Quando se fala em transplante, uma modalidade menos conhecida é capaz de reconstruir estruturas comprometidas por traumas, tumores ou outras condições ortopédicas: o transplante musculoesquelético. Ossos, tendões, cartilagens, meniscos e ligamentos, provenientes de doadores, podem ser utilizados para devolver função e qualidade de vida a pacientes.
Em Alagoas, a Santa Casa de Maceió é a única instituição a realizar esse tipo de transplante. O primeiro procedimento do estado ocorreu em 2024, em uma paciente de 90 anos que recebeu um enxerto de úmero proximal (região superior do osso do braço, próxima ao ombro).
Em fevereiro de 2025, outros dois procedimentos foram realizados pelo Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa, ampliando a experiência da instituição na área.
O cirurgião ortopédico Hélio Ribeiro, da Santa Casa de Maceió, explica que o transplante musculoesquelético pode ser indicado em fraturas complexas, tumores ortopédicos, revisões de próteses com grandes perdas ósseas e lesões graves de ligamentos.
“Em revisões de próteses, muitas vezes os pacientes perdem segmentos ósseos. Precisamos substituir esse segmento com uma nova prótese e um enxerto”, explica.
Uma das aplicações está nas lesões ligamentares complexas do joelho. Em alguns casos, três ou mais ligamentos precisam ser reconstruídos. Sem tecidos de um doador, pode ser necessário retirar tendões do próprio paciente, o chamado autoenxerto.
“Acabamos fazendo um dano para cobrir outro. Com o transplante musculoesquelético, conseguimos obter esses enxertos e fazer a substituição dos ligamentos sem danificar outras estruturas”, afirma Ribeiro.
Diferentemente dos transplantes de órgãos sólidos, como coração e fígado, os tecidos musculoesqueléticos passam por processamento e armazenamento em temperaturas que podem chegar a 80 graus Celsius negativos.
Segundo Hélio Ribeiro, esse processo reduz de forma significativa a capacidade do tecido de provocar uma resposta imunológica. Por isso, os pacientes que recebem esses enxertos não necessitam, em geral, dos medicamentos imunossupressores utilizados após transplantes de órgãos sólidos.
A idade também não é, isoladamente, um impedimento, como mostrou o primeiro procedimento realizado em Alagoas, em uma paciente de 90 anos. A complexidade depende principalmente da cirurgia necessária e das condições clínicas de cada pessoa.
A pergunta pode ser desconfortável, mas está entre as dúvidas que cercam a doação de tecidos musculoesqueléticos. Se ossos e tendões são retirados, o que acontece com o corpo?
Hélio Ribeiro explica que, após a captação, é realizada a reconstrução das regiões de onde os tecidos foram retirados, inclusive com a utilização de materiais sintéticos. “O paciente não fica deformado. A gente refaz todo o corpo da pessoa e o entrega para que a família possa fazer o velório”, afirma.
Esclarecer esse processo, segundo o especialista, é importante para enfrentar um dos receios que podem levar famílias a recusar a doação.
Banco especializado
Alagoas não possui banco de tecidos musculoesqueléticos. Como hospital transplantador, a Santa Casa de Maceió mantém parceria com o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro.
Quando um paciente necessita de transplante musculoesquelético, o caso é discutido com o banco para a definição do enxerto adequado. O tecido é então enviado para Maceió seguindo condições rigorosas de transporte e conservação.
“Existe um transporte em que precisamos ter cuidado para que essa peça não deteriore. Normalmente, ela chega cerca de 24 horas antes de ser implantada”, explica Ribeiro. Na Santa Casa, o enxerto permanece armazenado em condições específicas até a cirurgia.




























