a mágica acontecer, o crime, o mergulho, o gesto, o olhar, o fundo, o primeiro plano, a luz. Na Era analógica, quando tínhamos na câmara apenas 36 poses para acontecer todo processo de substituir o filme, obrigava-nos a ter mais cautela e precisão com o flagrante, não podia ser antes, nem depois, a sensibilidade de percepção e sintonia com o equipamento fazia-nos um só. E a imagem era um segredo da memória.

Era preciso estudar cada quadro, às vezes em milionésimos de segundos, a iluminação, a abertura do diafragma e a velocidade do obturador, seja paisagem no campo, seja um retrato. Na fotografia digital, uma boa DSLR nos permite centenas de clicks contínuos, em um armazenamento para milhares, se cria um filme de clicks. Há possibilidade de percorrer toda ambiência, em todos os pontos e ângulos, sem o segredo da imagem, ela está ali, no visor, instantaneamente.

Havia o costume de se fazer “contato”, uma folha com todas as fotos do filme em miniatura, e ao observar alguns, me vieram à lembrança em cada momento daquele, meu posicionamento em cada uma das composições. Senti que era muito mais prazerosa a aura da sinergia da pessoa com o equipamento, o limite e os instantes acontecendo, tudo acontecendo, o mundo girando em sua frente e você só tem mais três chapas para queimar, mais três clicks. E aí?

E aí? O raciocínio segue a fazer mil e um estudos, perspectiva, contraste, desfoque, quadro, olhar, olhar, olhar e ver, descobrir o posicionamento e o instante, sempre o instante, por isso também são chamados de instantâneos, desde o daguerreótipo, as fotos, o papel, a revelação. O momento de revelar o segredo do olhar, a química na ampliação da imagem, na sala escura, mergulhando o papel ‘queimado’, a magia da prata sendo revelada, nas bandejas com as soluções. Depois, pendurado no varal.

Na comparação analógica x digital, a inteligência artificial intercepta a leitura e a concepção do equilíbrio, com interseções em partes, como clarear o que está queimado e escurecer a outra parte estourada, precisão de cores, foco, profundidade de campo. A integração com a câmara fica mais frouxa, menos tensa, e o pior é que hoje, com praticamente todos, toda humanidade que nos rodeia, com celulares altamente capacitados pela IA. Confesso ter perdido um pouco do romantismo com a fotografia.

Respostas de 4

  1. Querido Luís , também concordo com você, a fotografia analógica vai ser sempre mais romântica, por isso que nunca olho pela telinha e sim pelo ‘view finder’ para continuar dentro do meu mundo fotográfico só usando a tela para composição quando tenho que colocar a câmera em posições que meu olho não alcança! Gosto da instanteidade da digital, pois prefiro que a foto sai quase pronta para não ter que fazer edições drásticas!
    Quanto aos celulares, sim, são boas câmeras, com dispositivos que ajudam bastante, porém ninguém sabe usar os dispositivos e as fotos já saem todas com filtro…
    Adorei sua matéria, assunto que amo!

  2. Meu amigo Lutello Lima, folgo em te ver neste ensaio onde o debate psicológico entre o passado e o presente. Tenho esse debate quando tenho que escolher entre o vinil e os streamings, entre kindle e o livro físico e nessa mesma percepção ante a fotografia analógica e a digital tenho com os livros físicos, seu cheiro, a capa, a textura, e todo conjunto da obra. Parabéns pelo texto e pela confirmação que nossa existência está tanto no passado como no presente. Abrs meu Brother!!

    1. Beleza, Marinho. É isso aí. Essas escolhas nos torna mais críticos, pois refletir, penso, a evolução e os espectros abandonados do passado, nos permite análises existenciais, práticas, da realidade diante o sinistro futuro. Navegar é preciso, sempre. Abraço

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