sexta-feira, 6 de novembro de 2026 – 12h35

A Invasão das Guaraçumas

Histórias do Velho Capita
Ilustração: ArquivoPessoal

Toda manhã, antes de pegar o bonde para o Colégio Diocesano, eu dava um mergulho no mar na praia da Avenida da Paz. Certa vez notei que a água não estava com a cor verde azulada habitual, a superfície tremeluzia, alguma coisa estranha acontecia, quando cheguei à beira-mar percebi diversos pescadores jogando redes, anzóis, tarrafas. Um enorme cardume de guaraçumas, peixe da família do xaréu, invadiu a enseada da praia da Avenida. Dei o mergulho vários peixes nadavam à beira-mar. Um arrastão chegava com os pescadores puxando a rede lotada, quase estourando de tanto peixe. Fui ao Colégio; quando retornei perto do meio-dia, notei que a praia continuava cheia de gente com caniço e samburá. O cais do porto repleto de pescadores profissionais e amadores jogando suas varas, suas redes. Passei a tarde pescando com minha tarrafa. No dia seguinte continuou a inexplicável invasão das guaraçumas. Quase toda população de Maceió levou caniço ou tarrafa para a praia e para o cais. À noite a enseada da praia da Avenida tornou-se uma festa: fachos acesos à beira do cais; nas canoas e jangadas dentro d’água. As guaraçumas, atraídas pelo fogo dos fachos, pulavam e caíam dentro da embarcação.

Até hoje ninguém soube explicar este fenômeno. Por algum tempo a miséria havia acabado. Tinha guaraçuma para quem quisesse: o pobre, o rico e o miserável, menino, velho e mulher. Maceió se fez em festa. Foram treze dias, doze noites, o mar tornou-se cinzento de tanto peixe pular, cardumes e mais cardumes renovavam-se invadindo a enseada. Fenômeno jamais visto no mundo.

Nessa época os negociantes de automóveis encheram Maceió com um novo tipo de jipe, vendido em grande quantidade, logo apelidados de guaraçumas. Até hoje, o jipe 1954 é chamado de Guaraçuma pelos colecionadores.

A Gazeta de Alagoas publicou uma reportagem no dia 28 de abril de 1954 que dizia assim: “ABUNDÂNCIA E PESCA – O pescado guaraçuma afluiu em quantidade espetacular à praia da Avenida da Paz. Gente muita se fez da pescaria, aproveitando o extraordinário volume de peixes surgidos ali. Muita gente pobre serviu-se à farta desse gênero de alimentação. Nesses últimos dias houve na cidade peixe de muito boa qualidade e extremamente barato. Muito pescado vendido a preço irrisório…”

Técnicos da mais alta estirpe tentaram explicar esse fenômeno. Pesquisadores da UFAL, engenheiros de pesca do Recife. Veio gente da Bahia e até do Japão. Cada qual com uma teoria diferente.

Eu gostava de conversar com o Cabo Jorge, motorista do Comandante da Polícia (meu pai). O Cabo era pai de santo de um terreiro para as bandas do Alto de Ipioca. Para ele a invasão das guaraçumas foi obra de Yemanjá, a rainha do mar, presenteou a cidade com 13 dias de fartura com muito peixe, para compensar o afogamento misterioso há cerca de um mês do bonito jovem pescador, Antônio, que sabia tanto nadar, “mas Yemanjá o levou. Está vivendo com ela no fundo do mar.”

Achei a teoria do velho Cabo Jorge mais verossímil que as tantas teorias técnicas que vieram até do Japão para dar um parecer sobre a enigmática invasão das garaçumas, acontecida apenas uma vez no mundo e na praia da Avenida da Paz.

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