quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h33

ENTRE A SEDUÇÃO E A SERENIDADE

Quando saímos à rua, para caminhar, estaremos sempre a um passo da serenidade ou da sedução, explico:

Caminhar faz tão bem, fato notório, mais ainda se, formos surpreendidos. Nos movimentamos dentro de arquiteturas, ou ainda, dentro das espacialidades que estas arquiteturas somadas, provocam, permitem, oferecem. Meus passos pisam na Rua do Macena, meus olhos passeiam na Rua da Aurora, na Rua do Sol, Na Rua da Boavista, Na Rua da Alegria. Meus ouvidos transitam pregões, anúncios, chamamentos, assobios, cânticos, sinos, batuques, pandeiros e a língua ritmada de emboladores.

Na Rua do Comércio, no Beco do Marabá, no Beco do Moeda, no Beco São José, no Rosário. As narinas se fartam e recordam, na Rua do Alecrim, na Rua dos Cravos, nas feiras e nos mercados. Minha língua estala e enche d’água minha boca: Rua do Açougue, Rua da Estação, Caldo de cana caiana, suco de caju, cajá, maracujá, jaboticaba, água de coco. Rua Nova. Pegando sol na Rua da Praia. Andar é tato, tateio o chão que meus antepassados pisaram. Meus descendentes por aí passarão, sentindo cheiros, cantarolando sons, ladeira da Boa Vista, observando o que restar ainda dos traços estilísticos de nossa cultura registrado em pedra, tijolo, cimento, madeira, ferro, vidro, telhas, esquadrias. Ideias internalizadas. Assomadas do passado, impulsionadoras do futuro. Desaparecidas, refeitas, reformadas, resumidas.

Vou caminhar e minha mãe diz: cuidado! A placa diz: Atenção! Minha mulher fala: volte logo! Meus filhos pedem para ir. O semáforo é capaz de me fazer estancar, esperar e seguir. Meus passos me levam adiante de brisas e calor, atravesso, percorro, perpasso, ando e corro. Lembrando histórias do holandês, do afro, do português, do índio, do inglês, do oriental, do alemão, do libanês e de outros traços. Assombrações, sustos, evocações e lendas. Em cada prédio imperiosos riscos e ritos de cada cultura, interior de novas recordações. Miscigenados.

Estou por aqui. Sou. Eu sou. Aqui estou. Sou trabalhador e circulo; sou cocada, coco catolé, siri de coral, patas de Uçá, sou câmara, lagostim e sou Gojá, castanha, amendoim. Lapada de cachaça de cabeça, sarapatel, caldinho, mocotó, cozido e goles de cervejas estupidamente geladas. Caldo de cana, refresco de cajá. Cavaco. Doce de figo, de jaca, de cajus, de banana, de goiaba e queijo do sertão. Milho verde, milho assado e cozinhado, mungunzá, canjica e pamonhas e bolos. Sorvete de coco, de limão. Licor de jenipapo, café e a saideira. Nas terras da gente. Gente é o chão nosso. Nossa gente caminha silenciosa com a gente. Caminhar é pra frente. Pés de valsa, corredores, Podo táctil. É salto, corrida, topada e escorrêgo.

Atravessei muitos caminhos, com eles varei recordações. Vislumbres, misturas de tempos. Estou por aqui, por aqui passo. Passarás também, passei. Atmosferas. Arquitetura marca o tempo, quando descaracterizada marca nada. Enjoa e descativa. Atravesso e sou atravessado, cantarolando sons do dia de Prazeres, “em cada prédio, traços de uma cultura, interior das nossas recordações” é suor, é sangue, das brenhas e do interior, dos cafundós do mundo, tudo isso, eu sou. Sou eu. Os passos fazem ecoar em mim o que sou. Caminhar trás certezas. Constatações. Faz existir, pensar.

Vaguear…! Ensina justiça ao mundo furta cor, em certa altura da jornada, salta-se na compaixão. Nada me falta, vejo semelhantes com caridade nas coisas que me rodeiam, soam emoções e há beleza nisso tudo, ser tocado é bonito! Você fez sua esmola hoje? O caminho trás retorno, certamente é o que se diz, querendo estar sempre em movimento. As coisas pesam-me. E, obviamente trazem minha libertação. Vem a mim os exemplos nostálgicos e a lentidão compassada de pensamentos novos com o brilho reluzente das sabedorias antigas. Estanco! Parado, acho que cheguei.

Maceió das Alagoas,
terça feira, 30 de janeiro de 2024

Dedicado ao Leonardo Leão Farias, no dia de seu 4° aniversário, grande companheiro: muita saúde, alegrias, conhecimentos e muitos anos de vida! São os votos de seu Papai.

Foto: RCF
Texto: RCF

Respostas de 8

    1. Caminhamos juntos, amiga
      Você daí
      Eu, de cá
      Como gosto de vosso escrevinhar
      Vou contigo, no seu roteiro
      Eu, de cá
      Você, daí
      No compasso passageiro
      Do saboroso sorvete de cajá
      Amiga querida
      Tesouro da minha vida
      Obrigado, por ser você, Aída!😘

  1. Excelente texto, onde RCF nos mostra mais uma vez, sua veia poética, desfilando, por entre ruas e becos, paisagens e monumentos arquitetônicos, transeuntes, e mais uma gama de elementos, de maneira totalmente sensorial. Parabéns 👏👏👏👏👏👏

    1. Obrigado, Eduardo Rocha, por se fazer presente em nossa caminhada, neste “breve roteiro sentimental” que nossa cidade pode ainda proporcionar. Abraço fraterno.

  2. Publico aqui o comentário reflexivo e poético da Arquiteta Élvia Barbosa, com minha atenção grata;

    “Nosso rastro deixado marcado no tempo sera um caminho que nunca mais sera trilhado mas um mapa de vida, de historias e de inspiração. Obrigada por fazer parte do meu caminho.”

    Abraço fraterno e agradeço bem.

  3. Agradeço muito o comentário enviado via Whatsapp pelo amigo Luiz Jardim:

    “Muito bom o texto “Entre a sedução… ” 👏👏👏👏👏👏”

    Abraço fraterno!

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