quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h28

DE PONTE A PONTE ESSE É O PONTO

Foto: Roberto C. Farias
Céu de manhã de julho refletido no Rio Maceió

Arquiteto e Urbanista de vivência e formação, não sou memorialista ou nostálgico entretanto, aprendi com Aloísio Magalhães, vulto pernambucano, que o necessário culto ao passado tem como metáfora o rudimentar estilingue (peteca, baleadeira, atiradeira): quanto mais para trás se distende a pedra mais para frente se alcança. Deixando de lado a balística. Os tempos idos são fonte de informação preciosa para futuras gerações, aplicações e conquistas.
Foto: Roberto C. Farias
Estilos se coadunam em linhas e contrastam com o tráfego pesado e lento


É pensando no que disse Simone Weill:
“desperdiçamos o passado como um rapazinho despedaça uma flor (bem me quer, mal me quer; (enxerto nosso)), o futuro não nos dá nada, não nos trás nada, somos nós que para fazê-lo acontecer damos tudo a ele nossa luta, nosso sangue e nossas vidas, não temos nada mais sagrado a oferecer que nossos valores ancestrais”.
Vamos navegar rápido amigos urbanautas, vamos surfar as ondas possíveis em roteiros conhecidos e descobrir com os sentidos aguçados para novas experimentações, oportunidades e outras trajetórias. O Centro nunca voltará a ser o que era e nem como foi. Não é premissa nossa e essa imagem não se mira em nosso retrovisor.

Foto: Roberto C. Farias
Balaústres nonagenários na Ponte dos Fonseca


O bairro do Centro de Maceió é nosso objeto de apreensão, nosso recorte e nosso foco. Como em toda viagem há planejamento e a delimitação territorial no Centro tem claramente definidos seus limites e suas articulações entre bairros (entre cidades denominado conurbação), todavia alguns elementos geográficos como corpos hídricos limitantes e o ângulo entre os dois corpos líquidos, podem tornar pitoresco seu desenho: o Rio Maceió (Reginaldo Rego Pitanga Salgadinho) e seu desague no suserano Oceano Atlântico (praia da Avenida da Paz).

Foto: Roberto C. Farias
Vista da ponte a silhueta do cais do porto


Neste julho tão molhado pelas águas pluviais vamos caminhar por calçadas úmidas de uma ponte a outra ponte em breve trecho em observância face a algumas comparações e dicotomias, face aos usos e desusos; faces de um possível confronto do antigo, do moderno e do agora contemporâneo. Facejando aos costumes e ao acostumar-se face a face aos inúmeros olhares que podemos lançar e mais ainda: o que deixamos de ver.
Repetindo o antropólogo, nos disse o poeta: “cego de tanto ver”. É a praia da Avenida, e que outra cidade turística tem uma praia no Centro? Uma jóia. Adornada por um porto, preenchida pela espuma de suas ondas no fluir e refluir das marés, conquistada por pescadores, navegantes, futebolistas e caminhantes. A praia que já teve paginação de calçadas tal Copacabana, recebeu os primeiros prédios de apartamentos, praia destino da juventude, dos desfiles de setembro o 7 e o 16, do corso, do carnaval, do banho de mar à fantasia, dos golfinhos e frondosas amendoeiras.
A praia da Avenida com seu “Sunset Boulevard” um lugar belíssimo para se assistir o pôr do sol dividindo um sorvete ou barra de chocolate com a melhor companhia, clama há muitas décadas pela necessidade de uma Marina e muito mais ainda pela despoluição que já tarda.

Foto: Roberto C. Farias
Horizonte da Praia da Avenida em horário comercial


Haveremos de ter cuidado para que o sentimentalismo das lembranças não nos faça afogar em doces atitudes letárgicas da nostalgia ao invés da aplicação bem sucedida das razoáveis dose de bom senso possíveis de aplacar e conter o desprezível acúmulo de prejuízos e fracassos ambientais, obtuários arquitetônicos, urbanísticos e de outros notáveis bens culturais.
De 2004 a 2018 por intensos 14 anos ocupei sala comercial no número 1326 da Avenida da Paz. Nosso escritório de Arquitetura e Urbanismo ali funcionou ao lado do Rio e de frente para o mar. E, embora houvesse me banhado nos dois corpos líquidos, salgado e salobro, na infância não pude fazê-lo durante essa década e pouco de vizinhança e convívio. Só a contemplação diária não me satisfazia. Fugia a minha razão, controle e mais ainda a minha compreensão entender o porquê de hotéis tão magníficos: Luxor e Beira Mar e do histórico Hotel Atlântico dos Miranda terem fechado. Suas arquiteturas sobrevivem em novos usos para a justiça. E o antigo vive como ruína.
Houve no final da década de 40 do passado século XX uma verdadeira cirurgia urbanística para mudança do exultório do Rio. Antes próximo a Praia do Sobral (onde um dos limites do Centro deixa o Atlântico para dirigir-se a Laguna Mundaú) a foz foi retificada trazendo novas áreas ocupadas com construções e distanciando a Rua da Praia do apicum, dos mangues, coqueiros e miasmas. O que tapa o alagadiço sendo feito pela mão do homem. Maçaiok.

Foto: Roberto C. Farias
Atlanta a suportar carga da sacada


Volvemos ao roteiro!
Caminhar pelas calçadas banhadas pela chuva de julho é perceber as construções que contemplam o mar e nos oferecem o anteparo visual. Lotes em sua maioria estreitos na testada e longos em profundidade do inegável passado colonial. Gabaritos que não ultrapassam a altura de sobrados. Outros há maiores e uma exceção. Todos com fachadas em sucessivas reformas, em parte pela mudança de usos, em parte pelas mudanças de gosto. Porém alguns registros de época nos alcançam em nossos dias é incrível perceber que a ponte moderna do salgadinho tem um palacete como vizinho e a ponte antiga dos Fonseca onde o rio não mais meandra em seu percurso original aterrado como foi tem por vizinho uma construção modernista. O leito antigo da passagem do rio onde ficavam os quintais das casas de frente ao mar é Rua. Qual a impressão que você tem colega urbanauta desse breve recorte?
Consegue perceber o afastamento cuidadoso e necessário da praia? Uma imensa e segura faixa de areia seguida depois pela vegetação de fixação para enfrentamento dos ventos Sudeste e Nordeste?
Consegue colocar o desnível como patamar de defesa?
As vias com canteiro vegetado no meio?
Consegue visualizar o Rio do passado fazendo curso onde não mais existe leito?
E as construções comerciais que a noite parecem também dormir, plenas de movimento no horário de funcionamento fazem ativar que tipo de sentimento?
Nossa Arquigrafia de cada dia provoca quais sentidos?
Ou apenas está na moda supor que certos referenciais podem favorecer a criação de modelos mais consistentes, resilientes e promotores de uma realidade coletiva mais duradoura?

RCF. 11 de julho de 2023.

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