domingo, 24 de maio de 2026 – 17h11

Desapareceu atrás do bloco e foi amarrada pela cintura

Folhetim
Suely Calazans, à esquerda, e Sonia Calazans, ao centro. As irmãs, na folia carnavalesca de Maceió - Foto: LulaCastelloBranco/NC

A lembrança de hoje não foi vivenciada por mim. Uma história de família, das mais hilárias. Somos duas meninas, que restaram de uma prole bem numerosa. Minha irmã Suely nasceu depois que mamãe perdeu os seis primeiros filhos. Ela reinou absoluta por um bom tempo (oito anos), até a minha chegada. Era a rainha da casa, casava e batizava, tinha dengo de pais, avós, tios e tias. Pintava o sete, e tudo era graça.

Num belo e animado dia de carnaval, a casa da Praça Guimarães Passos, como sempre, aguardava os foliões de mais um bloco. Desta vez, era o “Velhice Transviada”, formado por sócios e simpatizantes do Clube Atlético do Poço, que ficava na Av. Comendador Calaça, esquina da subida da ladeira do Jacintinho, onde hoje funciona a Maternidade Nossa Senhora de Guia. 

Nossa família frequentava o “Veteranos do Poço” (papai foi um de seus fundadores), rivalidade salutar para ver quem organizava as festas mais animadas do bairro. Mas isso é assunto para outras recordações. Vamos voltar para a passagem do “Velhice Transviada” pela nossa casa. 

Muita gente animada, banho de talco, confete, serpentina e, no meio desse fervilhar de alegria e agitação, minha irmã não era mera expectadora. Sempre foi atirada, danada mesmo. Corria pela rua, subia em árvores, montava no jumento do homem que entregava o leite, ia atrás do palhaço que anunciava o circo. E, durante o carnaval, acompanhava os blocos e as troças, corria dos La Ursa, que passavam pela frente de casa. 

O bloco “Velhice Transviada” tinha como um de seus músicos o Sampaio, amigo de nosso pai e integrante da briosa Polícia Militar. Faz parte das minhas boas lembranças carnavalescas as idas ao banho de mar à fantasia e a parada obrigatória na Rua do Uruguai, na casa do Sampaio (acho que era coronel), mas a sua amizade com meu pai dispensava patente. 

Em sua casa, éramos recepcionados pela esposa Sofia (senhora muito fina e bem fashion, cabelos compridos, bem cuidados, e roupas coloridas, diferentes das senhoras da época). As visitas, para mim, eram uma delícia. Sempre nos serviam, de lanche, filhoses e refresco. Acho que não tiveram filhos, não lembro de crianças na casa. Nos recebiam com muita simpatia. Mas voltemos à passagem do “Velhice Transviada”. 

Nossa casa ficou cheia, tocaram, beberam, comeram e se foram, como os outros blocos que nos visitavam. A casa esvaziou, arruma daqui, mexe dali… As coisas se acalmaram, passou um tempo, e… “onde anda a Suely?”. Ela tinha 5 ou 6 anos de idade na época. Olha na praça, não estava, verifica na vizinhança, nada, procura na casa da avó, do tio, não foi encontrada. Começou o alvoroço. “Onde a menina se meteu?” Ninguém sabia. E agora?!

Ela me contou o que aconteceu. Depois de ter passado por várias casas, sempre acompanhando de perto o Sampaio (ele ocupado, tocando o seu trombone, não percebeu a presença dela). Em uma determinada residência, já bem distante de nossa casa, só adultos, alguém perguntou: “De quem é essa galega?” Foi aí que o Sampaio se deu conta de que era a filha do Calazans. O que fazer agora?! 

Não tinha telefone, não podia voltar, ainda faltava completar as visitas. Ele já estava com umas na cabeça, pediu ao dono da casa: “Tem uma corda aí?” Arranjaram a corda. Sampaio amarrou uma ponta na cintura dela e a outra no cinto dele. Assim, ela não sairia de perto dele, e ele não correria o risco de perdê-la.

Fim do dia, a praça cheia de vizinhos e da família sem saberem mais o que fazer, para encontrar a galega sumida. Só aguardando o que poderia ter acontecido. Alguém vê, no final da Av. 26 de abril, uma cena curiosa: lá vem um homem carregando seu instrumento musical, com uma criança amarrada na cintura, quase se arrastando de cansaço, e ele tentando disfarçar o caminhar sinuoso. 

Segundo a mamãe, a galega tava “um grude só”, de tanta poeira e suor. Sampaio dava boas risadas quando se lembrava do episódio. Foi sempre um bom amigo da família. O carnaval é um período de histórias inesperadas e, por isso, aguardamos a festa com tanta ansiedade.

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