Dentre todas as criações da humanidade, nenhuma invenção é para mim, motivo de tanta admiração como a linguagem.
A civilização, ainda em curso, haja visto os variados níveis de educação e comportamento, prescinde desde tempos remotos da imperiosa necessidade de se fazer entender.
Em tempos de rapidez na transmissão de pensamentos, há até a desinformação pelo excesso do contingente de ideias e suas tão variadas matizes e reais intenções. Duvidemos.

Dentre todas as formas criadas para expressar as ideias comunicadas para a efetiva transmissão, visando a realização do pensamento ou ainda a perpetuação desse registro, seja a marca de uma mão humana numa caverna ancestral, os símbolos hieroglifados em paredes, templos e câmaras mortuárias, papiros ou couros de animais curtidos. Dentre os modos que atravessam os séculos, como pinturas e esculturas, observamos e absorvemos a presença da criatura insuflada pela iluminação soprada pelo Criador.

Desde o momento que o registro passou a comunicar a ideia do proponente, o desenho teve protagonismo imediato, o auxílio luxuoso das imagens deram contribuição a compreensão da audiência presente e no arrastar dos séculos a todos que têm a oportunidade de contemplar. Já afirmou o arquiteto Mies Van Der Rohe: – “É uma ideia. E apenas uma ideia pode se alastrar tanto!”.
Até chegar nas notas musicais registradas em partituras, o caminhar da comunicação foi longo.
Imaginando, atentos urbaNAUTAS, que a arquitetura é uma escrita, preconizada antes pela linguagem do projeto, grafada com pedra, ferro, blocos de argila, cal, areia, artefatos de madeira e de vidro; como os antigos arquitetos conseguiam expor seus planos para que o cliente ou mecenas aprovasse? E como comunicavam aos realizadores da obra para que entendessem a execução? Apenas com o desenho, linguagem universal, realizados em diversas superfícies: pergaminhos, couros pirografados, riscos no chão, nas rochas, em tábuas de madeira, em placas úmidas de lama ou gesso, em lousas e paredes.
Traços em gestos suportados por galhos apontados, estiletes primitivos, hastes de bambu ou metal, barras de giz ou carvão, grafites e pincéis de pelos de marta.


Apesar do percurso histórico que nos trás até nossos dias de imagens, desde as pinturas dos gênios da Renascença, das ricas tapeçarias orientais, da fotografia que impulsionou a desconstrução dos signos tão abusadamente ousados dos impressionistas, expressionista e modernistas. Até às maravilhosas colheitas usadas graças aos recursos dos programas e aplicativos da computação gráfica, nada me atinge mais como recurso supremo sempre a mão do que o implacável e rápido croquis.

Apenas ele com traços ligeiros e concisos, “Sua Excelência O Croquis “, tem esse poder de transporte, de transformar ali e na hora, a transferência de ideias na abstração do pensamento para a materialidade de uma superfície. Deixando claro e visível a magnitude de uma ideia esboçada. O croqui é ao mesmo tempo essência e síntese, trazendo a lume sua especialidade, a espacialidade e o volume.
O croqui é essencial para qualquer conversa, desde a explicação de um caminho ou direção da distância, até a configuração de muitas proposições. O croqui é a ideia com alma.


Bons registros de viagens inesquecíveis se dão via croquis rápidos e despretensiosos. Plenos da emoção daquele instante. Valiosa recordação realizada com o material que se tiver a mão.

O croqui avança com lucidez para a perspectiva, cortes e para as plantas, no auxílio luxuoso ao ato projetual. Definido o programa, a espacialidade e os materiais, o croqui se apresenta para urdir os detalhes, para compor os elementos e para integrar os complementares. O Croquis é um veículo: posto que transporta e transfere. Croquis é tradição pois transaciona e traduz. O Croquis é elementar, é usual e é também refinamento.

Sonhos recorrentes também podem ser codificados pelos representantes croquis, de modo a serem fixados como metas ou lembranças do futuro possível e já impregnado de um passado inexplicável.

Todo o processo de criação, passa pela intuição e pela pesquisa e visa a promoção do diálogo. Diálogo com o outro, diálogo com os vários outros. Preciso é, ter como causa, o que possa tomar corações e mentes ou ser por esses, negado.


Um simples passeio de trem ou boas pernadas por um bairro histórico é por certo, belíssimo exercício de apreensões espaciais. Aos estimados leitores recomendamos como estímulo e certeza de gratificante colheita pessoal.

A soma benéfica de tantos riscos e rabiscos, será a descoberta prazerosa do fazer.

O desenho como ferramenta é, para o costumaz decifrador, ícone particular de caminhos e vãos da identidade cultural de determinada época e lugar.


Deve a arte, e o croquis como ferramenta de ensaio, possivelmente propôr como uma de suas múltiplas funções ajudar a vida de modo pleno, portanto o propósito de alcance maior que a mera transmissão de ideais e valores.

Maceió das Alagoas,
terça feira, 02 de janeiro de 2024
Fotos: Rafael Rocha Farias e RCF
Croquis: RCF
Texto: RCF






























Respostas de 6
Publico aqui, junto ao muito obrigado, o comentário de Walane Mello Ivo:
“[3/1 06:19] Walane: A capacidade de criarmos ferramentas para nós comunicar é intrigante, não é? Adorei o texto!
[3/1 06:19] Walane: E viva o croqui🤩”
Publico aqui, agradecendo, o comentário enviado via whatsapp pelo colega arquiteto David Guerra:
“[5/1 13:59] David GUERRA:
“O Croqui é a ideia com alma”.
Definição curta, simples mas de tamanha objetividade e precisão e poética que emocionam.
[5/1 14:01] David GUERRA: É um alento, como um dos “samurais do lapis”, não se sentir só nessa forma de comunicar as ideias.
Grato.”
Publico aqui, com meus agradecimentos, a consideração de Nath MyBox, enviada pelo whatsapp:
“Roberto, que material maravilhoso, Incrível como a arte é um ponto de partida na história da humanidade! 👏🏻👏🏻”
O croqui… inegavelmente uma ferramenta essencial, onde o projetista exterioriza toda sua essência em traços harmônicos e definidos. Definitivos. O aperfeiçoamento poderá ser feita através da nossa tecnologia… mas, daremos créditos especiais aos croquis bem elaborados. Coisa especial… cheia de sensibilidade e habilidade na arte do desenho. Parabéns Roberto👏👏👏👏
Esses desenhos rápidos, plenos de proporção e no calor da criação, ali à vista de todos, sempre foram para mim motivo de fascínio e treino. Obrigado Eduardo, pelo contributo efetivo e acrescentados!
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