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Leitores amigos, todos fazemos parte de alguma instituição, colegiado, comunidade, sociedade, clube, família ou afim. Somos então iguais aos elos de uma corrente, irmanados na igualdade do objetivo comum. Todos pertencemos.
E é sobre pertencimento que gostaríamos de falar* .

Essa forma metafórica de descrever a humanidade e suas cadeias, produtiva ou alimentar, mote propulsor para o mais longe alcançar coletivo, é um espelhamento do comportamento que sabiamente a natureza adota e de modo didático atravessa os tempos. O trabalho corporativo e incessante das abelhas, bem como das formigas. Embora diametralmente opostos.
As precisas técnicas de caça que os predadores utilizam em solitário ou com matilhas e cardumes, a nós reveladas por olhos atentos, câmaras de alta resolução e pesquisas exaustivas. Tamanha a variedade das lições perpetuadas por espécies ou espécimes, pois a força coletiva das plantas é também sentida e demonstrada pelas comunicações de raízes ou folhas, em pulsos elétricos tal qual as sinapses. Seja alertas da proximidade de um incêndio ou a entrada de um elemento intruso ao meio, é informação passada de ser a ser e tentativas de contenção ou dissipação são imediatamente colocadas em prática. Extremamente fabuloso.

No Centro é assim. Como assim?
Experimentemos, leitores vencedores, observar o que acontece na labuta diária da área Central, onde a Maceió nasceu. Vamos tentar, queridos urbaNAUTAS, de longe a percepção do que escapa aos olhares mais atentos. Saber ver! Ao chegarmos ao Centro antes do comércio abrir, independente do dia, da segunda feira ao sábado, excetuando o fechamento aos domingos, veremos que há um movimento grande mesmo com as lojas fechadas: os trabalhadores já chegaram e estão em pleno desjejum tomado em carrinhos ou com outros tipos de ambulantes, de bicicletas a vendedores a pé: saladas de frutas, cafés, sucos, pastéis, sanduíches, tapiocas, bolos e beijus, dentre uma variedade grande de produtos alimentícios. É uma festa!

E paulatinamente, do mesmo jeito manso que chegaram, os vendedores de alimentação se dispersam em direção aos seus roteiros sequenciais para mais assistência ao seu público e clientela fiéis.
Com as necessidades presentes e a premência da sobrevivência, o modo criativo e o jeito nordestino de ser para “descolar o troco” faz surgir uma grande gama de elos para essa fortalecida cadeia produtiva. Formalizada e de modo informal. Os espaços são disputadíssimos. Não há vacância espacial. Alguns são volantes. Muitos estendem ramificações com sócios, parentela e amigos amiúde necessidade.

Há produtos chineses onde já houve paraguaios. Há uma nova e grande proporção de imigrantes, ou imigrados.
Há o trânsito de carga e descarga por carrinhos e carrocinhas em todos os horários. Há colaboradores sedentos e suados. Há fretes e carregos como no mercado. Só não vimos ainda a Kombi do Mercado Livre.
Há ofertas para comprar ouro e vendas de artigos para celulares e eletrônicos. Há panfletagem. Consultas para colocar óculos e prótese dental. Há música, microfonia e pregões. Intensa atividade para o pão de cada dia. Doceiros e frutas exóticas com receitas de juventude e prolongamento da existência. Alguma jogatina e engodo há.
Não há preguiça, marasmo ou falta de inventividade. Seria herança dos mascates, quando Alagoas era Pernambuco?

Desfilarão sob o sol de cada dia, famílias inteiras. Que interessante: os que querem, precisam (compradores) e os que ofertam, têm e negociam (vendedores). Se regateia, se desconta, se regala, se satisfaz.
O Centro é o anfiteatro de ruas entrecortadas e quadras esconsas. Até uma diagonal nós vemos: a Rua Nova.
As interseções geralmente nos oferecem prédios esquinados com arredondado feitio, gentil modo de oferecer contorno. Belos abaulamentos espaciais. Coisa dos antigos.

E por falar em cadeia… que destino impiedoso atingiu o prédio que malgrado cumpriu a função de penitenciária central, que também teve suas linhas engendradas e falta faz. Enquanto em outras capitais os prédios afins foram convertidos em pavilhões da cultura, da arte e do artesanato, o daqui foi ao chão arruinado e demolido, cedeu vez a praça da independência que abriga um saturado, escuro, mal elaborado e pouco atrativo “shopping” de camelôs. Sem charme, sem marketing, sem perspectiva, sem personalidade e sem força. Descomunal. Um elefante branco ou uma baleia branca?

Ao finalizar esse ensaio, não podemos deixar passar incólume a oportunidade de registrar o aportamento em plena praia rasa de arrecifes nas areias que pertenceram ao coqueiro tão decantado Gogó da Ema, de uma enorme baleia jubarte, no último domingo. O estupendo animal pouco comum aos banhistas, mas bem avistado e reconhecido por muitos pescadores, chegou sem vida empurrada pela força viva das marés. Encalhada, a carcaça teve destino pouco nobre. É um ponto importante considerar que ações conjuntas e veículos apropriados tal qual rebocadores poderiam ter levado o considerável corpo do mamífero aquático para a área do cais do Porto, onde especialistas trabalhariam na remoção da gordura e carne, alimentando aves e peixes e transformariam o grande esqueleto em adequada visitação para estudiosos, citadinos e visitantes. Pensemos agora que uma cidade litorânea deve se preparar até para surpresas pouco usuais como esta.

Maceió das Alagoas,
terça feira,
26 de setembro de 2023
RCF.
Texto e fotos
urbaNAUTA XVI






























Respostas de 4
Obrigado, querida amiga, pela atenciosa maneira de se referir.
Sobretudo pela contribuição no comentário! Beijo apertado.
Querido amigo,
Eu estou achando que fiquei louca de vez, pois tinha certeza que tinha comentado aqui…
Fiquei tentando lembrar o que tinha ali na praça da cadeia antes do deprimente camelódromo e realmente não consigo lembrar… uma área abandonada, com sua dignidade esquecida, tal qual a baleia que foi jogada ao lixo e já esquecida por uma sociedade imediatista e sem visão! Como sempre uma leitura deliciosa! 😘
A intenção desta série de urbaNAUTA, Eduardo, é exatamente sensibilizar ou provocar comportamentos de busca da satisfação autêntica ou não. Dependendo para isso de nossas atitudes, fatores mentais e motivação. Saber que o estimado amigo vai ao Centro com outro olhar mais atento é motivo de regojizo mútuo. Vossos comentários são de intensa colaboração nesse espaço momento. Muito agradeço e retribuo a honrosa felicidade de tê-lo como amigo. Abraço fraterno.
Já com visitas pouco corriqueiras ao centro, devido aos shoppings e comércios bairristas…coisas do futuro presente, me permito confirmar toda a percepção do colunista. Corroborando com sua visão tão aguçada me vejo na dita realidade ainda presente… mais do que nunca… um suco ou um caldo de cana… bolos ou pés de moleque… bem ali nos arredores do antigo, mas ainda explorado edifício Breda… como ele mesmo cita, um lugar de negócios ainda que seja permitida a jogatina… o engodo… que certamente estão por ali vagando incessantemente. Quanto ao majestoso mamífero, quem dera tivesse destino honroso e aproveitável. Que mente prodigiosa. Muito me honra tua amizade…🙌👏👏👏👏👏