sexta-feira, 4 de setembro de 2026 – 02h11

A Bomba

Histórias do Velho Capita
Imagem: Gemini/IA/NC

Nos anos de chumbo quando havia uma guerra no Brasil e ninguém sabia, era censurada nos jornais e televisão. Quando o baiano Carlos Mariguella, guerrilheiro, comunista, marxista, leninista, organizou a luta armada contra a ditadura, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionário com a finalidade de implantar a ditadura proletariado no Brasil. Com a proliferação de assaltos a bancos arrecadando dinheiro e assaltando quartéis roubando armas para a Revolução do Proletariado, os quartéis do Exército dobraram a vigilância, as visitas eram revistadas, dentro dos quartéis tornou-se uma neura.  

Nessa época dois colegas de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras, eram capitães. O Rocha servia na Fábrica de Material Bélico na cidade de Piquete e o Wanderley servia no 5º Regimento de Infantaria de Lorena, cidades vizinhas, bem próximas. Vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN acabava de acontecer, o terrorismo em São Paulo era constante

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, como sempre, trouxe deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley que adorava as iguarias nordestinas.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. O capitão Rocha, um tanto apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou o soldado sentinela e entregou um pacote de rapaduras embrulhadas, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley.

Nesse momento o tenente, oficial de dia, que observava de sua janela, viu quando alguém entregou um embrulho à sentinela logo depois deu partida e acelerou o carro.  Imediatamente, o jovem tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado sentinela colocar o embrulho no chão, no meio do pátio. Mandou tocar alarme geral; desesperado o tenente gritava: Cuidado é uma bomba!! É uma bomba!!!!!!

Os soldados que estavam no quartel, bem treinados, tomaram logo suas posições estratégicas, sob o comando de sargentos e cabos, entrincheirados, atrás de colunas e paredes. Ficaram a vigiar ao longe a “bomba”, imóvel, soberba e inatingível no centro do pátio.

O quarteirão foi interditado, o trânsito desviado para outras ruas e impedindo qualquer pessoa de se aproximar do quartel. Enquanto isso, o embrulho, no meio do pátio, solitário, fazia temor a toda população, que espreitava das varandas dos prédios da vizinhança.

Logo a mídia tomou conhecimento, estavam na expectativa todos jornais da região. As TVs de São Paulo a caminho. Jornalistas e fotógrafos se penduravam em prédios vizinhos. Era aguardado a qualquer momento um sargento sapador especialista em desarmar bombas vindo de São Paulo. 

Foi nesse clima que o Capitão Wanderley, voltando calmamente de uma pescaria, sentiu o movimento estranho, dirigiu-se ao quartel. 

Os soldados que faziam o controle do trânsito, contaram o caso da bomba, deixando o capitão passar. Wanderley foi se chegando, quando percebeu a bomba mais de perto, emocionado, reconheceu os abençoados inúmeros pacotes que ganhava do amigo Rocha. Wanderley procurou o tenente, contou sua versão sobre o pacote, nessa altura, o tenente não admitia outra hipótese, era uma bomba. Os soldados continuaram abrigados no maior anseio, e ficaram apavorados quando Wanderley, com água na boca, pensando na deliciosa rapadura, aproximou-se do embrulho. A expectativa e o silêncio tomavam conta da multidão, dentro e fora do quartel, que acompanhava a insensatez, o “maluco” do capitão.

 Num gesto contínuo, Wanderley ficou de cócoras, apanhou o pacote e foi abrindo pelos lados, tirando o papel espesso, as palhas de bananeiras até aparecer uma bonita barra dourada de rapadura, ouro nordestino. Com os dedos, indicador e mindinho, quebrou um pedaço, levou-o a boca, deu uma bela dentada, colocou o pacote nas axilas e saiu andando devagar, calmo como ele próprio. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os beiços diante de uma enorme plateia pasmada, incrédula no que via acontecer, todos boquiabertos soltaram um uníssono e exclamativo, Oh!!!!!!!

Foi um alívio geral, a paranoia daqueles tempos era contagiante.

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