Esta crônica não pretende ser brilhante como O Nariz, de Gogol. Até porque o nariz do escritor russo teve uma carreira muito mais promissora: separou-se do dono, adquiriu independência e chegou a ocupar uma posição social respeitável. O joelho, mais discreto, não pretende conquistar cargos nem protagonizar grandes feitos literários. Quer apenas voltar a passear.
O joelho andava um tanto recolhido, é verdade. Não por falta de saúde, nem por qualquer desavença com a idade ou com as articulações. O caso era outro, desses que não aparecem nos exames, não se resolvem com compressas e tampouco obedecem às recomendações dos especialistas. O joelho vinha reaprendendo a sair pelo mundo, a aceitar convites, a descobrir que ainda havia noites interessantes e que a vida, apesar de certas ausências, continuava acontecendo do lado de fora.
Não era exatamente medo de cair. Era uma certa cautela diante dos caminhos, depois de descobrir, sem aviso, que até os terrenos mais conhecidos podem mudar de repente. Desde então, o joelho andava um pouco desconfiado das surpresas. Não de todas, evidentemente. Algumas ainda lhe despertavam curiosidade.
Há joelhos que vivem grandes aventuras. Outros preferem a segurança do sofá, a estabilidade de uma cadeira e a prudência de quem já não confia inteiramente nas próprias articulações. O meu, ultimamente, vinha pertencendo à segunda categoria. Estava reaprendendo a sair, a circular pelo mundo e, sobretudo, a acreditar que a vida lá fora não oferecia riscos a cada esquina.
Foi então que surgiu um convite. Uma companhia muito agradável, dessas que fazem a gente esquecer por algumas horas as recomendações de cautela, teve a delicadeza de dizer:
— Pode escolher o lugar, joelho.
O joelho gostou da consideração. Afinal, não é todo dia que alguém lhe oferece poder de decisão. Animou-se. Escolheu, ou concordou com a escolha, e lá se foi para uma noite que prometia ser muito boa.
E foi.
Houve música boa, conversas melhores ainda e aquela espécie de sintonia que faz o tempo passar sem que ninguém precise consultar o relógio. Em algum momento, houve até mar. Um mar noturno, um tanto misterioso, desses que parecem guardar segredos e que, naquela noite, inspirava mais respeito do que intimidade. Estava muito escuro, o vento soprava com vontade e, entre o desejo de contemplar a paisagem e a prudência de quem não enxerga muito bem onde pisa, prevaleceu uma cautela compartilhada. Afinal, há situações em que a vulnerabilidade aproxima, mas também recomenda que se mantenha uma distância respeitosa do desconhecido.
O joelho, entretanto, já se considerava vitorioso. Tinha saído de casa, enfrentado a noite, apreciado a música, participado das conversas e chegado perto do mar. Para quem estava reaprendendo a viver, não era pouco.
E foi aí que o destino, sempre tão empenhado em participar das nossas histórias sem ser convidado, resolveu introduzir um elemento surpresa.
No meio do caminho tinha um buraco.
Tinha um buraco no meio do caminho. (mas que joelho metido de Nicolai a Andrade?!!!)
E o joelho não viu o buraco.
Talvez estivesse distraído com a conversa. Talvez tenha confiado demais na qualidade da companhia. Talvez tenha concluído, ingenuamente, que uma noite tão agradável não poderia terminar com uma ocorrência de natureza geológica. O fato é que, sem aviso prévio, o joelho foi ao chão.
Não houve tempo para reflexões filosóficas, despedidas elegantes ou qualquer tentativa de preservar a dignidade. Houve apenas a queda, o susto e, logo depois, a constatação de que a cena tinha um potencial cômico considerável.
Riram-se. E ainda bem. Porque algumas quedas, quando encontram o ambiente certo, perdem parte da gravidade e ganham valor de anedota. A noite continuava leve, a companhia continuava agradável e o joelho, apesar do incidente, ainda não tinha motivos para registrar uma reclamação formal contra o passeio.
A calça jeans, por sua vez, saiu absolutamente ilesa. Um tecido digno de nota, resistente, discreto e fiel à sua missão de proteger a aparência dos acontecimentos. Nem um rasgão, nem um sinal de desgaste. Por fora, tudo em ordem. Por dentro, o joelho começava a redigir seu relatório de danos.
Porque há uma diferença importante entre a roupa e quem a veste: a roupa pode atravessar uma queda sem perder a compostura. O joelho, não. O joelho sente. O joelho registra. O joelho guarda ressentimentos que só se manifestam horas depois, quando a pessoa já está em casa e começa a perceber que o corpo tem uma contabilidade própria, independente da memória afetiva da noite.
Ainda assim, seria injusto atribuir à queda o poder de estragar o passeio. Não estragou. Nem por um minuto.
O joelho voltou para casa com um arranhão, algumas queixas a serem apresentadas oportunamente e uma história para contar. E, convenhamos, há joelhos que passam anos sem protagonizar absolutamente nada. O meu, em uma única noite, conseguiu música, mar, boas conversas, um pequeno incidente e algumas risadas. Não é exatamente o currículo de uma celebridade, mas está longe de ser monótono.
Agora, encontra-se em fase de recuperação e de reavaliação dos seus critérios de segurança. Continua disposto a sair, embora defenda que os próximos passeios sejam realizados em terrenos previamente vistoriados e, se possível, com iluminação pública satisfatória. Não pretende abandonar a vida social, apenas gostaria que ela colaborasse um pouco mais com sua integridade física.
Quanto à companhia, permanece muito bem avaliada. Afinal, uma noite agradável não perde seus méritos por causa de um buraco no caminho. E, se houve alguma coisa que o joelho aprendeu, foi que certas companhias tornam até os tropeços mais suportáveis — e algumas histórias ficam melhores justamente porque não saem como planejado.
Só não se sabe se, no próximo convite, o joelho terá novamente o privilégio de escolher o lugar ou se precisará apresentar, antes, um laudo das condições do percurso.
Por enquanto, segue reaprendendo a sair e a viver, com um arranhão que a calça se recusou a testemunhar e uma memória que, felizmente, não sofreu nenhuma lesão.
Porque o joelho pode até ter caído.
Mas a noite, essa ficou de pé.




























