sexta-feira, 15 de maio de 2026 – 19h05

‘Canto da Travessia Nuclear’, de Alexandre Câmara, singra da morte ao renascimento

Ode à poesia descreve trabalho literário do jornalista e escritor alagoano
Foto: Divulgação

Por Alexandre Câmara

“Canto da Travessia Nuclear”

Canto I — A Assembleia das Sombras (ONU)

Era o último ano antes do fogo. Na ONU, as bandeiras tremulavam sobre um mundo em convulsão: crise de combustíveis, inflação global, fomes cíclicas no Sahel. E o mundo fingia normalidade.

Foi ali que eles chegaram. Não trouxeram armas. Nem promessas. Apenas uma pergunta, ecoando direto na mente: “Por que existir?”

Os tradutores engasgaram. Os assessores correram com bilhetes: “Não mencionar o embargo ao petróleo venezuelano nem os campos de mineração espoliados no Congo.”

O secretário falou em paz, mas seus olhos refletiam drones sobre Gaza, encomendados por um contrato de 3 bilhões, sanções sobre Havana, que travavam a importação de insulina, gás sobre La Paz, para proteger o lucro de uma multinacional do lítio.

O discurso morreu na garganta do planeta.

Canto II — O Conselho dos Generais (OTAN)

Em Bruxelas, generais já traçavam a guerra para garantir rotas de gás natural e metais raros. Na sala blindada, mapas digitais ardiam. Círculos vermelhos em torno de gasodutos. Setas azuis sobre estreitos marítimos.

“Compromisso com a defesa mútua”, repetiam. Mas cada estrela no ombro era um contrato bilionário que subia de valor a cada ameaça. Lockheed Martin. Raytheon. A bolsa de valores era o único campo de batalha que realmente importava.

Os visitantes repetiram a pergunta, não com voz, mas como um frio na nuca: “Por que existir?”

Ninguém respondeu. Mostraram gráficos de PIB em queda, linhas de abastecimento interrompidas, preço do petróleo disparando.

“Orçamento de defesa: 2% ao ano. É para proteger nossos interesses. É matemática. Não política.”

Canto III — O Clarão (O Holocausto)

Não houve suspense. O botão não foi pressionado por um louco, mas por uma lógica de mercado: a guerra era mais barata que ceder hegemonia.

Satélites detectaram. Sistemas responderam. E então veio o clarão.

Uma bomba caiu sobre Pequim. Sobre o centro financeiro que desafiava o dólar. A cidade virou brasas. O rio ferveu. Milhões desapareceram antes de gritar.

A resposta veio da Sibéria. Dos silos camuflados pela neve e pela desinformação. Mísseis riscaram o céu. Nova York evaporou. O centro do capital. Washington virou vidro. O centro do poder. Los Angeles virou sombra. A fábrica de sonhos.

E o veneno foi para o mar. O plâncton, base da vida, morreu em massa. As baleias, gigantes pacíficos, deram à luz crias deformadas e depois calaram. Os cardumes viraram manchas podres na superfície.

E o vento carregou a morte para as florestas. As sequoias milenares, que sobreviveram a impérios, murcharam sob a chuva negra. Os ursos polares, já famintos, lamberam a neve radioativa e sangraram pela boca.

E o mundo assistiu, ao vivo, a humanidade transmitindo a própria execução em streaming pago por anúncio.

Canto IV — As Bases Fantasmas

Quando as cidades queimaram, as bases ficaram mudas e economicamente inúteis.

Ramstein. Hub de drones. Diego Garcia.Porta-aviões intocável. Guantánamo. Símbolo de impunidade. Incirlik. Pivô da OTAN no Oriente.

Todas abandonadas. Tanques sem combustível. Porque o preço do barril era agora uma vida. Munições enferrujando ao sol. Sem exércitos para usá-las.

Em Okinawa, moradores invadiram campos de golfe militares para plantar mandioca. No Iraque,pastores amarraram cabras nas torres de radar e cuspiram no retrato do presidente americano.

O que era fortaleza virou carcaça. O que era poder virou lixo tóxico que ninguém quis pagar para limpar.

Canto IV½ — O Livro dos Nomes que Não Serão Lidos

Entre a queda das bases e a reunião dos sobreviventes, veio o silêncio dos mercados falidos, das dívidas externas queimadas, dos fundos de investimento extintos. Não o da paz, mas o da ausência de valor, de preço, de salário.

Não houve tempo para contar mortos. Os algoritmos de risco morreram primeiro. Não há atestados para cinzas. Não há lápides para vidro fundido.

Os nomes se perderam. Ahmed, de Gaza. Pedreiro desempregado. Mei, de Xangai. Estudante endividada. Javier, da Cidade do México. Motorista de aplicativo. Sarah, de Nova York. Estagiária de hedge fund.

Viraram poeira radioativa, neve suja caindo sobre o planeta e nivelando, pela primeira vez, bilionários e miseráveis.

Mas os mutilados… ficaram. E não receberam pensão.

Corpos queimados sem cura. Sem planos de saúde. Olhos arrancados pelo clarão. Sem seguro de vida. Gente envenenada pela chuva negra. Sem auxílio-doença. Grávidas parindo silêncio. Sem licença-maternidade.

Hospitais viraram depósitos de carne. Médicos sem remédios riscavam testas: um risco para quem podia viver, dois riscos para quem só esperava a morte. A triagem era a nova política econômica.

O saque já não buscava ouro. Buscava seringas, bolsas de soro, um copo de água limpa. A nova commodity.

Ninguém ergueu monumento. Ninguém declarou luto. O luto era o ar. A inflação era infinita. Era o gosto de metal na boca. A moeda era a bala. Era acordar lembrando. Que o capitalismo tinha cometido suicídio.

O mundo não chorou. O mundo sangrou. E o sangue secou no asfalto, como mapa mudo das desigualdades que mataram mais que a bomba.

Canto IV¾ — O Livro da Terra

Antes que os sobreviventes se reunissem, o planeta já havia escrito sua própria elegia.

Nos corais da Grande Barreira, apenas esqueletos brancos e silêncio. Na Amazónia, um crepitar úmido era o som das árvores tombando, não por motosserras, mas por dentro, envenenadas.

Os últimos lobos da Península Ibérica uivaram para um céu que não respondia e deitaram-se para nunca mais levantar. As manadas de elefantes na savana, cegas e com a pele a escamar, tropeçaram em buracos nucleares e viraram pilhas de osso e marfim triste.

A Terra não chorou por suas cidades. Chorou porque seu rio de leite materno secou. Chorou por suas crianças de penas e pelos, mortas sem nenhuma cerimônia.

Arderam o Louvre e a Biblioteca de Alexandria, dessa vez para sempre. Sumiram os últimos discos de Bowie, os filmes de Kurosawa e os versos de Dickinson. Os algoritmos, que recomendavam amor, viraram pó silencioso. A humanidade não perdeu só o presente: amputou sua própria memória.

Canto V — O Conselho do Sul (BRICS)

Na poeira do império em chamas, os sobreviventes se reuniram não por ideologia, mas por falta de opção.

Não eram heróis. Eram pragmáticos e famintos.

Brasil, com seus grãos e fome interna. Rússia, com seu gás e paranoia. Índia, com sua tech e castas. China, agora governada de Chengdu, com sua ditadura digital intacta. África do Sul, com suas minas e AIDS.

Vieram outros: Irã com petróleo e teocracia, Arábia Saudita com água dessalinizada e absolutismo, Etiópia com juventude e guerra étnica.

Não mais dólar. A moeda era a comida. Agora ouro, gás, moedas locais que ninguém confiava. A internet corria por uma nova rede, lenta, vigiada e controlada por quem tinha os servidores.

Mas não havia heróis naquela mesa. A China trouxe seu sistema de crédito social: “obediência vale água”. A Rússia, seus campos de trabalho forçado: “reconstrução vale pão”. O Brasil, seus latifúndios intocáveis: “comida vale silêncio”. Era o mesmo poder, com nova bandeira.

As regras mudaram. Não por Justiça. Mas porque o FMI tinha virado pó e era mais barato. E ninguém naquela mesa falou em replantar florestas, em descontaminar oceanos, em salvar espécies. O plano era salvar a si mesmos. A economia agora era de sobrevivência, e a Natureza não tinha lugar na contabilidade.

Canto VI — A Revelação: Eles Nunca Partiram

Os supostos alienígenas não partiram. Seus corpos, de repente, dissolveram-se como fumaça. Não eram seres de carne e osso. Eram hologramas de um futuro distante. Projeções desesperadas de uma inteligência pós-humana — os restos da nossa própria civilização, transformada em pura informação — que havia conseguido enviar um aviso ao passado.

A pergunta “Por que existir?” não era um teste. Era o grito final de uma espécie que já havia fracassado. Era o último recurso de uma consciência coletiva que, já dissolvida em bits e armazenada em servidores moribundos, tentava evitar que sua própria origem cometesse o mesmo erro.

Eles não coletavam amostras. Coletavam narrativas de extinção. A única herança que restava para levar adiante no universo era a memória de como as civilizações morrem.

O verdadeiro epílogo alienígena era um lamento do nosso próprio futuro para o nosso presente.

Canto VII — O Canto que Restou (A Semente)

Os sobreviventes não tinham armas, nem ouro, nem bandeiras. Tinham apenas fragmentos de memória e a fome que rugia.

A língua dos antigos, a do dólar e do PIB, a dos tratados e dos discursos de ódio, havia morrido com as cidades.

Então, uma anciã de um povoado esquecido nos Andes, que nunca aprendera a ler os editoriais do Financial Times, mas decifrava o ritmo da chuva e o canto dos grilos, ergueu-se.

E começou a recitar.

Não uma prece. Não um tratado. Ela recitou o próprio poema que narrava a sua queda. As palavras que descreviam a ganância, o clarão, a dor, a água rara, a floresta morta, o saque por seringas.

Ao recitar o horror, ela não o exorcizava. Ela o transformava em alerta. Em vacina. Aquele poema tornou-se o novo protocolo. A nova constituição. O antídoto contra a repetição.

A nova língua nascia das ruínas. Era uma língua de gestos, de silêncios compartilhados, de desenhos na areia que mostravam o caminho da água limpa. As palavras que sobraram — “amor”, “compaixão”, “água”, “semente” — ganharam um peso físico, material. Dizer “água” era tão vital quanto bebê-la. Dizer “mentira” era cuspir um veneno.

O poema foi a ponte entre as duas línguas. A última grande obra do mundo morto e a primeira semente do mundo por nascer.

O poema deixou de ser sobre a morte. Tornou-se um organismo vivo, um vírus de lucidez inoculado na mente dos que queriam viver. A única arma capaz de matar o fantasma do velho mundo.

Não por glória. Mas por necessidade brutal de continuar vivo.

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