Por Dayvisson Thiago/Jornalista e Fotógrafo
Me surpreendi com um toró, uma chuva torrencial, ao descer do décimo andar claustrofóbico em que estava. Gosto de dias chuvosos, embora more numa cidade onde o sol parece ditar as regras. Não estava com guarda-chuva porque não esperava nenhuma chuva. Quando saí bem cedo, a quentura dominava.
Não dava para esperar a chuva passar. Coloquei os fones de ouvido, minha playlist tocando Fernando Mendes e alguns clássicos da Jovem Guarda. Depois, mudei para músicas melancólicas, o que não seria surpresa alguma, já que o tempo combinava com isso. E, se tratando de mim, não importa o tempo, música triste tem que tocar.
Caminhei entre os prédios e pessoas desconhecidas, com rostos pálidos.
Com o apressar dos passos, todas as pessoas pareciam fantasmas, porque meus óculos estavam embaçados de tanta água. Eu acho que também chorei nesse meio-tempo, mas lágrimas e chuva eram a mesma coisa.
Eu quase me perco de tanto caminhar, mas eu sabia que não iria me perder, porque, se eu seguisse em linha reta, chegaria onde deveria. Para encurtar essa conversa, parei próximo a um semáforo que demora muito para abrir. E a chuva não parava de cair.
Eu não prestei atenção, mas, do meu lado, esperando o sinal abrir, tinha essa velhinha com um guarda-chuva — uma sombrinha, como a gente costuma falar aqui. Eu tava todo ensopado, fone escorregando do ouvido, a mochila nas costas, e ela me notou.
“Quer vir para baixo da sombrinha?”, ela disse.
Eu disse: “Ah, não, obrigado”, e dei um sorriso.
Eu achei aquilo tão gentil, foi a coisa mais linda daquela sexta chuvosa que me aconteceu. A gente proseou rapidamente sobre o sinal demorar para abrir e, depois, atravessamos a faixa de pedestre.
Não sei o nome dela, nem sei de onde ela é. Só sei que ela transformou meu fim de tarde só por me oferecer a sombrinha que tinha. E lembro que era bem pequena, mal cabia ela mesma embaixo, ainda assim, ela foi legal comigo.
Eu acho que caminhei cerca de quarenta minutos só para ter aquele gesto de gentileza, mesmo. Se eu fosse de ônibus ou tivesse com uma sombrinha, não teria falado com a velhinha do guarda-chuva. Pior que nem vou lembrar do rosto dela, porque meus óculos estavam tão molhados que mal podia enxergar um palmo à minha frente.





























