Em recente estudo, realizado por docentes das universidades federais de Alagoas (UFAL), Pernambuco (UFPE), Piauí (UFPI) e Brasília (UnB), foi constatado que mais 34 bairros de Maceió foram afetados indiretamente pela mineração da empresa Novonor (Braskem/Triken/Salgema). O estudo analisa aspectos de vulnerabilidade estrutural, ambiental, social e econômica da circunvizinhança dos cinco bairros atingidos diretamente pela extração do sal-gema na área urbana da capital alagoana.
Trata-se do maior desastre ambiental ocorrido em área urbana no Brasil, e talvez no mundo, como resultado do colapso de uma das minas de extração da sal-gema, onde mais de 14 mil imóveis foram fechados e cerca de 60 mil famílias, forçadas a abandonar suas residências. Com a criação de enormes minas, em buracos gigantescos, sob a área determinada, após 40 anos de mineração, iniciado na década de 1970, ocorreu um processo de afundamentos de solo e de abalos sísmicos.
Os pesquisadores observaram as sequelas do desastre até o momento e pontuam as vulnerabilidades de outros bairros, cuja população é obrigada a viver com o dilema de sair de suas casas ou permanecer em perigo de afundamento do solo, com os possíveis tremores e convivência com “bairros fantasmas”.
Entre as áreas com maior vulnerabilidade, apontadas pela pesquisa, estão os cinco diretamente afetados: Bebedouro, Bom Parto, Farol, Pinheiro e Mutange, este bairro, onde ocorreu o epicentro da tragédia, já não existe mais. Além dos bairros Gruta de Lourdes, Ponta Grossa e Vergel do Lago. Estão vulneráveis à subsidência os bairros Antares, Feitosa, Fernão Velho, Riacho Doce, Rio Novo, Santa Amélia e Trapiche da Barra.
Com vulnerabilidade moderada, a pesquisa aponta os bairros Clima Bom, Garça Torta, Ipioca, Pescaria, Pontal da Barra e Prado. Os bairros Barro Duro, Canaã, Chã de Bebedouro, Chã da Jaqueira, Cidade Universitária, Cruz das Almas, Jacarecica, Jacintinho, Jardim Petrópolis, Levada, Pitanguinha, Ponta da Terra, Santa Lúcia, Santo Amaro, Santos Dumont, São Jorge, Serraria e Tabuleiro do Martins são considerados de baixa vulnerabilidade.
O estudo não conseguiu atribuir o nível de vulnerabilidade dos bairros Jaraguá, Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca e Mangabeiras, por isso ficaram fora da pesquisa.
“Utilizando uma abordagem GIS-multicritério, identificamos regiões onde a população enfrenta grandes desafios socioeconômicos e ambientais. Além de abordar as vulnerabilidades ambientais, a metodologia desenvolvida considera riscos sociais e econômicos, visando a ações integradas entre a população e o meio ambiente”, explicou o professor Wesley Oliveira, destacando que a vulnerabilidade da subsidência leva à evasão dos moradores de forma desordenada para outras regiões.
A análise GIS-multicritério (MCDA) é uma abordagem que combina o Sistema de Informação Geográfica (GIS) com técnicas de Análise de Decisão Multicritério (MCDA). “Essa combinação permite visualizar e compreender o contexto espacial dos problemas analisados, facilitando a avaliação de suas criticidades e apoiando intervenções práticas no campo. As análises MCDA consideram múltiplos critérios, integrando dados espaciais e não espaciais, para apoiar a tomada de decisão, sendo estes dados estruturais, ambientais, sociais e econômicos”, explicou Oliveira
O estudo foi publicado no periódico “The Extractive Industries and Society”. Participaram da pesquisa os professores Wesley Oliveira, do curso de Engenharia de Produção (UFAL/Penedo); Natallya Levino, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (UFAL); Amanda Rosa, do Departamento de Engenharia de Produção (UFPI); Marcele Fontana, do Departamento de Engenharia Mecânica (UFPE); e Patrícia Guarnieri, do Departamento de Administração de Empresas (UnB).
Resumo do Pesquisa
O desastre causado pela instabilidade das minas de sal-gema em Maceió, Brasil, é o maior desastre socioambiental em andamento no mundo em áreas urbanas e já afetou diretamente cerca de 60.000 famílias que precisaram ser realocadas. Para avaliar os impactos negativos causados por esse desastre, foi desenvolvido um modelo de Tomada de Decisão em Grupo (GDM) com base em análises qualitativas (Análise de Conteúdo Temática) e quantitativas (Técnica de Grupo Nominal). Foi realizada uma avaliação comparativa da opinião de três grupos de stakeholders: dois considerados especialistas, ou seja, professores acadêmicos e agentes públicos locais, e um grupo de cidadãos diretamente afetados pelo desastre. Como resultado, os moradores consideraram a relevância dos impactos nas três dimensões analisadas semelhantes, enquanto os especialistas deram maior importância às dimensões social e econômica do que à ambiental. Este estudo potencialmente contribui para a sociedade ao orientar formuladores de políticas públicas no processo de tomada de decisão sobre ações de mitigação e prevenção, e acadêmicos interessados na governança de desastres causados por indústrias de mineração.
Com informações da Assessoria da UFAL





























