quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 05h59

Enquanto, amáveis leitores, fazemos o convite para um “Passeio Arquigrafico”, destrinchamos o que é necessário: roupas confortáveis, lápis e molesquine, cantil com lancheira e um olhar arguto, disposto a enxergar o que está ocultado.

Vamos escrever esse ensaio com a ortografia das construções, será possível nos fazer compreender? Que escrita é essa? Das predileções ou dos tempos? De memórias ou das tantas histórias?
Vamos decifrar o dialeto do construído e os repertórios das épocas.

Se a cidade for a soma de suas arquiteturas, e nem sempre é, como contará a sua história ? história essa registrada com o legado em material bruto, rígido como pedras, tijolos, ferro, concreto, madeira, aço e vidro. Em muitas situações, construções anteriores deram e continuam a dar lugar a novas edificações. Em muitos casos prédios antigos receberam tantos desenhos atualizantes a cada década em contínuo palimpsesto, num reescrever recorrente. O que nos conta essas redações, verdadeiras crônicas concretas, operosos urbaNAUTAS? Que os gostos superam os gostos anteriores? Que os modismos são levados em conta para reforçar o descaso com história e cultura? Que não há apego pelo que é nosso?
Que o bom gosto e o bom senso deixaram de grassar? Que não há régua e compasso nas mensagens arquigravadas? Que sucessivas descaracterizações conferem perdas irrecuperáveis ao conjunto? Que se quebra a unidade?

Na poeira de escombros recentes veremos os soluços dos vultos ultrapassados (anteriormente vultos do nosso passado). Nas novas composições veremos o futuro, ou apenas a tentativa inócua de reter o presente que já se vai amanhã, transformado em passado recente. Vazio de histórias, esvaziado de conteúdo, seco de emoções e deserto de fatos relevantes. Condenar ao simplório tudo que não trás o tesouro do pertencimento.
Interessante verificar que países antigos receberam e vendem seu acervo da arquitetura permanente da escrita arquitetural de cada época em harmônica combinação encimada pelo respeito aos bens edificados, para nativos, visitantes e turistas. Alcançaremos o tempo em que esse exemplo será incorporado ou já não teremos esses exemplares construtivos de pé?

Maceió, Das Alagoas,
terça feira, 18 de junho de 2024

Ensaio dedicado aos Arquitetos e Urbanistas de outrora.

Fotos: RCF
Texto: RCF

Respostas de 11

  1. Replico o comentário informativo do amigo Cícero Soares, com afetuoso agradecimento;

    “[18/6 15:00] Cícero Soares:Muito bom Robertinho, sobrevivendo na rua do Comércio, prédio do antigo Hotel Majestic, lá no alto seu último andar e na esquina com rua Ladislau Neto antigo prédio da Casa dos Estudantes Secundário de Alagoas . Boas lembranças
    [18/6 15:02] Cícero Soares: Segunda e quarta fotos!”

  2. Replico o comentário informativo do amigo Cícero Soares, com afetuoso agradecimento;

    “[18/6 15:00] Cícero Soares:Muito bom Robertinho, sobrevivendo na rua do Comércio, prédio do antigo Hotel Magestic, lá no alto seu último andar e na esquina com rua Ladislau Neto antigo prédio da Casa dos Estudantes Secundário de Alagoas . Boas lembranças
    [18/6 15:02] Cícero Soares: Segunda e quarta fotos!”

  3. Recebi via whatsapp e aqui publico com atencioso agradecimento, o comentário recebido do engenheiro e pintor alagoano, Lula Nogueira:

    “[18/6 15:47] Lula Nogueira: No meio da tragédia urbana .. vc é a centelha de esperança ..que algo ainda pode mudar…🙏
    [18/6 18:22] Lula Nogueira: É verdade mesmo…Paulo freire fala isso.

    Obrigado meu estimado companheiro pelo incentivo generoso, abraço fraterno e forte!

  4. É verdade, vejo a identidade da cidade através de suas construções e a harmonia entre o novo e o velho. Londres, Paris, Roma e até mesmo as pequenas cidades de ilha de Gozo em Malta mostram essa harmonia, porém a que mais me impressionou foi Nápoles com suas fachadas antigas e mal cuidadas, porém assim que se entra nota-se a diferença, o cuidado e a modernização … o povo napolitano é um povo bem relaxado, e todo mundo é louco (pelo menos foi o que senti), mas a loucura de deixar os prédios parecerem estar desmoronando do lado de fora mostra bem esse comportamento desleixado das pessoas do lugar…. 🤣 como seria bom que no Brasil se tomasse consciência disso! xx😘

    1. Essas observações, Aída, corroboram e muitos com os aspectos que o urbaNAUTA visa manter em alta visibilidade, educar os olhares ( e os outros sentidos, por que não?) para o que tenhamos deixado de atentar, por ver tanto, que ficamos distantes e letárgicos. Nossas grafias arquitetônicas materializadas necessitam ter seu valor reconhecido e muito bem reconduzido a escala máxima da identidade celebrada.

  5. Um passado que se esquece? Não me parece uma alternativa viável. Uma história contada pelos detalhes arquitetônicos, sugere um amadurecimento de um povo. Valorizando épocas de glória e construção de uma identidade… aguçando a memória para dias que se foram. Não menos importantes que os vindouros. Vivemos esse dilema… como enfatiza RCF, uma tentativa de apresentar um presente, que amanhã já será um passado, recente, vazio, assim como o peito daqueles que dominam o tempos modernos… onde o objetivo principal é o capitalismo desenfreado, com suas mazelas. Porque não preservar? As memórias de nossos antepassados! Todo um conjunto de experiências e legados… lembranças agradáveis. Abraço fraterno

    1. Exatamente como afirmado pelo dileto Eduardo Rocha, amigo urbaNAUTA, a necessidade vital dos ecos do passado que se transformam em consolidadas ideias de futuro, somos nós que para construir o futuro, no presente, empenhamos nossas vidas, como já afirmou Simone Weill.
      É o nosso jeito de ser que trará o melhor para se estar. Tratar com o respeito merecido é ponto primordial para a reflexão referenciada.
      Abraço fraterno e forte, mestre Eduardo!

  6. O patrimônio arquitetônico conta a história de uma sociedade e é composto de edifícios, na sua maioria representativos, que se destacam por seus espaços, formas, estilos, ciclo de construção, técnicas construtivas utilizadas, entre outros aspectos fundamentais, para ajudar a contar a nossa história e termos uma melhor compreensão espaço-temporal, importante esse vislumbre de nossa arquitetura, mormente quando é de nossa cultura a alienação de nossos ancestrais, parabéns pelo brilhante ensaio, forte abraço!

    1. Obrigado pela complementação muito significativa da ideia aqui apresentada, Pinheiro Junior, é exatamente esse comportamento dormente que nos distancia do que nos originou, que pode, invariavelmente, fomentar a falta de amor próprio e até a baixa
      auto – estima que parece, parece, grassar entre muitos. Há recorrentemente o desuso de se transmitir o que próprio de nossa sorte e modo de ser para os mais jovens. Vamos na direção em que fazer grassar os nossos valores sagrados de outrora sejam a força motriz das criações futuras! Obrigado meu irmão, fraterno e forte abraço!

  7. Quando o historiador e geógrafo Heródoto em sua célebre frase ” Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”, deixou muito claro sua intenção em incutir nos cidadãos a necessidade da preservação e manutenção da cultura arquitetônica das cidades. A construção da cidadania e consequentemente sua identidade vem da existência da cultura que nada mais é do que o conjunto de vivências presentes na arquitetura, nos costumes , gastronomia , música, danças e tantas outras manifestações que agrega a identidade de um povo. Parabéns mais uma vez por nós agraciar logo pela aurora um texto que nós faz pensar e enxergar a nossa realidade diante do descaso e ignorância daquelas que desconhece Heródoto. Grande abraço

    1. Quem agradece, e muito, amigo Mário, sou eu, por você trazer no frescor da aurora, um comentário tão bonito e que deixa-me emocional. O grande vulto da antiguidade, Heródoto, um gigante no pensar, que nos ajuda até esses nossos dias a formular a linha de pensamento que também inclue o pernambucano Aloísio de Magalhães, já encantado.
      É da lavra de Aloísio a frase luminar: “Devemos tratar nossa relação com o passado, da mesma forma que uma criança, faz com a peteca ( atiradeira ou baleadeira); quanto mais para trás se distende a pedra, mais para frente esta alcança.”
      É primordial esse resgate / lançamento.
      Penso sobre o tempo e como percorrer a pé ou de bicicleta, faz ater-mos ao essencial. O tempo do carro é a velocidade que tudo dissipa. Que possamos sorver as memórias que construimos e que delas somos construídos como primazia de cada existência. Obrigado pelo comentário valioso. Abraço fraterno e forte.

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