A artista visual Yara Pão encontrou um tesouro perdido da cultura e das artes plásticas de Alagoas. Em reforma da Escola Cenecista (CNEC), no bairro do Centro, onde funcionou a antiga rodoviária de Maceió até 1982, numa parede lateral da saída dos ônibus, estava lá um antigo painel em baixo relevo. A obra retrata trabalhadores de cana de açúcar e algodão, que ilustram a economia do estado na época. O trabalho tem data de 06/09/1969 e está assinada por “Manelito”.
Convidada, pela empresa de engenharia, responsável pela reforma do prédio, para fazer os murais, tanto na parte interna, quanto na parte externa da edificação, Yara percebeu o painel, ao analisar a dimensão e o aspecto das paredes. “A área estava bastante abandonada, há muito tempo, rodeada de mato. Quando notei a arte em relevo, me aproximei e encontrei a assinatura, também em relevo. Se fosse uma pintura, certamente não teria resistido ao tempo”, conta a artista.
“Não estava dentro do planejamento da obra. Tinha partes caindo aos pedaços. Na recuperação desse painel, a gente fez o que dava para fazer”, lamenta Pão, por não poder fazer melhor restauração da obra. Assim que encontrou o painel, fotografou, filmou o desenho e publicou o registro em suas redes sociais. Não demorou muito para os amigos, a imprensa e os parentes do pintor a procurarem. Nesse intermédio, a artista já havia feito uma limpeza, pintado todo fundo e aplicado cores nas áreas em relevo.
Manelito é Manoel Amorim de Miranda, conhecido como Manelito Miranda. Ele era o nono filho de um casal com 10 filhos (oito homens e duas mulheres): Manoel Simplício de Miranda e Dona Hermé Amorim de Miranda, proprietários do antigo Hotel Atlântico. Entre os homens, era o mais novo. Trabalhou no Departamento de Estradas e Rodagem (DER), onde começou como desenhista e seguiu na área administrativa. Formou-se em psicologia, no Centro de Estudos Superiores de Maceió (CESMAC).
Foi pai de cinco filhos: Sandra de Miranda Fernandes, Sérgio Manoel Barbosa de Miranda, Selma de Miranda Martins, Suzana Maria Barbosa de Miranda e Simone Maria Barbosa de Miranda (em ordem cronológica de nascimento ). Foi casado por três vezes. Manelito faleceu no ano de 2002, por complicação da diabetes, que o atormentava. “Na época dos grandes carnavais de clube, foi um condecorado decorador, sagrando-se campeão em diversos carnavais”, disse seu filho Sérgio, emocionado.
A arte, provavelmente, foi uma encomenda durante a construção da Antiga Rodoviária. Durante todos esses anos, o prédio passou por várias reformas, mas, em nenhuma delas, havia sido dado relevância à obra. “Esse processo já faz parte do meu trabalho, de sempre analisar o ambiente, porque, muitas vezes, já passaram artistas por ali, e quase sempre entro em contato com eles”, esclarece Yara, sem conter a emoção por não somente haver redescoberto o patrimônio artístico-cultural de Alagoas, como também por ter conseguido chegar aos parentes do artista e entregar a eles a obra rediviva. “Ao assinar uma obra é como se o artista dissesse ao futuro: eu estou aqui! E, aqui, ele está!”, exaltou.





























