Haroldo dirigia feliz seu Gordini vermelho, era noite de sexta-feira, véspera de Santo Antônio, dia dos namorados. Solteiro, boêmio, 25 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de carro, resolveu trancá-lo, travá-lo, dia seguinte viria com um mecânico. Com o dedo polegar ficou a pedir carona aos carros em direção ao Zinga. Parou uma Kombi, eram vários amigos, tinham o mesmo destino.
O Zinga Bar foi um empreendimento arrojado de Cláudio Barbosa, a construção estendia-se à praia de Riacho Doce, o grande sucesso da cidade dos anos 60, aliás, revolucionário para aquela geração que mudou o mundo. As moças casadouras naquela época só saiam à noite acompanhadas dos pais para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar as jovens de Maceió não foram mais as mesmas, deram um grito de liberdade frequentando aquele Bar-Restaurante-Boate. Dava-se início a revolução sexual das moças de Maceió. A virgindade deixou de ser tabu.
Tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo o mar de Riacho Doce. Mesa cheia, além dos amigos e Haroldo, completavam mais três belas jovens e uma coroa risonha, à beira dos cinquenta. Conversa divertida, maior alegria. Quando a banda iniciou os acordes de “Love is a many splendored thing”. Yolanda, a coroa, convidou Haroldo para dançar. No dancing romântico, bela vista ao mar, se juntaram iniciando o arrastar com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou Haroldo, arrochou, rosto e corpo colocados, mudos, o carinho da mão na nuca, falavam mais que qualquer palavra, plena excitação.
A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava as pernas de Haroldo. A Banda animou no São João, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, como no céu vai sumindo…” Todos levantaram dançando quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Haroldo e Yolanda se atraiam. Deu-se o desejo imenso, ânsia louca de beijo na boca. Haroldo pediu a Kombi emprestado por uns instantes. O casal entrou na Kombi, dois quilômetro a mais Haroldo encostou a Kombi embaixo de uma árvore, ao luar de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem, era dia dos namorados.
Retornaram com aquele sorriso maroto de felicidade dos bem amados satisfeitos, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, fazer amor é natural como tomar um copo d’água para matar a sede. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios foram cumprimentar o dia nascendo andando na praia, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão.
Dia seguinte Haroldo acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo, mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. A grande surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente do dia dos namorados, beijo de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Um dia dos namorados inesquecível.




























