domingo, 27 de setembro de 2026 – 18h07

Maceió nunca votou como Alagoas: o que 20 anos de eleições presidenciais revelam

Diferença apareceu antes de Jair Bolsonaro e mudou de direção ao longo do tempo
Manifestação em Maceió, no 7 de Setembro de 2026 - Foto: Ana Karina Moraes / NC

Há uma característica que atravessa as últimas duas décadas das eleições presidenciais em Alagoas: Maceió frequentemente não vota da mesma maneira que o conjunto do estado.

A constatação aparece quando os resultados das seis últimas eleições presidenciais – de 2002 a 2022 – são colocados lado a lado. Em alguns pleitos, a capital escolheu um candidato que perdeu no conjunto de Alagoas. Em outro, acompanhou o resultado estadual. A direção mudou ao longo do tempo.

O dado é especialmente relevante diante da imagem que Maceió passou a carregar nos últimos anos, de capital eleitoralmente alinhada a Jair Bolsonaro. 

Bolsonaro, então candidato do PSL, venceu a disputa presidencial na cidade em 2018 e novamente em 2022.

Mas a série histórica mostra que a distância entre Maceió e o restante do estado não começou em 2018. Ela já estava presente em eleições anteriores. Em 2002, apareceu inclusive em favor de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diferentemente do estado, que votou em José Serra (PSDB).

Para medir essa diferença, é necessário comparar os resultados do segundo turno presidencial, em Maceió, ao longo de 20 anos, com o conjunto de Alagoas.

 

Ano Candidato  Maceió Alagoas Diferença
2002 Lula 60,24% 43,61% +16,63 p.p.
2006 Alckmin 51,27% 38,55% +12,72 p.p.
2010 Serra 60,80% 46,37% +14,43 p.p.
2014 Dilma 51,07% 62,12% −11,05 p.p.
2018 Bolsonaro 61,63% 40,08% +21,55 p.p.
2022 Bolsonaro 57,18% 41,32% +15,86 p.p.

 

A primeira conclusão é direta: a diferença entre Maceió e Alagoas antecede Bolsonaro em, pelo menos, quatro eleições presidenciais.

Em 2002, Lula venceu em Maceió no segundo turno, com 60,24% dos votos válidos. No conjunto de Alagoas, porém, ficou com 43,61%, Serra, que obteve 56,39%. A diferença da votação entre a capital e o estado foi de 16,63 pontos percentuais.

O resultado é importante porque mostra que a diferenciação eleitoral da capital não surgiu posteriormente, com a ascensão da direita nacional. Em 2002, o candidato, que teve maior votação em Maceió foi justamente aquele que representava a esquerda.

Quatro anos depois, a configuração se inverteu. O resultado de 2006 é particularmente significativo porque Maceió foi a única capital do Nordeste em que Geraldo Alckmin – então candidato do PSDB, tido como uma legenda de direita – venceu no segundo turno daquele ano.

Alckmin ganhou com  51,27% contra Lula, que obteve 48,73%. No conjunto de Alagoas, entretanto, Lula chegou a 61,45%, bem acima dos 38,55% de Alckmin. A diferença da votação de Alckmin entre a capital e o estado foi de 12,72 pontos percentuais.

Entre 2002 e 2006, portanto, a Maceió não manteve uma preferência fixa por um determinado campo político. O que se manteve foi outra característica: a diferença entre o comportamento eleitoral da capital e do estado.

Em 2010, a divergência voltou a aparecer.

José Serra, candidato do PSDB, que seria uma força política opositora ao PT, obteve 60,80% dos votos válidos em Maceió. Dilma Rousseff, a candidata do PT e de Lula, ficou com 39,20%.

No estado, o resultado foi diferente: Dilma venceu com 53,63%, contra 46,37% de Serra.

A diferença da votação de Serra, entre Maceió e Alagoas, chegou a 14,43 pontos percentuais.

Foi o segundo ciclo consecutivo em que Maceió escolheu um candidato presidencial que perdeu no conjunto do estado.

A característica persistente, portanto, não era a escolha por determinado partido ou candidato. Era a autonomia do voto da capital em relação ao voto estadual.

Em 2014, essa sequência foi interrompida.

Em 2014, Maceió acompanhou o resultado estadual. Dilma Rousseff venceu em Maceió com 51,07% dos votos válidos. Em Alagoas, sua votação em Dilma foi ainda maior: aproximadamente 62,12%.

Dessa vez, portanto, a capital e o estado escolheram a mesma candidata.

Esse episódio é fundamental para interpretar os dados anteriores. Se a trajetória fosse linear, seria possível esperar que a capital continuasse votando sistematicamente contra o candidato que liderava no estado. Não foi o que ocorreu em 2014.

Quatro anos depois, porém, a história mudou novamente.

Jair Bolsonaro venceu o segundo turno em Maceió, com 61,63% dos votos válidos. No conjunto de Alagoas, Bolsonaro obteve 40,08%. Fernando Haddad, candidato do PT e representante de Lula, que se encontrava preso, venceu no Estado com 59,92%.

A diferença da votação de Bolsonaro entre Maceió e Alagoas chegou a 21,55 pontos percentuais.

Mas os dados históricos recomendam cautela. A existência de diferenças anteriores mostra que o fenômeno eleitoral da capital não nasceu em 2018. O que aconteceu foi uma nova configuração desse fenômeno.

Em 2022, a escolha de 2018 se repetiu.

Em 2022, Jair Bolsonaro, agora candidato pelo PL, venceu novamente em Maceió, com 57,18% dos votos válidos, no segundo turno.

Em Alagoas, entretanto, Lula, que voltou a disputar as eleições, ganhou com 58,68%. Na capital, o candidato do PT obteve 42,82%.

A diferença entre a votação de Bolsonaro em Maceió e a sua votação no estado foi de 15,86 pontos percentuais. Isso significa que a distância continuou grande, mas foi menor do que em 2018.

Em quatro anos, Bolsonaro passou de 61,63% para 57,18% em Maceió, uma redução de 4,45 pontos percentuais.

Lula, por sua vez, passou de 38,37% para 42,82% na capital, um crescimento de exatamente 4,45 pontos.

A divergência de escolha entre Maceió e Alagoas, que havia chegado a 21,55 pontos em 2018, caiu para 15,86 pontos em 2022.

A capital permaneceu distante do estado, mas a intensidade dessa diferença diminuiu.

O que há em Maceió?

Em vez de se perguntar simplesmente quando Maceió “se tornou bolsonarista”, os dados sugerem uma investigação mais ampla.

Por que a capital frequentemente se comporta de maneira diferente do restante de Alagoas? Por que, a partir de 2018, essa diferença passou a favorecer Jair Bolsonaro?

Os resultados eleitorais permitem medir a distância entre os comportamentos agregados de Maceió e Alagoas. Eles não permitem, entretanto, identificar o comportamento individual dos eleitores.

Também não é possível concluir, apenas com esses números, que a população de Maceió tenha uma identidade ideológica homogênea.

A imagem que começa a surgir, depois de duas décadas de resultados eleitorais, é mais complexa do que a expressão “capital bolsonarista” sugere.

Maceió foi, de fato, a única capital do nordeste onde Bolsonaro venceu, nos dois turnos, as duas últimas eleições presidenciais. Mas, a característica que chama atenção, quando se recua até 2002, é outra.

A capital alagoana já se comportava de maneira diferente do estado em eleições presidenciais anteriores à existência da candidatura de Bolsonaro.

O que mudou, a partir de 2018, foi a direção dessa diferença e, sobretudo, sua magnitude.

Se a primeira pergunta era “quando começou a diferença de escolha eleitoral entre Maceió e Alagoas?”.

Os dados já oferecem uma resposta: ela está presente, pelo menos, desde 2002.

 

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