terça-feira, 29 de setembro de 2026 – 19h41

De reduto tucano a capital bolsonarista: o que mudou no voto de Maceió em 2018

Comportamento eleitoral de Maceió pode ser mais complexo do que simples identificação com candidato presidencial
Manifestante, nas comemorações do 7 de Setembro, em Maceió - Foto: Ana Karina Moraes / NC

Depois de alternar entre Lula (PT), candidatos do PSDB e Dilma Rousseff (PT), Maceió entrou numa eleição que mudou a direção da diferença em relação ao restante de Alagoas.

Até 2014, Maceió havia construído uma trajetória eleitoral difícil de encaixar num único campo político. Em 2002, a capital votou em Lula. Em 2006 e 2010, preferiu os candidatos do PSDB, Geraldo Alckmin e José Serra. Em 2014, voltou a escolher Dilma Rousseff.

Havia, portanto, uma característica que se repetia: Maceió frequentemente votava de maneira diferente de Alagoas, mas não havia uma direção permanente nessa diferença.

Então veio 2018.

A eleição de Jair Bolsonaro, então candidato do PSL, marcou uma mudança importante nessa trajetória. No segundo turno, Bolsonaro recebeu 61,63% dos votos válidos em Maceió. Em Alagoas, entretanto, o resultado foi diferente: Fernando Haddad, candidato do PT, venceu no estado.

A diferença entre a votação de Bolsonaro em Maceió e Alagoas ultrapassou 21 pontos percentuais, a maior registrada na série de eleições presidenciais nos últimos 20 anos.

Mas a mudança já podia ser percebida no primeiro turno.

Bolsonaro foi o candidato mais votado em Maceió, enquanto Haddad apareceu em segundo lugar e Ciro Gomes em terceiro. Ou seja, quando a disputa chegou ao segundo turno, Bolsonaro já havia construído uma vantagem importante na capital.

Isso ajuda a entender a dimensão da mudança.

Em 2014, Dilma Rousseff havia vencido em Maceió. Quatro anos depois, o eleitorado da capital colocava Bolsonaro na frente com uma margem muito ampla.

Mas o que exatamente havia mudado?

O resultado de 2018 pode ser visto como uma ruptura na trajetória anterior de Maceió. Mas isso não significa que ali tenha surgido, do nada, um eleitorado de direita.

Os quatro ciclos anteriores mostram uma história mais complexa. A capital havia escolhido Lula em 2002, Alckmin em 2006, Serra em 2010 e Dilma em 2014.

O que esses resultados sugerem é que Maceió já apresentava uma dinâmica eleitoral própria. O que muda em 2018 é a direção dessa diferença e sua intensidade.

Ao mesmo tempo, o resultado estadual caminhou em outra direção.

Maceió e Alagoas, mais uma vez, produziram mapas eleitorais diferentes. Só que, dessa vez, a distância foi excepcionalmente grande.

A pergunta passa então a ser outra: por que essa diferença, que já existia antes de Bolsonaro, encontrou nele uma expressão tão forte?

Os números eleitorais não respondem sozinhos. Mas o primeiro turno acrescenta uma informação importante à investigação.

Bolsonaro já havia sido o candidato mais votado em Maceió antes que a disputa ficasse restrita a ele e a Haddad. No país, Bolsonaro e Haddad foram os dois candidatos que avançaram para o segundo turno. Isso significa que a vantagem de Bolsonaro na capital não apareceu apenas na etapa final da eleição.

Mas também não significa que todos os eleitores que votaram nele no primeiro turno tenham necessariamente mantido a mesma escolha no segundo. Os resultados agregados não permitem acompanhar a decisão individual de cada eleitor.

O que podemos observar é que, ao final da disputa, Bolsonaro havia conquistado uma maioria bastante expressiva em Maceió.

Isso aconteceu em uma eleição em que o PT não apresentou Lula como candidato. Fernando Haddad assumiu a candidatura petista depois que Lula foi impedido de disputar o pleito por ter sido condenado e preso.

Essa mudança é importante para a leitura histórica. Comparar diretamente o desempenho de Haddad com o de Lula exige cuidado, porque se trata de candidatos diferentes, em circunstâncias políticas diferentes.

Mas, em 2022, o fenômeno se repetiria.

É por isso que 2018 pode ser tratado como um ponto de inflexão da história eleitoral recente da capital — não necessariamente como o nascimento de uma preferência política, mas como o momento em que uma característica anterior ganhou uma nova direção.

A resposta pode estar em outras disputas.

Porque o eleitor que escolhe presidente também escolhe governador, senador e deputado. E não necessariamente precisa fazer a mesma escolha para todos os cargos.

É possível, portanto, que o comportamento eleitoral de Maceió seja mais complexo do que a simples identificação com um candidato presidencial.

Essa hipótese poderá ser testada quando cruzarmos os resultados da eleição presidencial com os das eleições estaduais.

E agora surge uma pergunta ainda mais reveladora:

O maceioense que escolheu Bolsonaro para presidente também escolheu candidatos alinhados a ele para governador?

Se a resposta for não, teremos diante de nós uma característica ainda mais interessante do eleitorado da capital: a possibilidade de um voto presidencial fortemente definido, mas acompanhado de escolhas diferentes nas disputas locais.

É essa relação entre o voto para presidente e o voto para governador que pode revelar o próximo capítulo da história eleitoral de Maceió.

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