domingo, 6 de setembro de 2026 – 15h03

COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

Dentre todas as criações da humanidade, nenhuma invenção é para mim, motivo de tanta admiração como a linguagem.
A civilização, ainda em curso, haja visto os variados níveis de educação e comportamento, prescinde desde tempos remotos da imperiosa necessidade de se fazer entender.
Em tempos de rapidez na transmissão de pensamentos, há até a desinformação pelo excesso do contingente de ideias e suas tão variadas matizes e reais intenções. Duvidemos.

Dentre todas as formas criadas para expressar as ideias comunicadas para a efetiva transmissão, visando a realização do pensamento ou ainda a perpetuação desse registro, seja a marca de uma mão humana numa caverna ancestral, os símbolos hieroglifados em paredes, templos e câmaras mortuárias, papiros ou couros de animais curtidos. Dentre os modos que atravessam os séculos, como pinturas e esculturas, observamos e absorvemos a presença da criatura insuflada pela iluminação soprada pelo Criador.

Cores vivas nas tumbas milenares – Foto: Rafael Rocha Farias

Desde o momento que o registro passou a comunicar a ideia do proponente, o desenho teve protagonismo imediato, o auxílio luxuoso das imagens deram contribuição a compreensão da audiência presente e no arrastar dos séculos a todos que têm a oportunidade de contemplar. Já afirmou o arquiteto Mies Van Der Rohe: – “É uma ideia. E apenas uma ideia pode se alastrar tanto!”.
Até chegar nas notas musicais registradas em partituras, o caminhar da comunicação foi longo.
Imaginando, atentos urbaNAUTAS, que a arquitetura é uma escrita, preconizada antes pela linguagem do projeto, grafada com pedra, ferro, blocos de argila, cal, areia, artefatos de madeira e de vidro; como os antigos arquitetos conseguiam expor seus planos para que o cliente ou mecenas aprovasse? E como comunicavam aos realizadores da obra para que entendessem a execução? Apenas com o desenho, linguagem universal, realizados em diversas superfícies: pergaminhos, couros pirografados, riscos no chão, nas rochas, em tábuas de madeira, em placas úmidas de lama ou gesso, em lousas e paredes.
Traços em gestos suportados por galhos apontados, estiletes primitivos, hastes de bambu ou metal, barras de giz ou carvão, grafites e pincéis de pelos de marta.

Luxor – Foto: Rafael Rocha Farias

Apesar do percurso histórico que nos trás até nossos dias de imagens, desde as pinturas dos gênios da Renascença, das ricas tapeçarias orientais, da fotografia que impulsionou a desconstrução dos signos tão abusadamente ousados dos impressionistas, expressionista e modernistas. Até às maravilhosas colheitas usadas graças aos recursos dos programas e aplicativos da computação gráfica, nada me atinge mais como recurso supremo sempre a mão do que o implacável e rápido croquis.

Apenas ele com traços ligeiros e concisos, “Sua Excelência O Croquis “, tem esse poder de transporte, de transformar ali e na hora, a transferência de ideias na abstração do pensamento para a materialidade de uma superfície. Deixando claro e visível a magnitude de uma ideia esboçada. O croqui é ao mesmo tempo essência e síntese, trazendo a lume sua especialidade, a espacialidade e o volume.
O croqui é essencial para qualquer conversa, desde a explicação de um caminho ou direção da distância, até a configuração de muitas proposições. O croqui é a ideia com alma.

Bons registros de viagens inesquecíveis se dão via croquis rápidos e despretensiosos. Plenos da emoção daquele instante. Valiosa recordação realizada com o material que se tiver a mão.

O croqui avança com lucidez para a perspectiva, cortes e para as plantas, no auxílio luxuoso ao ato projetual. Definido o programa, a espacialidade e os materiais, o croqui se apresenta para urdir os detalhes, para compor os elementos e para integrar os complementares. O Croquis é um veículo: posto que transporta e transfere. Croquis é tradição pois transaciona e traduz. O Croquis é elementar, é usual e é também refinamento.

Sonhos recorrentes também podem ser codificados pelos representantes croquis, de modo a serem fixados como metas ou lembranças do futuro possível e já impregnado de um passado inexplicável.

Todo o processo de criação, passa pela intuição e pela pesquisa e visa a promoção do diálogo. Diálogo com o outro, diálogo com os vários outros. Preciso é, ter como causa, o que possa tomar corações e mentes ou ser por esses, negado.

Um simples passeio de trem ou boas pernadas por um bairro histórico é por certo, belíssimo exercício de apreensões espaciais. Aos estimados leitores recomendamos como estímulo e certeza de gratificante colheita pessoal.

A soma benéfica de tantos riscos e rabiscos, será a descoberta prazerosa do fazer.

O desenho como ferramenta é, para o costumaz decifrador, ícone particular de caminhos e vãos da identidade cultural de determinada época e lugar.

Deve a arte, e o croquis como ferramenta de ensaio, possivelmente propôr como uma de suas múltiplas funções ajudar a vida de modo pleno, portanto o propósito de alcance maior que a mera transmissão de ideais e valores.

Maceió das Alagoas,
terça feira, 02 de janeiro de 2024

Fotos: Rafael Rocha Farias e RCF
Croquis: RCF
Texto: RCF

Respostas de 6

  1. Publico aqui, junto ao muito obrigado, o comentário de Walane Mello Ivo:

    “[3/1 06:19] Walane: A capacidade de criarmos ferramentas para nós comunicar é intrigante, não é? Adorei o texto!
    [3/1 06:19] Walane: E viva o croqui🤩”

  2. Publico aqui, agradecendo, o comentário enviado via whatsapp pelo colega arquiteto David Guerra:
    “[5/1 13:59] David GUERRA:
    “O Croqui é a ideia com alma”.
    Definição curta, simples mas de tamanha objetividade e precisão e poética que emocionam.
    [5/1 14:01] David GUERRA: É um alento, como um dos “samurais do lapis”, não se sentir só nessa forma de comunicar as ideias.
    Grato.”

  3. Publico aqui, com meus agradecimentos, a consideração de Nath MyBox, enviada pelo whatsapp:

    “Roberto, que material maravilhoso, Incrível como a arte é um ponto de partida na história da humanidade! 👏🏻👏🏻”

  4. O croqui… inegavelmente uma ferramenta essencial, onde o projetista exterioriza toda sua essência em traços harmônicos e definidos. Definitivos. O aperfeiçoamento poderá ser feita através da nossa tecnologia… mas, daremos créditos especiais aos croquis bem elaborados. Coisa especial… cheia de sensibilidade e habilidade na arte do desenho. Parabéns Roberto👏👏👏👏

    1. Esses desenhos rápidos, plenos de proporção e no calor da criação, ali à vista de todos, sempre foram para mim motivo de fascínio e treino. Obrigado Eduardo, pelo contributo efetivo e acrescentados!

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