quinta-feira, 30 de abril de 2026 – 09h33

Monumentografia I

Foto: Roberto C. Farias

Há no ser humano essa necessidade voluptuosa de elaborar modos de aprisionar o tempo, fazendo registro de suas memórias seja em pedras, metais, telas ou letras. O tempo essa unidade de medida fugidia que nunca retrocede e só avança. Tempo ao tempo.

Monumentografia é um neologismo lançado pelo autor em busca da linguagem, tão cara aos humanos que a inventaram e cuja tradução aqui perseguida seja a do registro, demarcação capaz de fazer frente ao passar das gerações e das eras.

Amigos leitores, mais uma vez embarcaremos em nossa nau, a urbaNAUTA em breve percurso pela área central da cidade de Maceió, esse bairro do Centro que nos é caro e que tanto admiramos.
Espalhados em muitos lugares, adormecidos ou não, ao alcance da retina do transeunte ou desapercebido daquele que cegou porque tanto mirou estão os demarcadores das memórias, aqueles capazes de se fazerem atravessadores de eras e séculos. Materializados por mãos que já desapareceram cruzando portais para outras vidas.
Não buscamos polemizar, insistimos em dizer que a história é sempre narrada pelo interesse do que parece vencer no momento inicial e deverá ser contada e recontada por variadas óticas para que o conhecimento sempre seja ampliado de forma a nunca se limitar.

Foto: Roberto C. Farias

Passando a data das festividades da padroeira de Maceió, cuja procissão e encerramento se deram no último domingo 27 de agosto, onde a catedral é também consagrada a Nossa Senhora dos Prazeres. Uma Capital que tem os prazeres celebrados, no conceito católico são as sete maiores alegrias da mãe de Cristo. A escrita dessa monumental data, repetida todos os anos remonta ao final do século XVIII derivado da fé em Portugal. Essa manifestação do imaterial é muito significativa para nossa cidade e para o bairro onde se realiza, atraindo um público sempre crescente. Alguns termos presentes em nomes de ruas, ladeiras e logradouros também são de notório cunho religioso como Martírios e Livramento.

Foto: Roberto C. Farias

A coleção existente a céu aberto nos principais roteiros do Centro, precisa ser melhor acondicionada, são seus elementos capazes de revelar e oferecer ao caminhador determinado a observar e absorver as nuances mostradas através da pátina do tempo ou do desgaste natural dos materiais que teimam no enfrentamento das intempéries. Alocados próximos de alguma arquitetura ou ali posicionado bem no meio de algum largo imortalizando gestos, formas, semblantes, silhuetas, escritas, efemérides, datas e marcos temporais. Verdadeiros memoriais que trazem imbricados atmosferas de outras horas.

Foto: Roberto C. Farias

Exemplares de lapidação aperfeiçoadas comunicam a qualquer momento o instantâneo que o artista capturou e expressa a intenção de fazer passar para frente a posteridade. Umas hermas, uns bustos, duas ortostases, um equestre, e as estátuas figurativas em metal ou pedra remetem também ao tempo em que foram confeccionadas, com marcas individuais do cinzel do artista ou marcas particulares do fazer em equipe. Poucas conservam as assinaturas e mesmo as letras dos pedestais sumiram vandalizadas. Em algumas as letras marcaram sombras que podem possibilitar feitos, datas e até patrocinadores. Não sabemos dizer ainda o quanto estão corretamente dispostas a luz artificial noturna. Muitos desses vultos seguem desconhecidos das novíssimas gerações. E silentes avançam em seus destinos de resistências materiais ao tempo e imateriais conquanto ao fato histórico em si, seja de protagonismo, de mensagem e até mesmo objeto de propaganda de causas explícitas ou subliminares. Seguem existindo sob o sol e a chuva.

Foto: Roberto C. Farias

Muitos estão bem mal posicionados, ocupando o rés do chão sendo sujeitados a jatos de urina e de cuspe, ou inscritos de protesto que aviltam a condição do material e tornam a feiura parte do processo de descaso desrespeitoso. Tentativa torpe de redução do valor estético transferindo obsolescência a fruição, relegado a posição de neutralização que a ausência de uma posição de destaque parece deixar entregue. Tudo muito solto e ao “Deus dará”. Fotografias antigas trazem imagens com maior deferência e um comportamento mais condizente com o grau de civilidade que parecemos ter conquistado com as tecnologias e o consumo desta segunda década do atual século XXI.

Foto: Roberto C. Farias

É conveniente anotar nessa amigável prosa, inspirado leitor, que convivem com a estatutária do Centro, reforço da beleza, da aragem perfumada e do sombreamento as muitas espécies vegetais adultas cujos altaneiros portes traduzem em grande número o efeito genial do paisagismo adequado seja das árvores, dos arbustos e das forrações nas três dimensões que trazem a fruição e o deleite ao complementar de maneira aprazível e adequada ao nosso trópico. A Rua Augusta e seus oitizeiros exemplares é a beleza que devemos replicar em todos os bairros e em todas as cidades.

Foto: Roberto C. Farias

Então, caríssimos e letrados legentes de que modo nossos monumentos devem escrever nossa história; o que fomos, o que somos e o que seremos? Que grafia é essa adotada por vozes silenciosas que ecoam através das eras? Ouso tentar contar: cantaremos nosso chão, suor e sangue; exaltaremos nossa terra, nossa oca, nossa aldeia; nossos cânticos e hinos serão de maviosidade absoluta; nossas imagens a nossa imagem e semelhança. Nossa Fé o nosso estandarte da certeza que prenuncia o porvir. Glórias a nosso berço e aos nossos sagrados valores.

29 de agosto de 2023
RCF. Texto e fotos

urbaNAUTA

Respostas de 6

  1. Exatamente bem entendido, o alcance de vosso comentário expande o conceito da verdade x falso; do duradouro e perene x passageiro e efêmero! Como algumas ideias perpassam gerações enquanto a volatilidade do plástico é mesmo o lixo. Hora de assinalar didaticamente. Obrigado!

  2. Mais uma matéria desafiante pra mostrar que o centro foi minuciosamente pensado e demarcado com fé e história e arte e arquitetura! O triste desprezo dessa área só comprova que a plasticidade que hoje vigora à beira mar num futuro será apenas poluição, porém o verdadeiro sobrevive a tudo!
    Muito bom mesmo!

  3. Num pequeno tempo de leitura, podemos corroborar com o colunista em diversos aspectos. Da relevância do tema aqui apresentado, bem como da ignorância dos vândalos, que se atrevem a manchar e depredar nossos monumentos. Nesse texto, Roberto Farias se mostra totalmente conectado com a evolução dos tempos… busca uma harmonia naturalmente intrínseca aos fatos, visto que é necessária a conscientização dos habitantes locais e a preservação do patrimônio público. Patrimônio que nos agracia com sua beleza e história. Parabenizamos nosso amigo Roberto pelo exemplo de cidadania que nos mostra aqui…

    1. Agradeço muito a atenção prestimosa e de colocar a serviço tão pertinente comentário, Eduardo Rocha, o vosso modo assertivo muito enriquece a todos que se interessam em praticar o olhar arguto sobre nossa identidade. Obrigado pelo modo como você se expressa e explica!

  4. Obrigada por esta oportunidade de (re)conhecer o nosso riquíssimo centro da cidade, cheio da nossa história e ainda assim, muito menosprezado por nós que aqui nascemos e vivemos.
    Parabéns pelo texto.

    1. Obrigado pelo modo justo de vosso comentário. Ressignificar o Centro deverá ser o desafio comum a todos nós. Muito agradecido.

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