sexta-feira, 16 de outubro de 2026 – 19h47

Tônia Rendeira

Histórias do Velho Capita
Tônia Rendeira - Imagem: ArteGenerativa/Gemini-IA/Lutello

A sexta-feira não havia amanhecido, o povoado do Pontal da Barra dormia. No quarto escuro, Yara, barriguda, pesada, levantou-se quando as primeiras nuvens iniciaram a alaranjar-se. Ouvia-se apenas o barulho das marolas da lagoa e o vento batendo nas palhas dos coqueiros. Manduca acordou-se ainda madrugada era a melhor parte do dia para pescar. A esposa preparou café com macaxeira frita, pão torrado e ovos para marido e seu companheiro de pesca, Zé Doidão, um menino retardado mental, pelos 11 anos, conhecia a lagoa como ninguém. Tomaram o café reforçado, desceram ao quintal, abriram a portinhola da cerca baixa. Ao puxaram a lona de cima da canoa, ouviram o chamado de Yara.

– Manduca, acho que vai ser agora, as dores estão chegando a todo instante.

Ele correu à casa de Dona Guilhermina, parteira de alta competência, anos de experiência. A comadre penetrou casa adentro trazendo o material, mandou Yara tirar a roupa, colocou a chaleira para ferver. Com Manduca assistindo em poucos instantes tirou a menina da barriga da mãe. Yara, deitada com a criança enrolada, conseguiu comentar.

– Foi rápido demais, parece que essa menina estava com pressa de chegar ao mundo.

Zé Doidão saiu de porta em porta contando em seu linguajar confuso que nascera um neném na casa de Seu Manduca. Em pouco tempo os vizinhos sabiam que Yara dera à luz a uma menina. As amigas entraram na casa sem cerimônia. Yara deitada na cama, olhava com carinho a filha, feliz em ter parido aquela criança tão bonita. Dona Zeca, mãe de Manduca, perguntou qual o nome da criança. Yara olhou para o marido como se pedisse apoio, respondeu sorrindo.

– Antônia, igual a meu pai, Seu Antônio, criatura maravilhosa, bondosa que me criou cheio de amor, desde que minha mãe morreu.

Manduca completou.

– Minha filha Antônia vai ser médica ou advogada. Viva Tônia. Antônia Pereira Lins!

Desistiu da pesca naquela sexta-feira. Festeiro, foi comprar os condimentos para preparar uma caldeirada de peixe, outra de sururu, haveria uma farra com as visitas que certamente viriam conhecer Tônia. No espaçoso quintal colocou dois cavaletes e completou com tábuas por cima. Estava pronta a mesa. Em poucos instantes apareceu, Jacy, irmã de Yara, seu marido, Pedro Lampião, estava trabalhando, era o Comandante da Lancha do Horário. Pela manhã partiu navegando do cais das lanchas na Praça Pingo D’Água, percorreria as pequenas cidades e povoados à beira das lagoas, embarcando e desembarcando cargas e passageiros.

Jacy, grávida de poucos meses, ajudou a preparar as comidas com outras amigas, enquanto Manduca providenciava bebidas, gelos e complementos. Em momentos aumentou o movimento na casa.

Yara não se cansava de olhar sua pequena Tônia, pensava: O que será dessa coisa linda? O que a vida prepara para meu amor? Tônia na paz de criança dormindo, vez em quando abria o choro, Yara dava-lhe o peito, ela sugava com força. O ventilador de teto abrandava o calor.

A residência era geminada como todas as outras da rua principal. Uma porta, duas janelas. A casa pertencia a Dona Zeca, viúva do Sargento Agamenon da Força Expedicionária Brasileira – FEB, morreu em 1943 nos campos de batalhas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial lutando contra o Fascismo. A casa era estreita, porém, tinha espaçoso comprimento, da rua principal à beira da Lagoa. A sala da frente foi transformada em loja, seguia um corredor com três quartos e um banheiro. No fundo havia uma sala de estar, ao lado, uma escada circular dava para dois quartos no segundo andar. Seguida a sala, uma boa cozinha e área de serviço; à beira da lavanderia descia oito degraus para o vasto quintal cercado à beira da Lagoa Mundaú. A família vivia da pesca do Manduca e das peças de renda, feitas artesanalmente por Dona Zeca e Yara. Davam para sustentar a casa.

Naquele 27 de janeiro de 1950, a casa de Manduca encheu-se de amigos, como ele esperava. Comida e bebida à vontade; vez em quando o pai carinhoso entrava no quarto admirando a beleza da criança. Encantava-se com Tônia dormindo junto à mãe. Yara sorria, achava graça na adoração do pai à primeira filha.

OBS – TEXTO INICIAL DO MEU NOVO ROMANCE “TÔNIA RENDEIRA”, LANÇAMENTO BREVE.

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