quarta-feira, 22 de abril de 2026 – 09h27

50 anos depois, as meninas brilham, da Capitã Adelaide à Rainha Marta

Conheça a história da Capitã Adelaide, pioneira do futebol feminino amador em Maceió, que morreu cedo, mas deixou um legado de resiliência e um nome gravado no esporte alagoano
Foto: Lula Castello Branco / Agência NC
Craques alagoanas à frente de seu tempo e na frente da bola Foto: Lula Castello Branco / Agência Poemídia

Ricardo Rodrigues / Especial para o Notícias do Centro

Cerca de 50 anos separam o gol da Adelaide, que deu o título de campeão ao Cruzeiro da Pajuçara no torneio do Campo do Apolo em 1973, da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo Feminina, nesta segunda-feira, 24 de julho de 2023. Naquela época, início dos anos70, o futebol feminino engatinhava no Brasil. Hoje, as meninas do Brasil correm em campo, fazem gols, derrotam grandes adversárias, dão espetáculo e conquistam títulos.
Na estreia, em Adelaide, na Austrália, do outro lado do mundo, com as atacantes alagoanas Marta e Geisy em campo, a Seleção Brasileira venceu a Seleção do Panamá por 4 a 0. Com a vitória de goleada, as meninas do Brasil saem na frente das concorrentes, pelo Grupo F. Ao todo, 32 equipes disputam a Copa do Mundo Feminina da Fifa, que começou com uma atacante brasileira, Ary Borges, como artilheira, com três gols.
Cinco décadas antes, era a nossa Capitã Adelaide quem fazia um gol histórico, pelo Cruzeiro da Pajuçara, bairro onde ela morava na Rua Elísio de Carvalho. Um gol de menina, quando o futebol era proibido para mulheres. Embora fosse menina, Adelaide se vestia como menino, sempre de macacão jeans, com camiseta por dentro, boné e tênis surrado. Era branca, alta, magricela, tinha o cabelo curto e franjas.


ORIGEM HUMILDE


Adelaide era filha de um pescador com uma dona de casa, tinha dois irmãos: Clovis e Meia Lua (que sofria de retardo mental). Morreu nova, antes de completar 18 anos, por isso é pouco lembrada e quase desconhecida entre os desportistas alagoanos.
Ela ganhou espaço no time jogando com os meninos, na rua de barro e com o golzinho pequeno. Tipo um campeonato famoso conhecido como Golzinho da Galícia, em Salvador na Bahia, destaque do programa Esporte Espetacular, no último domingo. Em Maceió, o melhor “racha” era na rua Ouvidor Batalha. Os moradores da vizinhança se cotizavam e apostavam nos times que se destacavam, entre eles o Cruzeiro, da Capitã Adelaide.
O nome do time dela surgiu da facilidade de pintar as cinco estrelas do Cruzeiro do Sul, que formam o escudo do escrete mineiro. Foi nele, no estrelato da capital alagoana que Adelaide brilhou, apenas das limitações impostas ao futebol feminino. Afinal, somente uma década depois, em 1983 os torcedores puderam assistir um jogo de duas equipes femininas, as seleções de Rio e São Paulo, se enfrentando no Pacaembu.


ERA MARTA


Uma década depois, em 1993, Marta dava início a seu reinado na Seleção, desbravando o caminho para outras atletas. A exemplo da nossa Rainha, a Capitã Adelaide também foi desbravadora, pioneira, vencedora e guerreira. Foi dela o gol do título do Cruzeiro da Pajuçara, na conquista do troféu de 1973. Um título inédito, conquistado por ela e seus companheiros do estrelato da Rua Ouvidor Batalha.
Era lá, nessa rua, que liga o Cemitério de Jaraguá aos fundos do campo de CRB, que a gente jogava, treinava e enfrentava equipes de outras ruas de Maceió. Era lá, na Ouvidor Batalha, onde ficava a sede do nosso Cruzeiro – o único da região que tinha uma menina no time campeão.


QUASE BARRADA


Adelaide quase não entrou em campo para disputar o torneio de 1973, no Campo do Apolo – que era de areia de praia e tinha traves grandes e as dimensões de futebol amador, para jogos de sete contra sete. Ficava de frente para a famosa praia da Pajuçara, onde hoje é a praça multieventos. O nome do campo prestava homenagem à nave espacial da Nasa, que levou o homem a à lula, pela primeira vez.
No Campo do Apolo muitos talentos se revelaram, entre os anos 60 e 80. Era naquele retângulo, topado de areia branquinha e fofa, onde a bola rolava, baixo de sol e de chuva, nos principais torneios de futebol amador, dos bairros da região. No entanto, a organização das principais competições fica sempre sob o comando dos dirigentes dos times da Ponta da Terra e Pajuçara.
Na estreia do Cruzeiro, Adelaide quase que foi barrada, quando descobriram que ela era menina e não menino. Como não havia torneio de futebol feminino, ela já podia jogar, os times eram todos de jogadores do sexo masculino. Nossa capitã só não foi barrada porque estava inscrita no torneio, aceitaram o nome dela, na nossa escalação. Por isso, o juiz da partida, conhecido como Zé Doido, deixou ela entrar em campo.
– Vocês estão com medo de jogar contra uma menina? –, perguntou o juiz aos jogadores adversários, minutos antes do jogo, com os dois times em campo. A resposta, como não poderia deixar de ser, em se tratando do sangue machista, veio num sonoro “não!”. “Então, a bola vai rolar com a Capitã Adelaide em campo, afinal o nome dela está inscrito no torneio”, argumentou o juiz, dando o apito inicial à partida.
Vencemos o primeiro jogo daquele mata-mata. O torneio de sete contra sete, era assim: os times que perdiam iam saindo e os que ganhavam iam ficando, até a grande final. Naquele ano, na modalidade infanto-juvenil, o Cruzeiro da Pajuçara chegou à final e disputou o torneio de “ganha fica, perde sai”, com o Fluminense, que tinha sido campeão no ano anterior, em buscava o bicampeonato.
Mas na grande final, brilhou o talento de Adelaide que fez o gol do título, na vitória do estrelato por 2 a 1, contra o tricolor carioca da Pajuçara. A galera foi ao delírio com o gol de Adelaide, no finalzinho do jogo, dando números finais à partida. Ela jogava na defesa, mas como era caceteira, já tinha levado uma advertência, para não ser expulsa, o técnico Zé Bilú, decidiu colocá-la no ataque. Fez o gol, na banheira.
Coincidentemente, cinco décadas depois desse gol de Adelaide, a Seleção Feminina do Brasil dá início à arrancada rumo ao título inédito da Copa do Mundo, justamente na cidade de Adelaide, na Austrália. Começamos com o pé direito, derrotando as panamenhas por 4 a 0. Agora, é ganhar ou ganhar, até a conquista do caneco tão sonhado. Com ele, o ciclo da rainha Marta estará fechado com chave de ouro.

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