sábado, 16 de maio de 2026 – 03h18

Verdelinhos e comunidade Azul prestam tributo ao coco alagoano em show no Teatro de Arena

Homenagem a mestre Verdelinho resgata memória cultural e estabelece elo entre tradições do gênero musical e novas gerações de artistas locais
Foto: Lula Castello Branco / Agência NC
Grupo Verdelinho mantém o legado do pai e transmite as tradições da cultura popular às novas gerações Fotos: Lula Castello Branco / Agência NC

O coco alagoano esteve em festa neste domingo (11), no Teatro de Arena Sérgio Cardoso, em Maceió. Com o show “Encanto dos Passarinhos”, o grupo Verdelinhos e a comunidade Azul prestaram tributo às tradições populares numa homenagem a mestre Verdelinho, maior expoente alagoano do gênero musical.

Em cerca de 1h30 de apresentação, os músicos ofereceram ao público um repertório variado, que incluiu diversos quadros do coco alagoano, como rodas de trupé, de valsar, coco de embolada, de pé de parede e solto. Além de peças do Guerreiro, folguedo genuinamente alagoano ao qual mestre Verdelinho esteve ligado por formação e trajetória.

Composto pelos três filhos de mestre Verdelinho, Nildo, Geninho e Meire, a nora Íris e a neta Beatriz, o grupo Verdelinhos mantém parceria com a comunidade Azul – projeto social localizado na grota Poço Azul, no bairro do Antares. Nildo falou da relevância em realizar essa apresentação nos palcos do Teatro de Arena, anexo do Teatro Deodoro, onde o pai, mestre Verdelinho, trabalhou como vigilante por mais de 30 anos.

“Ave Maria! Ele já ficava besta de ver um só filho seguindo com ele. De ver Geninho, pequenininho, vazando a voz no microfone. Imagine ele vendo uma coisa linda dessa, nesse palco significativo do Teatro de Arena, no Teatro Deodoro. Aqui ele viveu metade da vida dele. Eu cresci nesse palco, brincando, correndo nesses corredores também. Tem muito significado, tinha que ser aqui, foi maravilhoso“, relatou Nildo.

Irmãos Verdelinhos, Geninho e Nildo, mantêm as tradições do coco alagoano na herança cultural herdada do pai 

A dimensão cultural do espetáculo também foi avaliada pelo filho do mestre Verdelinho, também hoje,  ele mesmo, mestre de coco alagoano. “Muito sigaificativo fazer este espetáculo, porque, pela primeira vez, nós tivemos a oportunidade de contar a história de mestre Verdelinho, que normalmente é contada por outros artistas e agora nós tivemos este espaço maior para trazer essas memórias, tratando deste elo que veio do mestre, passando pela minha mãe, por mim e meus irmão, e chegando ao pessoal que não deixa de ser, também, descendente de mestre Verdelinho. É esse elo, essa corrente, que vai desabrochar naquela menininha, na xodó, da comunidade Azul”, complementou.

O show contou com a participação especial de Dona Helena, esposa de mestre Verdelinho e matriarca da família, que apresentou duas peças do coco alagoano, uma delas de autoria própria. Também participaram, como convidados especiais, Jurandir Bozo, artista, cantor e compositor, no coco de embolada, e Telma César, professora e compositora, que interpretou o clássico “O Grande Poder”, música recebida por ela de presente do próprio mestre Verdelinho.

Dona Helena, a matriarca da família Verdelinho, comanda o espetáculo em homenagem ao mestre Verdelinho, expoente do coco alagoano

Jurandir Bozo entende que é preciso reforçar ainda mais o contato entre os grupos tradicionais de coco de roda e os movimentos das novas gerações. A exemplo da parceria entre os Verdelinhos e a comunidade Azul, que ele avalia como um processo isolado “uma curva fora do percurso”, uma vez que a comunidade Azul já trabalha com a cultura popular, para fomento à cidadania, por meio das fontes mais tradicionais.

“O exemplo desse espetáculo é, em síntese, o que a gente precisa, novas iniciativas, novas composições. Juliana Barreto compõe, Daniel Ginga compõe, Josenildo compõe. Se você tratar a cultura popular como uma peça de museu, meramente como folclore, como recorte num ponto da história que passou, você não vai se identificar com a juventude, a juventude não vai se identificar com você. Precisa se manter este traço identitário, manter o coco de trupé, contar as histórias, mas o discurso da poesia, a dialética da poesia, não pode falar como era falado há cem anos. Outras questões podem ser abordadas dentro da mesma estrutura poética como foram abordadas no passado. A gente não está mudando a estrutura da poesia, a gente está mudando o discurso da poesia”, afirmou Jurandir Bozo. 

No coco de embolada, Nildo e Jurandir Bozo fortalecem a cultura alagoana e renovam o legado de Mestre Verdelinho

Reforça ainda que é possível as novas gerações fazerem coco como se faz Rap nas batalhas, as chamadas “rinhas urbanas”. “A poesia não precisa ser desfeita, ela precisa ser feita com atualidade, dentro da estrutura que se criou. Se pegar um quarteto, um coco de amarração, vai continuar rimando a segunda com a quarta. Se perde a característica de novas composições como se perde a característica da improvisação, que hoje você vê nessas batalhas, que eles chamam rinhas urbanas do Rap. Se é possível os meninos fazerem Rap porque não é possível se fazer coco e continuar improvisando? Essa é a característica do cantador, que agregava a brincadeira e está se perdendo, o improviso, a capacidade de compor, de fazer poesia. Levar estes mestres para brincar com estes meninos”, finalizou.

O espetáculo “Encanto dos Passarinhos” foi promovido mediante recurso de edital público, numa idealização coletiva, que envolveu, além do grupo Verdelinhos e a da comunidade Azul, a direção cênica de Gessica Geysa, direção de palco e cenografia de Arnaud Borges, produção executiva de Nicolle Freire, figurino de Maria de Araújo. No elenco, Nildo Verdelinho, Íris Verdelinho, Geninho Verdelinho, Meire Verdelinho, Bia Verdelinha, Daniel Ginga, Juliana Barretto, Isac Molinha, Wellington Lobinho, Emily Rapunzel, Clarinha Bem-te-vi, Bia Espoleta, Vitória Xodó, Daniel Gavião e Guilherme Topete.  

Juliana Barreto, no comando da garotada da comunidade Azul, enaltece a cultura alagoana

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